Quinta-feira, 23.02.12

Zona euro: expulsar a Grécia, uma cura pior que a doença

 

"Obrigar a Grécia a sair da zona euro, erguer uma parede que nos proteja dela e construir a Europa federal? Esta ideia parece seduzir alguns dirigentes europeus. Mas não seria suficiente para regular a crise, e o preço a pagar seria o fim da nossa cultura comum, prevê a editorialista Barbara Spinelli.

 

Estamos habituados a dizer que, afinal de contas, a falência da Grécia não é o desastre que receávamos ao fim de tantos anos. Que, para esta doença incurável, basta o afastamento e, com isso, retirar Atenas da zona euro, como se fizéssemos uma apendicectomia.

 

O importante é evitar o contágio e não é por acaso que se fala de guarda-fogos quando se referem os novos fundos europeus de resgate, um guarda-fogo capaz de proteger os sistemas informáticos contra intrusos: os que ficarem lá dentro ficama salvodos que, atingidos pela desgraça, estão quase a cair ao mar.

 

À semelhança da linha Maginot, traçada pelos franceses para proteger o país dos ataques alemães nos anos de 1920 e 1930, o guarda-fogo evoca a ideia do universo fechado de uma clínica e da guerra: a ideia de uma parede inviolável é tranquilizadora, mesmo quando sabemos o que aconteceu à linha de defesa francesa. Caiu com um só golpe. O historiador Marc Bloch falou de uma "estranha derrota" porque o colapso deu-se primeiro nos espíritos, antes da queda da linha Maginot, "na retaguarda da sociedade civil e política", na frente de batalha.

 

Ninguém acredita neste guarda-fogo irreal

 

De facto, ninguém acredita neste guarda-fogo irreal que alimenta a imaginação enfraquecendo a razão. Se assim não fosse, a União Europeia não teria tomado a decisão, a 21 de Fevereiro, de autorizar o enésimo empréstimo colossal à Grécia. Se assim não fosse, nunca se pensaria em atribuir à UE uma nova arquitetura: mais federal, sob os auspícios de um governo europeu, no qual os Estados-membros delegam mais soberania.

 

As coisas avançam lentamente e ninguém se detém no fulcro do problema (os recursos que a UE vai ter para conseguir um programa eficaz de investimentos).

 

Às vezes temos a impressão de que os "grandes" governos estão à espera da falência da Grécia para construírem uma UE à medida dos seus desejos. É esta a tese avançada por Kenneth Rogoff, o economista entrevistado pelo Spiegel: assim que Atenas for expulsa da UE, os Estados Unidos da Europa vão poder concretizar mais depressa o que tinham previsto, graças à crise. Mas será possível a verdadeira emergência de uma nova União Europeia sobre as cinzas da Grécia? E que UE será esta sem a pressão da crise grega?

 

Por enquanto, Atenas vive uma tempestade e, com a multiplicação dos planos a curto prazo, fragiliza a zona euro e a própria ideia de uma Europa solidária na adversidade. Esta última faz mal em querer formar uma federação se a primeira atitude for mandar sair os países que não saírem. A operação "guarda-fogo" é dolorosa para a Grécia, mas também para a Europa.

 

Foi o que Mario Blejer e Guillermo Ortiz, dois antigos banqueiros importantes da Argentina e do México, referiram nas colunas de The Economist, ao lembrarem aos europeus o custo da falência de Buenos Aires, em 2002, e as diferenças entre o desmoronamento da Argentina e aquele que se receia na Grécia. De facto, a Argentina viveu seis anos de crescimento depois da desvalorização da moeda nacional e da desindexação do dólar mas, na altura, não havia uma recessão mundial como a de hoje.

 

A recuperação financeira prolongou-se durante uma década e o peso continua a ser a moeda do país. Em contrapartida, o dracma já não existe e o seu regresso seria um terrível golpe para o país (com as dívidas gregas contraídas em euros, seria possível pagá-las com um dracma desvalorizado?). Segundo os banqueiros entrevistados, esquecemo-nos das vistas curtas do Fundo Monetário Internacional e da duração do craque argentino.

 

Um rancor cheio de agressividade

 

Como é possível a Europa ter chegado a este ponto? Será a economia que vacila, a classe política que está enferma, ou esta não é a sua cultura? De facto, com estas três fragilidades, a Europa vai chegar ao fim de uma provação mais reforçada, ou vai degenerar, de acordo com os remédios aplicados simultaneamente aos três males – economia, cultura, política. No plano cultural, fizemos um recuo de 90 anos nas relações europeias. Quando ouvimos os cidadãos, temos a impressão de recuar aos planos nacionais dos anos de 1920 e 1930. Sente-se um rancor cheio de agressividade. Há meses que as primeiras páginas dos jornais gregos chamam nazis aos dirigentes alemães.

 

Ao mesmo tempo, Atenas desenterra a questão das reparações de guerra que Berlim nunca pagou à Europa ocupada por Hitler. Isto é esquecer o que aconteceu em 1945, quando reiterámos a nossa confiança à nação alemã e nos lançámos na unificação da Europa. Esta confiança tinha um significado preciso, inclusivamente um significado financeiro.

 

As reparações de guerra, sendo uma maldição para a Alemanha do pós Primeira Guerra Mundial e tendo-a mergulhado numa ditadura, já não deviam existir (Israel é um caso à parte).

 

O que combinámos em relação à Alemanha, em 1945, por razões estratégicas, e visto que a cultura política se alterou, não conseguimos manter hoje em relação à Grécia. Os erros de Atenas não são crimes e, no entanto, a Grécia vai ter de os expiar e de os pagar. Até as eleições neste país são vistas com maus olhos.

 

As reparações exigidas são brutais e provocam cólera e ressentimento. É manifesto que não se percebe quais as razões estratégicas que justifiquem a manutenção da Grécia na Europa: para isso, teríamos de ter uma visão do mundo, e a cultura de hoje já não é a dos anos de 1945-1950.

 

Esta regressão tem um impacto desastroso na política. Como será possível a emergência de uma Europa federal quando se impõe uma cultura desligada dos ensinamentos que os europeus retiraram de duas guerras mundiais? A escolha de um presidente como Joachim Gauck, na Alemanha, é uma boa notícia, visto que a população alemã contribuiu para este clima de suspeita, mesmo que algumas vezes se justifique. A Europa precisa de cidadãos esclarecidos e dispensa bodes expiatórios.

 

Precisa de um crescimento diferente, comum e dispensa anos de recessão, de hostilidades intestinas, de hesitações da democracia. Se assim não for, estará votada a conhecer, por seu turno, uma "estranha derrota", com origem na retaguarda da sociedade civil antes de avançar para a linha de defesa erguida ao longo das paredes anticontágio." [Fonte]

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Joao Pedro Dias às 00:19 | link do post | comentar | partilhar

No 107º aniversário de Rotary International, um pilar da construção da paz mundial

Joao Pedro Dias às 00:01 | link do post | comentar | partilhar
Quarta-feira, 22.02.12

Rajoy vai pedir a Bruxelas alívio na redução do défice

Depois de ter assinado, conjuntamente com o Primeiro-Ministro britânico, a carta dirigida às instituições europeias pedindo uma aposta reforçada nas políticas de crescimento económico e não apenas na austeridade, o chefe do governo espanhol continua activo no plano europeu. E a actuar liberto de qualquer dependência de Berlim. Assim, após visita a Londres e cimeira com Cameron, vem anunciar que no domínio do seu programa de ajustamento económico considera um suicídio passar de 8% de défice no ano passado para 4,4%, a meta definida para este ano. Mariano Rajoy vai por isso pedir a Bruxelas um alívio nesta meta, possibilitando a fixação de um novo valor acima dos 5%. É conveniente estar atento a este pedido espanhol e à resposta que poderá surgir de Bruxelas - implicitamente poderá ser aberta a oportunidade de reavaliar os programas de ajustamento em curso. E assim ser criada uma janela de oportunidade, a nível europeu, para reajustar os ajustamentos em curso.

Joao Pedro Dias às 22:34 | link do post | comentar | partilhar

Razões de uma não assinatura (II)

Em post anterior referimo-nos à carta impulsionada por David Cameron e subscrita por 12 Chefes de governo da UE, dirigida a Durão Barroso e a Herman van Rompuy, pedindo uma aposta da UE numa estratégia de crescimento que não assente apenas em medidas de austeridade, carta essa não subscrita por Pedro Passos Coelho. E deixámos a dúvida - se Pedro Passos Coelho não assinou a carta por não concordar com o seu conteúdo ou por não ter sido convidado a fazê-lo. Finalmente, hoje, surgiu a resposta. O Diário de Notícias vem esclarecer a situação. Pedro Passos Coelho não terá assinado a carta por ser considerado um Primeiro-Ministro alinhado com as teses de Angela Merkel. Por outras palavras - não foi convidado a assiná-la. Percebe-se que a situação concreta do nosso país, com uma soberania diminuída e limitada, coloque restrições e limitações à nossa actuação no contexto da UE. Mas sermos vistos como uma extensão informal do governo alemão ou um incondicional seguidor das teses de Berlim não parece ser o melhor cartão de visita para quem quiser recuperar a sua dignidade de Estado soberano. Para além de ir ao arrepio da nossa história, que sempre nos aproximou mais de Londres que de Berlim. Quando este governo tomou posse, um dos votos formulados em matéria de política europeia foi o de que soubéssemos reconquistar o nosso lugar na UE apesar do resgate que éramos alvo. Pelos vistos o voto ainda não se realizou.

Joao Pedro Dias às 20:53 | link do post | comentar | partilhar
Terça-feira, 21.02.12

Cimeira Cameron - Rajoy em Downing Street

Joao Pedro Dias às 23:34 | link do post | comentar | partilhar
Segunda-feira, 20.02.12

A carta que Pedro Passos Coelho não assinou

Herman van Rompuy, President of the European Council

José Manuel Barroso, President of the European Commission


We meet inBrusselsat a perilous moment for economies acrossEurope. Growth has stalled. Unemployment is rising. Citizens and businesses are facing their toughest conditions for years. As many of our major competitor economies grow steadily out of the gloom of the recent global crisis, financial market turbulence and the burden of debt renders the path to recovery inEuropemuch harder to climb.


Europehas many fundamental economic assets. But the crisis we are facing is also a crisis of growth. The efforts that each of us are taking to put our national finances on a sustainable footing are essential. Without them, we will not lay the foundations for strong and lasting economic recovery. But action is also needed to modernise our economies, build greater competitiveness and correct macroeconomic imbalances. We need to restore confidence, among citizens, businesses and financial markets, inEurope’s ability to grow strongly and sustainably in the future and to maintain its share of global prosperity.


We discussed these issues when we last met. It is right that we discuss them again. Building on the conclusions we have previously reached, it is now time to show leadership and take bold decisions which will deliver the results that our people are demanding. We welcome the steps being taken, nationally and at the European level, to address this challenge and look forward to agreeing further concrete steps at our next meeting, with action focused on eight clear priorities to strengthen growth.


First, we must bring the single market to its next stage of development, by reinforcing governance and raising standards of implementation. The Commission’s report to the June European Council should set out clear and detailed actions needed to enhance implementation and strengthen enforcement.


Action should start in the services sector. Services now account for almost four fifths of our economy and yet there is much that needs to be done to open up services markets on the scale that is needed. We must act with urgency, nationally and at the European level, to remove the restrictions that hinder access and competition and to raise standards of implementation and enforcement to achieve mutual recognition across the single market. We look forward to the Commission report on the outcome of sectoral performance checks and call on the Commission to fulfil its obligation under the services directive to report comprehensively on efforts to open up services markets and to make recommendations for additional measures, if necessary in legislation, to fulfil the internal market in services.


Second, we must step up our efforts to create a truly digital single market by 2015. The digital economy is expanding rapidly but cross-border trade remains low and creativity is stifled by a complex web of differing national copyright regimes. Action is needed at the EU level to provide businesses and consumers with the means and the confidence to trade on-line, by simplifying licensing, building an efficient framework for copyright, providing a secure and affordable system for cross-border on-line payments, establishing on-line dispute resolution mechanisms for cross-border on-line transactions and amending the EU framework for digital signatures. We should build on the recent proposals of the Commission, without reopening the e-commerce directive, to create a system that balances the interests of consumers, businesses and rights holders, and spurs innovation, creative activity and growth. We must also continue our efforts to build modern infrastructure to provide better broadband coverage and take-up and extend and promote e-government services to simplify the start up and running of businesses and aid the mobility of workers.


Third, we must deliver on our commitment to establish a genuine, efficient and effective internal market in energy by 2014. All member States should implement fully the Third Energy Package, swiftly and in recognition of agreed deadlines. Energy interconnection should be enhanced to help underpin security of supply. Urgent action is also needed, nationally and where appropriate collectively, to remove planning and regulatory barriers to investment in infrastructure to release the potential of the single market and support green growth and a low-emissions economy. We look forward to the Commission’s forthcoming communication on the functioning of the internal market, which should include an assessment of the degree of liberalisation and energy market opening in member States. We also commit to making concrete progress towards the development of a Single European Transport Area and establishing the Connecting Europe Facility.


Fourth, we must redouble our commitment to innovation by establishing the European Research Area, creating the best possible environment for entrepreneurs and innovators to commercialise their ideas and create jobs, and putting demand-led innovation at the heart ofEurope’s research and development strategy. We must also act decisively to improve investment opportunities for innovative start-ups, fast-growing companies and small businesses, by creating an effective EU-wide venture capital regime which allows venture capital funds to operate on a pan-European basis, assessing a proposal for an EU venture capital scheme building on the EIF and other financial institutions in cooperation with national operators, and agreeing a new EU-wide programme, modelled on the Small Business Innovation Research scheme, to promote more effective use of pre-commercial public procurement to support innovative and high tech businesses. Reforms to create an effective and business-friendly system of intellectual property protection remain a very high priority.


Fifth, we need decisive action to deliver open global markets. This year we should conclude free trade agreements withIndia,Canada, countries of the Eastern neighbourhood and a number of ASEAN partners. We should also reinforce trade relations with countries in the southern neighbourhood. Fresh impetus should be given to trade negotiations with strategic partners such as Mercosur andJapan, with negotiations withJapanlaunched before the summer, provided there is progress on the scope and ambition of a free trade agreement. The deals that are currently on the table could add €90 billion to EU GDP.


But we must go further too. We need to inject political momentum into deepening economic integration with the US, examining all options including that of a free trade agreement; seek to deepen trade and investment relations with Russia, following its accession to the WTO; and launch a strategic consideration of our trade and investment relationship with China, with a view to strengthening our economic ties and reinforcing commitment to rules-based trade. Recognising the benefits that open markets bring, we should continue our efforts to strengthen the multilateral system, including through the Doha Development Agenda, strive for multilateral and plurilateral agreements in priority areas and sectors, and resist protectionism and seek greater market access for our businesses in third countries. Above all, we must reject the temptation to seek self-defeating protectionism in our trade relations.


Sixth, we need to sustain and make more ambitious our programme to reduce the burden of EU regulation. We welcome the commitments made by the institutions to reduce burdens on small businesses but urge further and faster progress across the EU institutions while maintaining the integrity of the single market and theUnion’s wider objectives. We should assess the scope for ambitious new EU sectoral targets and agree new steps to bring tangible benefits to industry. We should also make a very clear and visible statement of our intention to support micro-enterprises and ask the Commission to present detailed proposals to achieve this, including possible amendments to existing legislation. We also ask the Commission to publish an annual statement identifying and explaining the total net cost to business of regulatory proposals issued in the preceding year.


Seventh, we must act nationally and, respecting national competences, collectively to promote well functioning labour markets which deliver employment opportunities and, crucially, promote higher levels of labour market participation among young people, women and older workers. Special attention should also be given to vulnerable groups that have been absent from the labour market for long periods. We should foster labour mobility to create a more integrated and open European labour market, for example by advancing the acquisition and preservation of supplementary pension rights for migrating workers, while respecting the role of the social partners. We should also take further action to reduce the number of regulated professions inEurope, through the introduction of a tough new proportionality test set out in legislation. In this context, we ask the Commission to convene without delay a new forum for the mutual evaluation of national practices to help identify and bring down unjustified regulatory barriers, examine alternatives to regulation which ensure high professional standards and assess the scope for further alignment of standards to facilitate mutual recognition of professional qualifications.


Finally, we must take steps to build a robust, dynamic and competitive financial services sector that creates jobs and provides vital support to citizens and businesses. Implicit guarantees to always rescue banks, which distort the single market, should be reduced. Banks, not taxpayers, should be responsible for bearing the costs of the risks they take. While pursuing a level playing field globally, we should commit irrevocably to international binding standards for capital, liquidity and leverage with no dilution, ensuring that EU legislation adheres toBasel3 standards to ensure financial stability and meet the financing needs of our economies. Banks should be required to hold appropriate levels and forms of capital in line with international criteria, without discrimination between private and public equities. We also call for rigorous implementation of the G20 principles on banking sector remuneration in line with existing EU legislation.


Each of us recognises that the plan we propose requires leadership and tough political decisions. But the stakes are high and action in many of these areas is long overdue. With bold and effective action and strong political will we can recoverEurope’s dynamism and put our economies back on the path to economic recovery. We urge you and the European Council to answer our peoples’ call for reform and to help restore their confidence inEurope’s ability to deliver strong and sustainable growth.


We are copying this letter to colleagues on the European Council.

David Cameron

Prime Minister of the United Kingdom

 

Mark Rutte, Prime Minister of the Netherlands | Mario Monti, Prime Minister of Italy | Andrus Ansip, Prime Minister of Estonia | Valdis Dombrovskis, Prime Minister of Latvia | Jyrki Katainen, Prime Minister of Finland | Enda Kenny, Taoiseach, Republic of Ireland | Petr Nečas, Prime Minister of the Czech Republic | Iveta Radičová, Prime Minister of Slovakia | Mariano Rajoy, Prime Minister of Spain | Fredrik Reinfeldt, Prime Minister of Sweden | Donald Tusk, Prime Minister of Poland

Joao Pedro Dias às 20:11 | link do post | comentar | partilhar

Razões de uma não assinatura (I)

[Madrid] Pedro Passos Coelho não assinou a carta que 12 Chefes de governo da UE dirigiram a Durão Barroso e a Herman van Rompuy, pedindo uma aposta da União Europeia numa estratégia de crescimento que não assente apenas em medidas de austeridade. Vendo  que a referida carta foi assinada por Primeiros-Ministros cujos Estados se encontram em francas dificuldades económicas e financeiras, quiçá mesmo se às portas de iminentes resgates financeiros - como a Espanha ou a Itália - e, inclusivamente, pelo chefe do governo da República da Irlanda - Estado já resgatado financeiramente - eu gostaria de saber, como cidadão e como português, se Pedro Passos Coelho não assinou a missiva por não concordar com o seu conteúdo ou por não ter sido convidado a fazê-lo. Não será indiferente a resposta que esta questão obtiver.

Joao Pedro Dias às 19:34 | link do post | comentar | partilhar
Sexta-feira, 17.02.12

Manifesto «Um Tratado que não serve a União Europeia»

«1. Intróito


Em 30 de Janeiro de 2012, 25 dos 27 Estados-membros da União Europeia aprovaram um projecto de tratado internacional designado “Tratado sobre a Estabilidade, a Coordenação e a Governação na União Económica e Monetária”.

 

O projecto dá expressão a decisões que haviam sido adoptadas na Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Europeia de 9 de Dezembro de 2011. Logo aí, ficou a saber-se que o Reino Unido não iria participar em tal tratado. No dia 30 de Janeiro soube-se que também a República Checa tomou a mesma opção. E alguns sinais permitem afirmar que não se pode excluir a possibilidade de mais Estados-membros ficarem pelo caminho.

 

O projecto de tratado em questão gerou, como seria normal, avaliações muito diversas. Os principais promotores saudaram-no como um relevante êxito. Sustentam que a matéria que constitui o seu cerne – o denominado “compacto orçamental” – consagra uma genuína “união orçamental” e, nessa medida, contribui para a resolução da crise das dívidas soberanas. Largas correntes de opinião, pelo contrário, avaliam-no de forma profundamente negativa, designadamente por potenciar a fragmentação da União muito para além do que seria aceitável e insistir numa errada terapia para a saída da crise em que vive há, pelo menos, dois anos, e cujo fim não se divisa no horizonte.

 

Da sondagem promovida pelo Instituto Europeu resulta que existe em Portugal uma ampla maioria favorável ao Tratado Intergovernamental. Também por isso o debate se justifica. Para aferir da validade dos pressupostos da adesão à solução que o Tratado pretende instituir.

 

Os signatários entendem, ainda assim, que é fundamental discutir, em todas as suas incidências, este projecto de tratado de forma a auxiliar o Governo e o Parlamento nas decisões de assinatura e ratificação do Tratado.

 

A situação de dependência financeira em que o País se encontra não pode ser motivo de exclusão da discussão. Até nas situações de guerra se avaliam as possíveis estratégias para a ganhar. Portugal não pode ter medo de existir. A anomia social é um caminho para o insucesso e não para o êxito. A própria procura de consensos alargados e operativos requer a discussão dos problemas e não a supressão do debate.

 

Só com uma estratégia de envolvimento colectivo poderemos reunir energias que, mais do que nunca, não podem ser desprezadas e exerceremos plenamente a cidadania, sem a qual tudo perde sentido.

 

É indispensável, por isso, debater as posições que melhor defendem o interesse nacional e o interesse da União Europeia. Só assim se honra o espaço de pluralidade e liberdade que lhe é matricial. A metodologia da “Europa confidencial” ou da “integração furtiva”, em que muitos objectivamente apostaram desde há demasiado tempo, é aliás uma das causas da decadência do processo de integração europeia. A participação acrítica na actual fase do projecto europeu pode parecer vantajosa no imediato mas comporta elevados riscos num contexto altamente imprevisível e susceptível de rápida mutação. 

 

É, assim, à luz destes propósitos que os signatários deixam à consideração dos seus concidadãos as reflexões que seguem.

 

2. O conteúdo do Tratado

 

Pressionada pelas críticas quanto à ausência de instrumentos para lidar com a crise, designadamente no que diz respeito à existência de um efectivo governo económico europeu, em Novembro de 2011 (cf. JO L 306, de 23.11.2011) a União Europeia publicou vários regulamentos e uma directiva tentando formular uma estratégia de reacção.

 

Pouco depois, veio a prevalecer o entendimento de que uma intervenção ao nível do direito derivado seria insuficiente, aventurando-se no projecto de um novo tratado.

 

O projecto de novo Tratado – que não constitui uma revisão dos Tratados em que se funda a União Europeia – vem exigir aos Estados participantes a consagração nas respectivas Constituições, ou em normas de valor equivalente, do princípio do equilíbrio ou excedente orçamental estrutural, o qual apenas admite desvios temporários em circunstâncias excepcionais, devendo sempre regressar-se a uma situação de equilíbrio ou excedente orçamental (art. 3.º, n.º 2, 1.ª parte). Vem igualmente impor a instituição, a nível nacional, de mecanismos de correcção automática dos desequilíbrios orçamentais com base em princípios comuns a propor pela Comissão Europeia, designadamente quanto ao papel e independência de instituições responsáveis, a nível nacional, por controlar o cumprimento das regras orçamentais (art. 3.º, n.º 2, 2.ª parte), bem como a obrigação de redução da dívida pública à razão de 5% ao ano (1/20) sempre que esta exceda 60% do PIB (art. 4.º). É igualmente imposta a obrigação de implementação de um programa de reformas estruturais (económicas e orçamentais) vinculativo em caso de défice excessivo (art. 5.º) e a apresentação antecipada ao Conselho e à Comissão dos planos de emissão de dívida pública nacional (art.º 6.º). O projecto de Tratado consagra ainda a regra de votação por maioria qualificada «invertida» (art. 7.º) e atribui ao Tribunal de Justiça de poderes de controlo quanto à consagração a nível constitucional ou equivalente do princípio do equilíbrio ou excedente orçamental estrutural e respectivos mecanismos de correcção automática, incluindo a sua vertente institucional (art. 8.º). Prevê ainda a figura da convergência e competitividade reforçadas de forma a melhorar o funcionamento da UEM (art. 9.º), a cooperação reforçada em matérias essenciais para o funcionamento da área do euro, sem pôr em causa o mercado interno (art. 10.º) e a prévia coordenação das reformas económicas a implementar em cada Estado-membro (art. 11.º), institucionalizando as cimeiras da zona euro (art. 12.º) e as conferências orçamentais entre as comissões pertinentes do Parlamento Europeu e dos Parlamentos Nacionais (artigo 13.º). Finalmente, para entrar em vigor, basta que o novo tratado intergovernamental seja ratificado por doze Estados, muito embora apenas se aplique àqueles que procederam à respectiva ratificação (art. 14.º), salvo quanto aos mecanismos institucionais criados (cimeiras da zona euro e conferências orçamentais a nível do Parlamento Europeu e dos Parlamentos nacionais) que são aplicáveis a todas as partes contratantes, mesmo que não tenham ratificado o Tratado (art. 14.º, n.º 4). Estabelece-se ainda uma cláusula de ‘opting in’ para os Estados membros da União Europeia que não sejam partes contratantes (artigo 15.º) e prevê-se uma futura fusão deste Tratado com o Tratado da União Europeia (TUE) e com o Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), o mais tardar cinco anos após a data da sua entrada em vigor (artigo 16.º).

 

3. Um Tratado desnecessário

 

Não obstante identificadas desde o seu início, nunca se verificou da parte dos Estados-membros uma vontade de colmatar as lacunas existentes na arquitectura da União Económica e Monetária, pelo menos pela via da revisão dos tratados institutivos da União e da Comunidade Europeia. Pelo contrário, as sucessivas revisões pós-Maastricht deixaram essa matéria sempre intocada.

 

Num momento que é de urgência, em que os problemas da zona euro se jogam no curto prazo, é paradoxal que se tenha apostado em despender energias na elaboração de um projecto de tratado, para mais numa circunstância em que se verificou não haver consenso para isso entre os 27 Estados-membros, o que só por si enfraquece a solução encontrada.  

 

A surpresa é tanto maior quanto nada do que está consagrado no Projecto de Tratado aprovado pelos 25 Estados-membros é verdadeiramente inovador. E o que verdadeiramente justificaria um tratado de revisão está ausente no projecto agora aprovado.

 

Com efeito, o que se verifica é, no essencial, uma tentativa de elevar ao nível de tratado o fracassado (não por acaso) Pacto de Estabilidade e Crescimento como contrapartida da criação do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE). Aliás, no considerando 23 deixa-se mesmo expressa a existência de uma directa ligação entre a concessão de assistência financeira no quadro de novos programas ao abrigo do Mecanismo Europeu de Estabilidade e a entrada em vigor do Tratado, por um lado, e a consagração em regras vinculativas e de carácter permanente, de preferência a nível constitucional, das disposições de reforço da disciplina orçamental, por outro.

 

As soluções consagradas não traduzem qualquer passo num avanço em sentido federal, ao contrário do que já se tem procurado fazer crer. A esse nível, as disposições do Projecto, embora implicando uma disciplina mais rigorosa sobre as finanças públicas dos países contratantes, não introduzem qualquer inovação significativa. Nem poderiam fazê-lo sema assunçãopelos 27 Estados-membros.

 

Em matéria de coordenação das políticas económicas e convergência não se vai além de expressões genéricas permitindo a um núcleo mais restrito de Estados o aprofundamento da integração. A nota mais saliente é a referência, algo vaga, despida de qualquer especificação, à disponibilidade das Partes Contratantes para recorrerem ao mecanismo das cooperações reforçadas, o que pode, aliás, ser um factor de divisão acrescida no interior da União.

 

As alterações introduzidas quanto à governação da área do euro são de importância reduzida. Passa-se completamente ao lado da questão central. Não se esboça uma tentativa séria de abordagem diferenciada.

 

O Projecto de Tratado não encerra um qualquer plano credível para a resolução dos problemas da zona euro.

 

Não se delineia uma perspectiva de acção, para lá da insistência na disciplina orçamental e na previsão de sanções para os que a incumpram. É pouco, muito pouco. O próprio Jean Claude Juncker, Presidente do Eurogrupo, afirmou já que o conteúdo do Tratado “é amplamente insuficiente”.

 

O projecto induz uma desanimadora sensação de déja vu. Os desequilíbrios da zona euro, antes de serem financeiros, são económicos. Não se resolvem com technicalities, como a criação de uma espécie de indicador de divergência orçamental, susceptível de automaticamente desencadear um mecanismo de correcção. 

 

4. Uma inaceitável metodologia de elaboração

 

Apesar de formalmente aprovado por 25 Estados-membros da União Europeia, existe uma convicção generalizada de que estamos basicamente perante um projecto de tratado que reflecte a estratégia perante a crise de um só Estado: a Alemanha, ainda que apoiada pela França, que só numa fase inicial esboçou alguma reacção ou desagrado. Nada na actual cooperação entre estes dois Estados recorda anteriores momentos de cooperação que contribuíram de forma decisiva para a criação das Comunidades e para o seu progresso.

 

Pode, é certo, adicionar-se como genuínos aderentes à causa alemã alguns Estados da sua órbita económica (Holanda e Áustria) e outros aliados menos frequentes (Suécia e Finlândia), mas a esmagadora maioria das adesões reflecte a ausência de pólos alternativos e, sobretudo, posições de extrema fraqueza e até dependência, por parte de um elevado número de Estados-membros. 

 

Este factor é preocupantemente novo na história da integração europeia. A hegemonia de um Estado-membro da União rompe radicalmente com a sua matriz fundadora.

 

A metodologia de elaboração deste Tratado, mesmo quando comparada com a dos mais recentes tratados, deixa muito a desejar. Este não é um Projecto de Tratado elaborado de forma participada. A inaceitável metodologia que conduziu à sua elaboração reflectiu-se, como não poderia deixar de ser, no seu resultado.

 

5. Um Tratado que divide

 

O Projecto de Tratado sobre a Estabilidade, a Coordenação e a Governação na União Económica e Monetária consuma um caminho europeu à margem dos mecanismos da União Europeia, apesar do propósito, expresso no artigo 16.º, de o incorporar no quadro jurídico da União, o mais tardar, cinco anos após a sua entrada em vigor. 

 

É assim impossível não o ver como um instrumento de divisão. Existem, para já, dois Estados-membros que estão de fora. E obviamente as instituições da União Europeia saem inevitavelmente marginalizadas.

 

Em abono desta metodologia, pode invocar-se o Tratado de Schengen e é verdade, também, que uma integração de geometria variável ou a várias velocidades tem estado presente em diversos momentos da integração europeia, devendo igualmente reconhecer-se a legitimidade das cooperações reforçadas.

 

Mas a matéria da UEM é demasiado nuclear no quadro do projecto europeu para ficar submetida a semelhante metodologia. É certo que em si mesma a UEM comporta uma divisão fundamental, ou seja, a que se verifica entre os países que adoptaram o euro como moeda e aqueles que não querem ou não estão ainda em condições de aceder a essa fase. O que é bem diferente de passar a admitir-se (como sucede com o Tratado em questão) no regime jurídico da UEM regras diferenciadas para além das que são inerentes a essa diferente condição.    

 

É dramático ter de reconhecer que a moeda única, em que sempre se viu um instrumento decisivo para a construção da unidade europeia venha a ser raiz de divisões tão profundas: países do Euro e países de fora do Euro; países do Norte e países do Sul; países ricos e países pobres; países virtuosos e países pecadores, de acordo com uma visão maniqueísta totalmente inadequada a um modelo de integração económica e política.

 

O Projecto de Tratado contém, pois, um alto potencial para acentuar uma dinâmica de divisão da União Europeia.

 

6. Os maiores riscos do Tratado 

 

O Projecto de Tratado reincide no erro de instituir um regime económico sem flexibilidade, em resultado do ainda maior espartilho decorrente das regras orçamentais. Os Estados-membros mais frágeis – já bastante condicionados pela dependência de financiamentos de instituições da União – ficam totalmente desprovidos de instrumentos de política económica para prosseguir os seus objectivos específicos. E não podem sequer beneficiar, como nos Estados Unidos, dos instrumentos próprios do federalismo (designadamente de um poderoso orçamento redistributivo ao nível da União), ficando assim no pior de dois mundos. 

 

A estratégia adoptada é orientada num sentido único. Desvaloriza-se a circunstância de o problema de fundo residir mais no nível dos desequilíbrios nas balanças de pagamentos do que propriamente nos desequilíbrios orçamentais (a Espanhatinha excedentes orçamentais apesar do enorme défice externo): os fundos provenientes dos países com excedentes na balança foram intermediados pelo sistema financeiro para financiar os países com défices na balança. Daí a necessidade de uma visão mais abrangente, mais de conjunto, ao nível da zona euro.

 

A estratégia seguida secundariza o vector do crescimento, pois pretende ajustamentos em períodos muito curtos. Ora, a intensidade do ajustamento pode comprometer o crescimento e gerar uma espiral recessiva.

 

Então, como já alguém disse, em vez de uma união de estabilidade e crescimento teremos uma união de instabilidade e duradoura estagnação. 

 

7. Ultrapassar a divisão

 

O projecto de integração económica europeia nasceu de uma forte motivação para assegurar uma sólida estabilidade política, impedir as guerras e afirmar os valores democráticos. E foi com esse referencial que se desenvolveu um caminho – nem sempre linear e coerente – mas que não pode deixar de nos orgulhar a todos nós, europeus.

 

Porventura, o sucesso do processo de integração europeia e o longo período de paz dentro das fronteiras da União – apesar da proximidade da tragédia dos Balcãs e da proliferação de situações menos satisfatórias do ponto de vista democrático – adormeceram as consciências, ao mesmo tempo que a crescente prosperidade económica (nos últimos anos, no entanto, mais aparente do que real, pelo menos nalguns países) nos fez esquecer as obrigações de solidariedade fundadoras da afirmação de um Pacto Social, em que os cidadãos se reconheçam e pelo qual se disponham a sacrificar-se.

 

A União Europeia precisa de reconhecer a necessidade de renovação do contrato original para, nessa diferença, continuar a assumir um papel decisivo na cena internacional. A Europa unida foi durante demasiado tempo um exemplo para o Mundo para que possa dar-se ao luxo de se transformar num parceiro indiferenciado e incómodo, mero factor de perturbação, incompreensível para tantos que deixaram de encontrar qualquer lógica nas suas opções.

 

8. Resolver os problemas de curto prazo. Construir uma solução sólida e estável.

 

A ultrapassagem das dificuldades económicas e financeiras por parte da União Europeia implica, em nossa opinião, uma solução assente num quadrilátero virtuoso, cujos ângulos são austeridade (como instrumento e não como fim), crescimento, solidariedade e defesa intransigente da democracia.

 

Os passos políticos que têm vindo a ser dados neste sentido são incipientes, timoratos, receosos, em contraste com as inúmeras propostas e sugestões de economistas, financeiros e outros cientistas sociais.

 

Assim e pese embora o facto de Portugal ter uma margem de escolha apertada por precisar desesperadamente de financiamentos da União, a adesão ao Tratado deveria ser acompanhada da defesa de uma estratégia deste tipo, o que implicaria a introdução de correcções nas insuficiências identificadas.

 

8.1. Austeridade

 

Desde o início da crise da dívida soberana – e em claro contraste com as medidas de forte apoio estadual que, um ano antes, tinham sido preconizadas pelo Conselho Europeu e postas em prática –, que a única resposta da União tem sido a insistência na austeridade, acompanhada de medidas de assistência financeira a alguns países sujeitos a programas de estabilização desenhados de acordo com os modelos tradicionais do FMI, mas muito mais agressivos para os cidadãos, por força da impossibilidade de utilização dos mecanismos cambiais.

 

E, no entanto, foi o apoio estadual, semelhante, aliás, àquele que foi posto em prática em todo o Mundo, que permitiu que a crise dos mercados financeiros desencadeada nos Estados Unidos não se tivesse transformado numa depressão semelhante à de 1929.

 

Como notou Amartya Sen, se os dirigentes políticos europeus fazem apelos ao sangue, suor e lágrimas dos cidadãos dos seus países, têm de os motivar. Estamos muito longe, do contexto do apelo de Churchill em defesa da democracia e da liberdade.

 

A austeridade é, obviamente, necessária nos países com fortes desequilíbrios externos e orçamentais, mas é perigosa a sua adopção em países como a Alemanha que, pela sua forte posição excedentária, têm larga margem de manobra para aplicar políticas orçamentais expansionistas indispensáveis à manutenção da zona euro e ao seu crescimento económico.

 

Nos países em que deva ser adoptada, a austeridade deve traduzir-se, designadamente, num combate sem quartel ao desperdício e à corrupção e na racionalização e reorientação da despesa pública visando maximizar a sua eficiência. Não pode ser imposta a qualquer preço, sem qualquer ponderação das circunstâncias concretas de cada economia, com o estabelecimento de prazos irrealistas e prosseguindo metas que constituam sacrifícios intoleráveis para os cidadãos.

 

As políticas de austeridade têm penalizado, de forma especialmente gravosa, os membros mais vulneráveis da sociedade. Este facto, confirmado por estudos da Comissão Europeia, põe em crise os valores essenciais da União.

 

Uma das maiores debilidades do Projecto de Tratado consiste, precisamente, em criar um modelo único de resposta para todos os países da União sem levar em conta os diferentes graus de desenvolvimento, ou a natureza das dificuldades com que estão confrontados. A austeridade nos países deficitários deveria sempre ser compensada por políticas expansionistas nos países excedentários, de forma a permitir uma expansão das exportações daqueles.

 

A prioridade das regras fixas – ainda que com algumas confusas e ligeiras possibilidades de escape – traduz a consagração de uma forma de pensamento rígido, assente na desvalorização da política e na afirmação da perversidade implícita em toda a decisão de política económica. As regras, em vez de terem um enviesamento no sentido das políticas orçamentais restritivas, que limitam o crescimento económico, deveriam não só permitir, mas até impor, políticas orçamentais expansionistas aos países com excedentes substanciais e persistentes, de modo a reduzir os desequilíbrios financeiros no interior da Zona Euro e a facilitar o ajustamento nos países com maiores défices externos.

 

Por outro lado, sem prejuízo de imposição de normas orçamentais mais rigorosas em países com crónicos défices e elevada dívida pública, deve ser admitida uma margem de flexibilidade que permita levar em consideração eventuais agravamentos da situação económica, em especial nos casos em que se deva a acontecimentos externos.

 

De Franklin Roosevelt e Harry Truman aos pais fundadores da União Europeia e à grande geração de políticos europeus do segundo pós-guerra, ficou evidente a importância das decisões de política económica para contrariar as situações de crise económica.

 

A política de austeridade deve ser definida a nível político, com respeito pelas competências parlamentares, e objecto de constante actualização. O avanço para um governo económico europeu não pode ser antecedido pelo prévio confisco dos poderes desse Governo.

 

8.2 Crescimento económico e competitividade

 

O Projecto de Tratado nada diz quanto ao crescimento económico, sendo certo que o crescimento e a competitividade constituem os objectivos cruciais, tanto para Portugal como para a Europa no seu conjunto. É urgente prosseguir uma verdadeira estratégia para o crescimento, em detrimento do reforço da austeridade, que só pode conduzir a mais recessão.

 

Não bastam metas de simples reajustamento dos profundos desequilíbrios financeiros actualmente existentes. Nem tão-pouco serão suficientes programas, mais ou menos testados, de reformas estruturais, cujos resultados, sempre dependentes de uma multiplicidade de factores, só se poderão manifestar solidamente no médio e no longo prazos.

 

Para além das medidas de austeridade, nos casos em que se imponham e de reformas estruturais inteligentes, é necessário adoptar imediatamente um programa que garanta, ao fim de pouco tempo, um crescimento económico robusto e devolvaa esperançaàs pessoas, tornando menos difícil suportar os sacrifícios do período de transição. Só com taxas de crescimento sólidas se tornará possível uma quebra significativa das altas taxas de desemprego, indo ao encontro das expectativas dos jovens.

 

Um programa de crescimento não se confunde com uma mera proclamação política de aposta no crescimento, por maior solenidade que esta envolva, antes devendo abranger instrumentos financeiros robustos, capazes de debelar com eficácia a praga do desemprego, nomeadamente entre os jovens, ao conjugar todos os recursos disponíveis, e ainda capazes de dinamizar a economia num contexto difícil de crescente interdependência entre países à escala planetária.

 

A eficácia dos diversos instrumentos de uma política de crescimento dependerá sobretudo dos objectivos específicos que lhe forem concretamente cometidos e, igualmente, dos recursos financeiros que lhe forem alocados.

 

Em razão da dimensão sem precedentes dos problemas económicos e sociais que hoje enfrentamos e do seu previsível agravamento, justifica-se tanto um reforço do poder financeiro dos diversos instrumentos de crescimento já existentes e em funcionamento – desde os fundos da União Europeia ao Banco Europeu de Investimento (BEI) – como a respectiva diversificação, para além da extensãoa novosinstrumentos, tanto de afectação como de financiamento, incluindo o recurso à já debatida emissão de euro-obrigações.

 

A limitada capacidade do Orçamento da União – que impede acções substanciais capazes de responder satisfatoriamente à ocorrência de graves choques assimétricos, como os manifestados nos últimos anos, típicos das unificações monetárias – e a ausência de vontade política europeia para alterar a situação, para além da extrema rigidez das restrições orçamentais impostas aos Estados membros, com barreiras acrescidas sobretudo aos Estados financeiramente mais débeis, convocam, em alternativa a reafectação, diversificação e reforço dos fundos e de outros instrumentos financeiros europeus já existentes e, por outro lado, o recursoa novosinstrumentos financeiros, ampliando-se a margem de actuação da União, em benefício dos Estados membros que dela mais necessitem.

 

A observação dos resultados alcançados com a aplicação das políticas de austeridade evidencia um aumento brutal do desemprego e a penalização dos juros pelos mercados, receosos de que a ausência de crescimento económico inviabilize o cumprimento dos compromissos assumidos pelos países com elevados níveis de endividamento externo.

 

Torna-se, pois, necessário mobilizar todos os recursos para o crescimento económico. Assim o exigem a defesa da dignidade humana, da manutenção da paz social e da continuidade da União Europeia.

 

A austeridade deve ter como limite a asfixia do crescimento económico, crescimento que passará pela garantia do financiamento da economia. São obviamente bem vindos os esforços que o Banco Central Europeu (BCE) tem vindo a desenvolver, mas impõe-se o seu aprofundamento.

 

Indispensável se torna, também, que os instrumentos actualmente existentes (fundos comunitários, BEI) sejam utilizados em todas as suas potencialidades.

 

E vivendo-se uma fase recessiva não se poderá contar exclusivamente com a iniciativa privada para manter os níveis de investimento adequado, justificando-se a manutenção de um nível apreciável de investimento público.

 

8.3. Solidariedade

 

Foi-se afirmando, desde a década de setenta do século passado, a impossibilidade de subsistência de uma união económica sem um orçamento central capaz de corrigir as assimetrias existentes no seu seio.

 

A passagem para o modelo da União Europeia e da UEM e os sucessivos alargamentos – que conduziram ao aumento das disparidades económicas entre os Estados membros – tornaram ainda mais premente a exigência um orçamento forte. A necessária reformulação dos Tratados encontra aqui um vector essencial.

 

Outra alteração, essencial, respeita aos Estatutos do BCE que não pode continuar a ignorar no seu mandato objectivos de política económica como o da prossecução do pleno emprego, nem estar impedido de funcionar como prestamista de última instância, à semelhança do que acontece em outros bancos centrais de países industrializados, como os Estados Unidos e o Reino Unido.

 

Sublinhe-se, a este propósito, que têm sido as hábeis formulações que o BCE tem encontrado para financiar indirectamente a dívida pública, actuando activamente no mercado secundário e proporcionando liquidez aos bancos, ancorada em colaterais de dívida pública, que permitem àqueles ocorrer a emissões de títulos públicos em valores aceitáveis, o que impediu a explosão que esteve iminente, com o alastramento da crise à Espanha, França e a outros países.

 

Justifica-se, com esses objectivos, a revisão do Tratado da União, concertadamente com a adopção de iniciativas de efeito imediato e que podem ser consagradas no Projecto de Tratado.

 

A primeira dessas iniciativas consistiria no reforço substancial do Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira. A plena utilização deste Mecanismo pressuporia, no entanto, a revisão dos Tratados da União Europeia, assegurando a possibilidade de, em situações excepcionais, como a que actualmente atravessa a zona euro, se admitir uma intervenção limitada do Eurosistema nos mercados primários de dívida pública para impedir a manipulação especulativa das taxas de juro que actualmente ocorre nos mercados secundários e de derivados de crédito.

 

Também a emissão de títulos de dívida pública europeia, “eurobonds”, se configura como uma solução que importa reter. Não se ignoram as dificuldades de operacionalização deste mecanismo – uma vez que os países que beneficiam de taxas de financiamento mais baixas teriam que suportar taxas mais elevadas.

 

No entanto, se ponderarmos esta opção no quadro do reforço do orçamento comunitário e se ligarmos a emissão de dívida da União à execução de políticas comuns que contribuam para o desenvolvimento de iniciativas concretas que beneficiem a integração económica, social e mesmo cultural entre os Estados e entre os povos da União, teremos, porventura, uma solução de longo prazo para a crise que agora atravessamos.

 

No quadro do reforço do orçamento comunitário, faria todo o sentido integrar o financiamento dos actuais programas de ajustamento nesse orçamento, em lugar de os manter nos orçamentos nacionais e só parcialmente no orçamento comunitário através do MEEF. Só a integração do FEEF e do futuro MEE no orçamento comunitário poderia deslocar o debate em torno do financiamento dos programas de ajustamento do plano nacional para o plano europeu.

 

8.4. Defesa dos valores democráticos e do Estado de Direito

 

Ficou já assinalada a total inadequação do processo de preparação do Tratado. As circunstâncias em que este processo foi desencadeado e se desenvolveu contribuirão, do nosso ponto de vista, para agravar substancialmente o divórcio entre os cidadãos e as instituições europeias. Na sua versão actual, o Projecto representa a consagração da ideia de que a integração económica é uma questão meramente técnica e ignora a sua significativa dimensão social e política.

 

A evolução dos textos dos tratados tem sido feita, em geral, com a preocupação de valorizar a democracia e os direitos de participação. Importa, pois, que se não deixe esquecer os Tratados e se reforce a cidadania e a participação.

 

Do mesmo modo, torna-se necessário que a União Europeia actue de forma totalmente determinada quanto a práticas e soluções legislativas e até constitucionais, como sucede no caso da Hungria, que possam pôr em causa direitos fundamentais e o respeito pela democracia.

 

O Governo Português deve ser intransigente na defesa de que a União accione todos os mecanismos previstos no Tratado em relação aos Estados que violarem os valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de Direito e do respeito pelos direitos do homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias, consagrados no artigo II do Tratado.

 

9. Nota final

 

Este Manifesto é divulgado no diaem que o InstitutoEuropeu organiza mais uma da série de conferências através das quais procura contribuir para o debate das questões europeias e, em especial, daquelas que nos afectam directamente. Estamos certos que desta conferência, ampla e qualificadamente participada, sairão contributos da maior relevância para a ultrapassagem da difícil situação que atravessamos, em conjunto com a União Europeia.

 

Aos responsáveis políticos, aos quais apenas queremos transmitir uma visão académica e cívica, pedimos que continuem e aprofundem o debate, procurando melhorar o texto do projectado acordo e que se batam, simultaneamente, pela adopção das outras medidas que aqui ficaram elencadas e que estamos certos que serão úteis para todos nós. As dificuldades deste caminho só podem servir de estímulo para o prosseguir, porque será ele a assegurar o nosso futuro como Nação livre e independente, no quadro de uma União Europeia reforçada pelo reencontro com os seus valores estruturantes e capaz de se afirmar num mundo globalizado.»

 

Signatários (manifesto aberto a subscrição pública)

 

Eduardo Paz Ferreira | José Renato Gonçalves | Luís Máximo dos Santos | Nuno Cunha Rodrigues | Sérgio Gonçalves do Cabo

Joao Pedro Dias às 20:57 | link do post | comentar | partilhar

Kosovo, cinco anos depois da independência

"Cinco anos após a proclamação unilateral da independência, o Kosovo continua a ser uma região dividida e que divide o mundo. A Rússia e a Espanha não reconhecem a autoridade política de Pristina, enquanto os Estados Unidos e muitos países da União Europeia, incluindo Portugal, se encontram no outro lado da barricada e apoiam a autodeterminação deste território nos balcãs. A Kfor, força de manutenção da paz da NATO, que Portugal integra actualmente com 142 elementos, mantém-se no terreno com o objectivo de conseguir um frágil equilíbrio e arrefecer o clima de tensão alimentado por ódios antigos entre os sérvios (representam oito por cento da população) e a maioria albanesa. O Kosovo é uma peça chave nas ambições da Sérvia no que respeita à adesão à União Europeia, o que tem contribuído para alguma abertura de Belgrado, embora os grupos nacionalistas sérvios boicotem muitas vezes os esforços de pacificação numa zona onde facilmente se alimentam as tensões étnicas." [Fonte]

 

Conforme abordámos detalhadamente na altura, ao longo destas páginas, cinco anos depois o Kosovo independente continua a ser um verdadeiro espinho cravado no coração da Europa central, numa das suas regiões historicamente mais instáveis, fonte de grande parte dos conflitos que afectaram a Europa: os Balcãs. Permanece um Estado que se mantém artificialmente independente, expurgando a Sérvia do seu coração histórico, um Estado militarmente defendido pelos EUA - que envolvidos nas guerras do Afeganistão e do Iraque tiveram necessidade de provar nada ter contra Estados muçulmanos, ainda que localizados no lugar errado e criados por más razões - e um Estado economicamente sustentado pela União Europeia. O protótipo de um Estado inviável e exíguo, incapaz de cumprir as tarefas mínimas essenciais de qualquer Estado, teimosamente mantido pela comunidade internacional e não necessariamente pelas melhores razões.

Joao Pedro Dias às 01:30 | link do post | comentar | partilhar

Conferência «Sim ou não ao Tratado intergovernamental?»

Joao Pedro Dias às 00:01 | link do post | comentar | partilhar
Quinta-feira, 16.02.12

Manifesto «Somos solidários com o povo da Grécia»

«Todos os dias nos chegam imagens e notícias da Grécia e do povo grego em luta contra o cortejo de sacrifícios que lhe tem sido imposto. É clara, naquele país, a crescente fractura entre os cidadãos e o poder político, em torno da invocada necessidade de cada vez maiores sacrifícios para que a dívida seja paga e o défice orçamental reduzido. Acentuam-se a tensão e a violência, tornando ainda mais difícil o diálogo indispensável à procura de soluções mais justas e partilhadas para a situação existente.

 

Avolumam-se o isolamento e a discriminação da Grécia, fortemente acentuados pelo discurso dominante dos principais dirigentes europeus e da comunicação social.


A preocupação doméstica em sublinhar que “não somos a Grécia” é, no mínimo, chocante no seio da União Europeia, onde mais se esperaria compreensão e solidariedade e, sobretudo, desajustada quando se sabe que a crise não é só grega mas europeia.


Face à agudização das tensões políticas e sociais na Grécia, os signatários apelam à solidariedade com o povo grego e à criação de condições que permitam respostas democráticas e consistentes de uma Europa solidária aos problemas sociais e aos direitos das pessoas.»


Subscritores:

 

Mário Soares

 

Mário Ruivo | Alfredo Caldeira | Ana Gomes | Ana Lúcia Amaral | Anselmo Borges | António de Almeida Santos | António Reis | Boaventura Sousa Santos | Diana Andringa | Eduardo Lourenço | Isabel Allegro | Isabel Moreira | D. Januário Torgal Ferreira | José Barata Moura | José Castro Caldas | José Manuel Pureza | José Manuel Tengarrinha | José Mattoso | José Medeiros Ferreira | José Reis | José Soeiro | Manuel Carvalho da Silva | Maria de Jesus Barroso Soares | Maria Eduarda Gonçalves | Paula Gil | Pedro Delgado Alves | Rui Tavares | Sandra Monteiro | Simonetta Luz Afonso | Vasco Lourenço | Vítor Ramalho


[A publicação deste Manifesto é feita a título meramente informativo, não significando qualquer adesão ao seu conteúdo]

Joao Pedro Dias às 00:54 | link do post | comentar | partilhar
Quarta-feira, 15.02.12

A razão para os adiamentos no 2º auxílio à Grécia: vários países rejeitam Grécia no euro e preferem bancarrota

"A crise grega parece estar à beira de um novo capítulo, com a vinda a público de divergências entre os parceiros europeus sobre a opção por um segundo resgate, com alguns a preferirem que o país entre em bancarrota. A notícia merece a manchete desta quarta-feira do Financial Times, e entretanto foi confirmada pelo ministro das Finanças da Grécia, Evangelos Venizelos. “É preciso dizer a verdade ao povo grego: há vários países [da zona euro] que já não nos querem. É preciso convencê-los” de que a Grécia pode vencer e permanecer no grupo “pelas próximas gerações”, afirmou, citado pela agência francesa AFP, à chegada para uma audiência com o Presidente da República, Carolos Papoulias. “O desafio da nossa geração são quer os sacrifícios e os cortes, quer a catástrofe nacional que pode arrastar a nossa sociedade, as nossas instituições e a democracia”, acrescentou. O Eurogrupo anulou na terça uma reunião dos Ministros das Finanças da zona euro, prevista para esta quarta-feira, que deveria aprovar um novo pacote de ajuda para lhe permitir evitar a bancarrota dentro de um mês, o que lançou mais incerteza sobre o futuro do país. Jean-Claude Juncker, o Presidente do Eurogrupo, disse que tomou a decisão de anular a reunião, substituindo-a por uma "teleconferência" para permitir uma discussão de alguns aspectos que estão por resolver, mas o Financial Times adianta (citando “altos funcionários europeus”) que há uma divisão crescente sobre se Atenas merece a confiança de um segundo resgate a as consequências de um desfecho que resulte numa pura bancarrota do país.O Ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, já tinha dito que a zona euro estava “agora melhor preparada do que há dois anos” para lidar com um incumprimento. Há alguns dias, a comissária europeia holandesa, Neelie Kroes (que é vice-presidente da Comissão) afirmou, por seu lado, que “ninguém morre” se a Grécia sair do euro, o que contraria a posição oficial do executivo liderado por Durão Barroso. Porém, o comissário europeu da Economia e Finanças, Olli Rehn, advertiu para “consequências devastadores” de um cenário desse tipo, e segundo as fontes do Financial Times esta posição tem o apoio da França e do BCE." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 18:12 | link do post | comentar | partilhar

Palavras sábias: Presidente do Bundestag contra alargamento da UE

"O Presidente do Parlamento alemão é contra o alargamento da União Europeia nos tempos mais próximos. Norbert Lammert, que deu uma palestra na Universidade Católica sobre o futuro da Europa, defendeu que os Estados-membros - Alemanha incluída - devem avançar para uma integração política mais profunda. Os tempos que correm exigem à Europa que aprofunde os laços existentes e que pense numa maior integração política, pelo menos ao nível da política económica. Neste âmbito, o Presidente do Parlamento alemão mostrou-se contra a criação de novos membros nos tempos mais próximos. O momento, defendeu Norbert Lammert, é de maior integração nem que isso custe cedência adicional de soberania, um fenómeno, que, sunbilinhou o presidente do Bunbdestag, existe desde o momento inicial da construção europeia. No entender do responsável, há poderes soberanos que só existem no papel e que só podem ser defendidos de forma eficaz em conjunto com outros países." [Fonte]
Joao Pedro Dias às 02:39 | link do post | comentar | partilhar
Terça-feira, 14.02.12

Primeiros obstáculos ao novo Tratado europeu: «François Fillon: França precisa de referendo para pôr limite orçamental na Constituição»

Ainda não foi assinado e começa a deparar-se com os primeiros obstáculos. Segundo o Primeiro-Ministro francês, François Fillon, “será necessário recorrer a referendo” para inscrever a “regra de ouro” do limite orçamental na Constituição. Se tivermos presente que um dos motivos que levaram os líderes europeus a recorrer à figura clássica do tratado intergovernamental submetido a normas de direito internacional públco teve por objectivo evitar a realização de referendos constitucionalmente exigidos em alguns Estados da União, esta declaração do Primeiro-Ministro francês, que também deve ser percebida no quadro da campanha eleitoral presidencial francesa, não deixa de antecipar alguns dos obstáculos que o Tratado em causa terá pela frente até poder entrar em vigor.... 

Joao Pedro Dias às 23:34 | link do post | comentar | partilhar

Abrir a janela mediterrânica da Europa - by Ana Palacio

"Um ano depois da queda de Hosni Mubarak, com agitações populares que continuam a perturbar o mundo árabe, é cada vez mais claro que a Europa não pode mais ficar quieta e fazer nada. Os protestos contínuos expuseram uma necessidade urgente para um comprometimento renovado entre a União Europeia e a região em geral – e, em particular, com os países do Mediterrâneo meridional e oriental que são vizinhos da União.


Até agora, a política europeia de vizinhança (PEV), nascida como um acréscimo da bem-sucedida política da UE relativamente à Europa Central e Oriental depois da queda do Muro de Berlim, tem governado as acções da União no Mediterrâneo meridional e oriental. Ao longo do tempo, no entanto, a PEV foi largamente assaltada por considerações relativas a imigração e segurança. Além disso, forneceu um apoio económico vital aos regimes autocráticos da região.


Na margem meridional do Mediterrâneo, uma panóplia de queixas, desde a corrupção a um desejo de liberdade, tem motivado a agitação. Mas o único tema subjacente tem sido a ausência de oportunidades económicas viáveis para a crescente população de jovens desempregados, e sub-empregados, da região.


Um ano depois da erupção da Primavera Árabe, contudo, as oportunidades económicas são ainda menos. As economias do Egipto, da Líbia e da Tunísia sofreram fortes contracções. Os orçamentos nacionais estão saturados e as reservas de moeda estrangeira estão a desaparecer. Em vez de entrarem investidores estrangeiros, o capital está a fugir.


Dada a escala do desafio que se apresenta aos vizinhos meridionais da Europa, a UE deve forjar uma parceria euro-mediterrânica muito mais eficaz do que algo que tenha sido tentado até agora. O primeiro desafio é restabelecer a confiança, que requer que os europeus reconsiderem a sua atitude relativamente ao “Islão político”, em geral, e aos islamistas no governo, em particular.


Marrocos constitui uma relevante prova dos nove. Embora não tenha seguido o caminho revolucionário da região, as percepções e aspirações dos marroquinos espelham as dos países vizinhos. A UE saudou as recentes reformas constitucionais do país, bem como os resultados das eleições que levaram ao poder um afiliado da Irmandade Muçulmana egípcia. Mas a UE também pediu um forte compromisso com o pluralismo, com as normas legais de conduta e com os direitos iguais para as minorias e para as mulheres – áreas-chave onde os islamistas de toda a parte devem dar provas.


Esta condicionante – o princípio “mais por mais” – sugere que a UE tenha deparado com um modo viável de influenciar desenvolvimentos na região. Mas é também necessário afastar a ideia que a Europa, supostamente em declínio, não pode ser um interlocutor e um parceiro útil ao desenvolvimento da prosperidade regional. A verdade é que a UE permanece o maior parceiro comercial do Magreb, sendo responsável em 2010 por 70% das exportações da região.


A Europa, embora com problemas de liquidez, pode também facilitar acordos com instituições multilaterais, desde o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, onde a UE é o maior accionista (perto de 37%, comparado com a quota de 16% dos Estados Unidos), ao Banco Europeu de Investimento, que recentemente aumentou o limite de empréstimos da região em mil milhões de euros (1,3 mil milhões de dólares). Do mesmo modo, o Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) anunciou recentemente o início de actividades financiadas por fundos de doadores em partes da região, incluindo Marrocos, em 2012.


Bons exemplos deste tipo de comprometimento da UE são a Central de Energia Solar e o Programa de Eficiência de Água Potável em Ouarzazate, no valor de 37 milhões de euros, patrocinados pelo Mecanismo de Investimento para a PEV, que foi instrumental para garantir empréstimos de mais de 600 milhões de euros. É esta capacidade de alavancagem que a UE precisa de usar mais eficazmente.


Para além dos desafios à percepção, o sucesso da parceria renovada com a Europa requer que a região encete reformas estruturais vitais. Primeiramente, os países da região devem consolidar um enquadramento regulador e institucional sólido que promova a eficiência e a segurança legal para investidores, tanto locais como estrangeiros. Um tal enquadramento é central para atrair não apenas as grandes companhias, mas também para estimular pequenas e médias empresas, que na Europa, por exemplo, geraram 85% de todo o emprego criado entre 2002 e 2010.É igualmente importante enquadrar a política da UE como uma questão de co-localização, mais do que de deslocalização, e ultrapassar a mentalidade de jogo de soma nula que está hoje difundida. Um exemplo encorajador da abordagem da co-localização é o lançamento de um projecto Renault em Marrocos (que, infelizmente, incitou um repúdio público no calor da febre pré-eleitoral em França).


A infra-estrutura é outra preocupação vital, não apenas para ligar a UE ao Mediterrâneo meridional, mas também para impulsionar a muito necessária integração regional. Hoje, a maior parte das economias do Magreb são enclaves virtuais, desligados uns dos outros por razões muitas vezes de natureza política. Aqui, também, Marrocos é um bom exemplo: o conflito do Saara Ocidental é uma questão que dificulta a definição da fronteira com a Argélia, a um custo anual para as duas partes que é conservadoramente estimado em 1 a 2 pontos percentuais do PIB.


Mais genericamente, os países do Magreb apresentam o menor comércio intra-regional do mundo, respondendo por menos de 5% do PIB, comparado com 70% na UE e 50% na América do Norte, devido, em grande parte, a um “esparguete” de acordos comerciais preferenciais e medidas não pautais no seio da região. A UE devia usar o seu conjunto de acordos bilaterais com os países do Mediterrâneo meridional para promover um enquadramento comercial regional viável.


As revoluções árabes deram a toda a gente a hipótese de olhar para o mundo mediterrânico com novos olhos. Em vez da antiga relação patrono/cliente, é necessária uma parceria UE/Magreb, como uma parte de uma política de vizinhança transformada e baseada na confiança. Apenas uma parceria desse tipo pode impulsionar as oportunidades económicas e aumentar a prosperidade – as exigências que inflamaram o levantamento árabe. Se for bem gerida, além disso, uma tal parceria pode ser também uma tábua de salvação para as economias europeias nos seus actuais tempos conturbados." [Fonte]

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Joao Pedro Dias às 20:04 | link do post | comentar | partilhar
Segunda-feira, 13.02.12

Moody’s corta rating de Portugal e mais cinco países da Zona Euro

 

As anticipated in November 2011, Moody's Investors Service has today adjusted the sovereign debt ratings of selected EU countries in order to reflect their susceptibility to the growing financial and macroeconomic risks emanating from the euro area crisis and how these risks exacerbate the affected countries' own specific challenges. Moody's actions can be summarised as follows:

  • Austria: outlook on Aaa rating changed to negative
  • France: outlook on Aaa rating changed to negative
  • Italy: downgraded to A3 from A2, negative outlook
  • Malta: downgraded to A3 from A2, negative outlook
  • Portugal: downgraded to Ba3 from Ba2, negative outlook
  • Slovakia: downgraded to A2 from A1, negative outlook
  • Slovenia: downgraded to A2 from A1, negative outlook
  • Spain: downgraded to A3 from A1, negative outlook
  • United Kingdom: outlook on Aaa rating changed to negative

Moody's Investors Service has today downgraded the government of Portugal's long-term debt ratings to Ba3 from Ba2. The outlook remains negative.


The key drivers of today's rating action on Portugal are:

  1. The uncertainty over the prospects for institutional reform in the euro area and the weak macroeconomic outlook across the region, which will continue to weigh on already fragile market confidence.
  2. The resulting potential for a deeper and longer economic contraction in Portugal than previously anticipated, and the ongoing deleveraging process in the country's economy and banking system.
  3. The higher-than-expected general government debt ratios, which are due to reach roughly 115% of GDP within the next two years, thereby significantly limiting the room for fiscal manoeuvre and commensurately reducing the likelihood of achieving a declining debt trajectory.
  4. Potential contagion emanating from the impending Greek default, which is likely to extend the period during which Portugal is unable to access long-term private markets once the current support programme expires.

Moody's is maintaining a negative outlook on Portugal's sovereign rating to reflect the potential for a further decline in economic and financing conditions as a result of a deterioration in the euro area debt crisis.

 

RATIONALE FOR DOWNGRADE

 

As indicated in the introduction of this press release, a contributing factor underlying Moody's one-notch downgrade of Portugal's government bond rating is the uncertainty over the euro area's prospects for institutional reform of its fiscal and economic framework and over the resources that will be made available to deal with the crisis. Moreover, Europe's weak macroeconomic prospects complicate the implementation of domestic austerity programmes and the structural reforms that are needed to promote competitiveness. Moody's believes that these factors will continue to weigh on market confidence, which is likely to remain fragile. This will in turn mean a high potential for further shocks to funding conditions, which will affect weaker sovereigns like Portugal first, increasing its susceptibility to other financial and macroeconomic shocks given the concerns identified below.

 

This backdrop is exacerbating Portugal's domestic challenges and informs the second driver of Moody's rating action, which is the weakening outlook for the country's economic growth prospects and the implications for the government's efforts to place its debt on a sustainable footing. Moody's expects the Portuguese economy to contract by more than 3% in 2012 given the multitude of downside risks from the region, including the impact of the ongoing deleveraging in the financial and private sector as well as the immediate impact of the government's austerity measures. The unemployment rate is likely to remain high and nominal wages will remain under pressure due to cutbacks in public-sector bonuses and staff levels, thus depressing domestic demand. Moreover, Moody's expectation of a slowdown among Portugal's main trading partners in 2012 will undermine the contribution from net exports, the only driver of GDP growth since the 2009 recession. Lastly, the macroeconomic impact of the targeted fiscal tightening in 2012 is programmed to be as intense as that of 2011, further subduing domestic growth prospects.

 

The third driver for the downgrade of Portugal's sovereign rating is the unfavourable revision of the forecast for government debt metrics, which are now projected to rise to around 115% of GDP or higher before stabilising. This greater-than-anticipated level is a consequence of the government's assumption of debt from state-owned enterprises and regional governments in 2008, 2009 and 2010, as well as the expectation that the government will need to draw the EUR12 billion bank recapitalisation package that is part of the IMF/EU program. At these levels, the government has very little room to manoeuvre in the event of further economic, financial or political shocks originating from either domestic or external sources. Moreover, in a low-growth environment, higher initial debt levels will further complicate the government's deleveraging efforts, especially since debt affordability (i.e. the cost of servicing the debt as a share of government revenues) is likely to remain more onerous than previously estimated.

 

The fourth driver of today's rating action is Moody's view that the increasing likelihood of a disorderly default by Greece (if it fails to gain the required level of support of investors for the proposed restructuring terms, or further financial assistance from official-sector supporters) will very likely make Portugal unable to access long-term market funding in September 2013 as planned, and increase pressure on the government to seek a debt restructuring. Moody's believes that there is a high risk of contagion from Greece among weaker euro area sovereigns in particular. While unfavourable market perceptions will not affect Portugal's access to long-term official-sector funding under its International Monetary Fund/European Union support programme until at least 2014, and probably beyond, Moody's notes that access to official-sector funding is not a guarantee of support from private-sector creditors. Moreover, the longer official-sector support is needed, the greater the pressure for a restructuring of Portugal's private-sector debt becomes.

 

While risks remain weighted to the downside, there are several reasons why Moody's downgrade of Portugal's government debt rating is limited to one notch. The first is the government's success in exceeding fiscal targets, as set out in its IMF/EU-supported economic adjustment programme. This was possible despite the initial significant divergence in the government deficit from these targets in the first half of 2011, additional setbacks such as assuming the debt and debt-servicing obligations of some state-owned enterprises under recent EU accounting rules, as well as EUR1.1 billion in previously unreported debt stemming from the autonomous region of Madeira. These setbacks were partly overcome with the help of the one-off transfer of pension assets worth 3.5% of GDP from the big four commercial banks to the central government, which facilitated a total reduction in Portugal's nominal general government deficit by nearly 6% of GDP in 2011.


The second reason for the limited rating adjustment is Moody's expectation that the Portuguese government will have achieved a structural budget correction in 2011 equivalent to around 4% of GDP, which the IMF estimates to be the largest such adjustment in Europe in 2011. A third reason is that, in 2011, the Portuguese government also began to design and implement a set of further structural reforms intended to bolster the economy's potential growth rate. The Portuguese government, unlike that of Greece, has managed to secure the cooperation of a large segment of the labour force for these reforms.

 

WHAT COULD MOVE THE RATING UP/DOWN

 

The rating could be further downgraded if the government's deficits are not kept sufficiently low to place the debt ratios on a clear downward path within the next three years, or if the government fails to meet its fiscal targets or fails to implement its planned structural reforms. An intensification of the euro area crisis and further deterioration of macroeconomic and financial market conditions in Europe, leading to material fiscal and debt slippage in Portugal, could also pressure the country's rating.


Although positive rating pressure is not likely over the near to medium term, Moody's considers that the outlook on Portugal's debt rating could stabilise if the government were to pursue macroeconomic policies that place its debt on a sustainable downward trajectory and buoys the economy's growth potential. The credit would also benefit from continued compliance with the IMF/EU programme and ongoing enactment of the promised structural reforms, which would improve market confidence and increase the likelihood that the Portuguese government will regain access to the private long-term debt market. [Fonte]

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Joao Pedro Dias às 23:40 | link do post | comentar | partilhar

Wolfgang Münchau: Chegou a altura de deixar a Grécia e Portugal falirem

Na sua coluna de hoje no Financial Times, Wolfgang Münchau critica asperamente a “ignorância e arrogância” dos decisores políticos da Europa ao entrarem no “quinto ano de recessão”. Depois de o parlamento grego ter aprovado os cortes de 3,3MM€ para poder receber um segundo empréstimo no valor de 130MM€, Münchau afirma: «Vai haver um período de acalmia mas, daqui a uns meses, tornar-se-á claro que os cortes nos salários e nas pensões, na Grécia, agravarão a depressão. Os políticos europeus também descobrirão que num ambiente tão desolador até mesmo um pequeno objetivo para privatizações será irrealista. O PIB grego caiu 6% em 2011 e, este ano, continua a desacelerar a igual ritmo. E em breve será necessário outro acordo com os credores privados. Há quem defenda que seria melhor obrigar a Grécia a sair já da zona euro e usar os fundos para salvar Portugal. Discordo. Penso que é muito melhor reconhecermos o desolado estado em que ambos os países se encontram, deixá-los falir dentro da união monetária, e então, usar um fundo de resgate aumentado para os ajudar a reconstruírem-se e, ao mesmo tempo, criar um muro de proteção que abranja os outros todos. […] Vai ser muito caro. Mas ignorar a realidade durante mais dois anos será ruinoso».

Joao Pedro Dias às 22:02 | link do post | comentar | partilhar

Grécia: mais um passo para lado nenhum

"O novo plano de austeridade, exigido pela UE e pelo FMI, foi aprovado em 12 de fevereiro, pelo parlamento grego, tendo como pano de fundo uma série de manifestações e atos de violência. Mas o plano não resolve nada e deixa os gregos sem resposta quanto ao seu futuro, lamenta um editorialista. Não há dúvida: o país deve permanecer na zona euro. Qualquer outra hipótese seria uma tragédia. O facto de alguns compararem as dificuldades da sociedade atual com as de uma falência não controlada é uma questão de superficialidade política. Uma política séria seria uma política que, além das opções partidárias, tivesse também em conta ligeiras diferenças. A "clivagem" é má conselheira. No que se refere a tal conceito, "dentro ou fora" do euro não é a pergunta certa. A resposta de qualquer cidadão consciente é "dentro". Contudo, a verdadeira questão é esta: para além da severidade inadmissível, o novo plano de austeridade que nos é imposto pelos credores, com tudo o que comporta de bem e de mal, poderá fazer-nos sair da crise ou será o caminho mais curto para a falência não controlada? No fundo, pedem-nos uma desvalorização interna extrema que, na situação atual da nossa economia, terá mais efeitos nefastos do que benéficos. De um modo mais geral, cada plano económico sem viabilidade social, com uma falência não controlada e um desemprego que atinge a população ativa, não pode estabilizar nem relançar a economia e, ainda menos, constituir um novo modelo de produção virado para o exterior. "Furam-se pneus", com uma leviandade incrível, ao mesmo tempo que se garante que, desse modo, o veículo andará mais depressa em 2012 ou em 2013. O pior é que, quando se faz notar isso àqueles que conduziram o nosso país para este beco sem saída, eles respondem: "Então, apresentem-nos uma solução alternativa." Como se a que eles propõem fosse uma solução viável e séria. Tenho muito medo de que não haja solução, no quadro das discussões com os outros Estados-membros. As responsabilidades do sistema dominante são imensas. Mesmo agora, passados dois anos, continua a não haver um plano realista de saída da crise, com hipóteses de obter o apoio de toda a classe política. A troika apresenta-nos tudo já pronto e nós negociamos, para nada… Por um lado, temos a responsabilidade da Europa. Os alemães "puxaram demasiado a corda". O plano alemão é de tal ordem que nem a Grécia, nem nenhum outro país europeu, poderá suportá-lo. Em breve, será a Alemanha a ter um problema! E nós temos que suportar. São inevitáveis alterações ao "plano de salvamento da Grécia", com novas intervenções sobre a dívida e o empréstimo [da UE e do FMI] e a luta contra a recessão..." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 20:15 | link do post | comentar | partilhar
Domingo, 12.02.12

Grécia aprova mais austeridade em noite de violência em Atenas

"Após um dia de violentos confrontos à porta do Parlamento de Atenas que se prolongaram até ao início da noite, os deputados gregos aprovaram um novo plano de austeridade. Muito contestado nas ruas neste domingo, o Governo da coligação deu à zona euro a garantia que os parceiros europeus pediam para accionar um segundo pacote financeiro. Antes da votação terminar, o Governo de coligação liderado por Lucas Papademos já tinha conseguido fazer passar a nova vaga de austeridade, ao alcançar minutos antes da 1h locais (23h em Portugal Continental) o número de votos necessários (151) para a aprovação do pacote de reformas económicas e de poupanças no valor de 3,3 mil milhões de euros. Antes da votação no hemiciclo, o primeiro-ministro condenou com veemência a violência que durante a tarde e o início da noite tomou conta do centro da capital. A polícia e grupos de manifestantes envolveram-se em confrontos, num cenário de batalha campal, e edifícios ficaram em chamas. Em Atenas estiveram, segundo as contas da polícia, 80 mil pessoas em protesto a partir do iníco da tarde e outras 20 mil em Salónica. “A violência e as destruições não têm lugar em democracia”, afirmou Papademos, lembrando que, no Parlamento, os deputados dariam o seu voto de responsabilidade para com a Europa e a moeda única. Seria a definição da “escolha mais importante” para o futuro do país, sustentou. Os conservadores e socialistas da coligação de Governo falaram em cenários catastrofistas em caso de não aprovação das medidas de austeridade – o mesmo que tinham feito os membros do Executivo nos últimos dias. Quando em Outubro, o líder dos socialistas, Georgios Papandreou, estava no lugar de primeiro-ministro a pedir ao Parlamento que fizesse passar um pacote de austeridade, o Executivo tinha uma maioria frágil, com menos garantias de conseguir aprovar o projecto-lei das reformas económicas. Neste domingo, o partido da coligação de Papademos contava no hemiciclo com uma maioria confortável. Mas, mesmo assim, o líder do PASOK acompanhou as palavras de Papademos e fez um apelo à unidade, insistindo que o pacote de medidas é “a única esperança do país”. Enquanto os deputados debatiam as medidas de reforma económica e de poupança no valor de 3,3 mil milhões de euros que a troika quer ver implementadas este ano, as principais artérias de Atenas transformavam-se num cenário de batalha campal. Cinemas históricos, cafés e lojas ficaram em chamas. E nas ruas próximas do Parlamento a polícia e grupos de manifestantes envolviam em confrontos violentos. As autoridades contabilizaram 80 mil pessoas nos protestos da capital. À ofensiva de grupos de manifestantes, a polícia respondeu com uma carga policial, lançando gás lacrimogéneo. Projécteis foram lançados contra a polícia e edifícios, enquanto manifestantes arremessavam pedras em direcção às forças de segurança. Foi o dia em que se registou maior violência nas ruas desde terça-feira, o primeiro de três dias de greves e manifestações na última semana. A Grécia, que actualmente está a receber um empréstimo externo de 110 mil milhões de euros suportado pela União Europeia e o FMI, só terá luz verde da zona euro para continuar a receber financiamento externo e ver libertado o segundo resgate financeiro se fizesse aprovar o plano. Essa é a contrapartida dos parceiros europeus, que deverão agora avaliar se têm as garantias necessárias para avançar com o pacote de 130 mil milhões euros. Mas em jogo estão também os encargos financeiros que a Grécia tem de garantir no próximo mês – 14,5 milhões de euros em empréstimos que o Estado terá de pagar até 20 de Março. Isto numa altura em que a Grécia está totalmente dependente do financiamento externo para assegurar os compromissos financeiros." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 23:54 | link do post | comentar | partilhar

Morreu Irena Sendler, a heroína polaca que salvou 2500 crianças do Gueto de Varsóvia

"A polaca Irena Sendler, que salvou cerca de 2500 crianças de serem encaminhadas para campos de concentração nazi, morreu hoje, aos 98 anos, informou a sua família. Sendler foi considerada como uma das grandes heroínas da resistência polaca ao nazismo, tendo estado nomeada para o Prémio Nobel da Paz. A filha de Irena Sendler, Janina Zgrzembska, anunciou hoje que a sua mãe morreu num hospital de Varsóvia. Sendler organizou a saída de cerca de 2500 crianças do Gueto de Varsóvia durante a violenta ocupação alemã, na Segunda Guerra Mundial. Ela - que trabalhava como assistente social - e a sua equipa de 20 colaboradores salvaram as crianças entre Outubro de 1940 e Abril de 1943, quando os nazis deitaram fogo ao Gueto, matando os seus ocupantes ou mandando-os para os campos de concentração. Durante dois anos e meio, Irena Sendler conseguiu ludibriar os nazis e fazer sair do Gueto adolescentes, crianças e bebés - muitos deles disfarçados sob a forma de pacotes - e enviá-los para o seio de famílias católicas, para orfanatos, conventos ou fábricas. Em Varsóvia viviam 400 mil dos 3,5 milhões de judeus que habitavam a Polónia. "Fui educada na ideia de que é preciso salvar qualquer pessoa [que se afoga], sem ter em conta a sua religião ou notoriedade", dizia Irena Sendler. Nascida a 15 de Fevereiro de 1910, a figura de Irena Sendler permaneceu relativamente desconhecida na Polónia, à imagem de Oskar Schindler, que morreu na pobreza, mas que viria a ser imortalizado no cinema pelo realizador Steven Spielberg na película "A Lista de Schindler". Só em Março de 2007 a polaca foi homenageada de forma solene no seu país, tendo o seu nome sido proposto para o Prémio Nobel da Paz. Em 1965, porém, o memorial israelita Yad Vashem tinha já atribuído a Sendler o título de "Justo Entre as Nações", reservado aos não-judeus que salvaram judeus." [Fonte]

 

A história da Europa também se faz destes heróis e destas heroínas anónimas. É a muitos deles que devemos a nossa liberdade, porque nos ajudaram a exorcizar e a vencer os nossos demónios internos, aqueles que, de entre nós, europeus, nos quiseram privar da nossa condição e da nossa liberdade. Paz à sua alma e que descanse em paz. dormindo o sono dos justos.

Joao Pedro Dias às 17:22 | link do post | comentar | partilhar
Sábado, 11.02.12

A Europa é pelo menos tão culpada como Atenas

"A reunião do Eurogrupo de 9 de Fevereiro não bastou para afastar o espetro da falência grega. Se Atenas é em grande parte responsável pela crise, a UE e os seus parceiros também não estão isentos de responsabilidades. A sua mensagem confusa e falta de estratégia transformaram um problema solúvel num caos explosivo, escreve La Stampa. Com o acordo político de Atenas e desta nova reunião do Eurogrupo, os debates sobre a dívida grega avançaram, mas a solução continua a ser, como sempre, minimal. O prazo limite de 15 de fevereiro obrigou a uma atitude, pois, dizem, após essa data, torna-se inevitável uma falência desordenada e perigosa para toda a zona euro. Não vai ser fácil consolidar a tempo os compromissos do Governo grego relacionados com as novas medidas de austeridade, os procedimentos para concessão de subsídios europeus e a redução "voluntária" da dívida pública. As responsabilidades da Grécia são óbvias. Mas os erros da União, na forma de gerir a crise, são igualmente graves. Desde 2009, foram exigidos aos gregos ajustes demasiado apressados para serem corretos e política e socialmente digeríveis. Tinha sido necessário mais cuidado na preparação de reformas estruturais, e pô-las em prática num período de tempo mais realista. Era preciso garantir o financiamento necessário, a projetos específicos, orientados para o crescimento, evitando que os juros das novas emissões de títulos de dívida pública atingissem os níveis que conhecemos. Preferiu-se apostar numa certa arrogância da Europa, pelo facto de os gregos terem aldrabado as contas; transmitiu-se a impressão de que a importância da Grécia para a União Europeia era apenas o risco de poder contaminar as finanças de países "mais importantes".

A Comissão agiu como notário

A Europa tinha de fazer mais – no domínio da comunicação e também da imagem – para valorizar o potencial da Grécia e ajudar o seu povo a compreender e aceitar as reformas. As autoridades europeias deixaram igualmente criar-se muitos mal-entendidos e confusões em vários aspetos. Primeiro, não conseguiram limitar o número excessivo de interlocutores com que os gregos têm que negociar. A Comissão agiu como notário; um conjunto complexo de ajudas bilaterais deu margem para o desabrochar das particularidades dos diferentes governos nacionais; os chefes dos Governos alemão e francês, em particular, entraram em jogadas pessoais, alternando exigências e ameaças, fazendo malabarismos com procedimentos e prazos. O Banco Central Europeu foi instado a fazer o papel impróprio de substituto dos governos, para assegurar financiamentos a médio e longo prazo; o FMI também foi chamado a entrar na operação, o que provocou muita polémica, dando a ideia de que, sem Washington, não teríamos dinheiro nem competência para gerir o problema grego. Os apoios oficiais foram considerados créditos privilegiados, o que teve o efeito de aumentar os riscos assumidos pelos credores privados, mas em matéria de re-estruturação "voluntária" da dívida deixou-se os negócios de lobistas privados sobreporem-se confusamente às relações entre as autoridades gregas e a UE. Houve ainda outra confusão, quanto à questão da falência da Grécia. Primeiro, foi completamente iludida, sem ter em conta que os mercados, ao exigirem juros elevados, mostravam que já a estavam a considerar. Era necessário evitar que o pânico contaminasse a dívida de outros países. Mas excluir qualquer possibilidade de falência implica que se deem garantias de apoio, que ninguém quis dar. E assim, o contágio não pôde ser evitado. Em seguida, favoreceram-se negociações com credores privados, na expectativa de uma declaração de falência parcial e voluntária, assegurando, nunca se soube com que base, que se tratava de uma medida absolutamente excecional.

A confusão entre falência e saída do euro

Entretanto, houve graves atropelos nas regras de contabilização das dívidas soberanas nos balanços dos bancos: fizeram-se testes de stresse muito permissivos, que consideravam quase todos os títulos estatais como não-desvalorizáveis, com a obrigação de os avaliar aos preços sacrificiais impostos pelo mercado financeiro. E com isso ficamos sem saber se o problema real é a solvência do Governo grego ou dos bancos credores. Não foi tida em conta a necessidade de acelerar a adoção de procedimentos válidos para todos, a fim de renegociar a dívida quando esta se torna insuportável, sem demora – ou seja, antes que se acelere o ciclo vicioso da dívida e dos juros que ela gera –, de forma ordenada e justa, para evitar o pânico e o contágio. Chegaram a dizer que tal procedimento aumentaria o risco de contágio. Mas a sua ausência não vai impedir que, uma vez resolvido o quebra-cabeças grego, de uma forma ou de outra, não venha a surgir outro, por exemplo, português. A isso foi acrescentada, mais por culpa de muitos economistas do que das autoridades europeias, a confusão entre falência e saída do euro. Enquanto uma falência bem controlada reduz realmente a dívida de um país, a saída do euro apenas provoca desvalorizações selvagens, imediatamente neutralizadas pela inflação e a marginalização desse país pelos mercados internacionais. Quando se repete insistentemente que a zona euro é demasiado heterogénea e que a Grécia não deve estar incluída nela, seria bom ter em conta a forma como as coisas se teriam passado se a União Europeia tivesse conseguido evitar tanta desordem e confusão." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 20:02 | link do post | comentar | partilhar
Sexta-feira, 10.02.12

O mito federal

O desgoverno que paira sobre toda a Europa - sobretudo a da União, mas a que a outra, a que está fora dela, também não escapa - tem feito com que vozes das mais insuspeitas se pronunciem publicamente sobre as virtualidades do modelo federal e a necessidade da União Europeia rumar nesse sentido. Com o devido respeito, parece-me um erro crasso e - mais uma! - desvirtuação do projecto e do modelo europeu. O que caracterizou, desde sempre, o modelo europeu foi a sua originalidade, a sua inovação. Não copiou outros modelos já existentes e conhecidos porque nenhuma outra situação histórica concreta se lhe assemelha; não obedeceu a um modelo pré-estabelecido porque a diversidade europeia não é compaginável com nenhuma outra realidade existente e conhecida; não seguiu regras e modelos já teorizados porque sempre preferiu a inovação original. Em termos muito práticos, a realidade europeia andou sempre à frente das teorias e das doutrinas, dos modelos e da dogmática. O modelo, inominado, foi-se construindo na prática e, só depois, se foi teorizando. E foi por se ter vindo a construir na prática que o modelo europeu revela as insuficiências e debilidades que se lhe reconhecem. A teoria apenas foi ajudando a «aperfeiçoar» ou burilar o modelo. E assim, paulatinadamete, se foi erigindo um modelo com claros elementos federais, com outros tipicamente intergovernamentais, e com uma imensidão de soluções originais que não se enquadravam em nenhum dos modelos conhecidos. Deverá continuar a ser esse o caminho a trilhar. Neste tempo de crise, será somar crise à crise decalcar soluções pré-concebidas, rendermo-nos hoje ao que foi rejeitado ontem. O caminho a prosseguir ou continuará a ser um caminho próprio ou não será caminho nenhum. É esse o desafio que a Europa da União tem pela frente - ser capaz de continuar a ser original e inovadora, ter a capacidade para encarar os seus problemas e as suas dificuldades, evitar render-se a mitos que resolverão os seus problemas. A questão essencial é outra - é a de saber se teremos líderes europeus capazes de darem conta do recado. E aí as dúvidas e as reservas são mais que muitas...

Joao Pedro Dias às 00:33 | link do post | comentar | partilhar

À mesa do IDL. Hoje com Bagão Félix

Joao Pedro Dias às 00:01 | link do post | comentar | partilhar
Quinta-feira, 09.02.12

O declínio do Ocidente revisitado - by Shlomo Ben-Ami

"Desde a publicação em 1918 do primeiro volume de O Declínio do Ocidente, de Oswald Spengler, as profecias sobre a inexorável destruição do que apelidou de "civilização faustiana" têm sido um tópico recorrente para pensadores e intelectuais públicos. As crises actuais nos Estados Unidos e na Europa – resultantes essencialmente das falhas éticas inerentes ao capitalismo dos EUA, e da disfunção europeia – podem ser vistas como fornecendo credibilidade à visão de Spengler quanto à inadequação da democracia, e à sua rejeição da civilização ocidental como sendo essencialmente impelida por uma corruptora cobiça pelo dinheiro.

 

Mas o determinismo histórico tem sido sempre derrotado pelas forças imprevisíveis da vontade humana e, neste caso, pela extraordinária capacidade de renovação do Ocidente, mesmo após derrotas cataclísmicas. É verdade que o Ocidente já não está sozinho na definição da agenda global, e que os seus valores estão limitados a ser crescentemente desafiados por potências emergentes, mas o seu declínio não é um processo linear ou irreversível.Não pode haver dúvidas de que a mestria militar e a vantagem económica do Ocidente têm sido severamente diminuídas recentemente. Em 2000, o PIB da América era oito vezes maior que o da China; hoje é apenas duas vezes maior. Para piorar a situação, desigualdades espantosas de rendimento, uma classe média espremida e provas de uma grande difusão de lapsos éticos e de impunidade estão a fomentar um desencanto perigoso com a democracia e uma crescente perda de confiança num sistema que traiu o sonho americano de progresso e melhoria constantes.


Esta não seria, no entanto, a primeira vez que os valores da América prevaleceram sobre a ameaça do populismo em épocas de crise económica. Uma variação da agenda fascista apareceu outrora na América, com a investida populista do padre Charles Coughlin na década de 1930 sobre a "aliança com os banqueiros" de Franklin Roosevelt. A União Nacional para a Justiça Social de Coughlin, que conseguiu angariar milhões de membros, acabou por ser derrotada pelos poderosos anticorpos democráticos do sistema americano.


Quanto à Europa, a crise da zona euro expôs as fraquezas da democracia em lidar com emergências económicas importantes, bem como as debilidades no projecto da União Europeia. Na Grécia e em Itália, Governos tecnocratas sobrepuseram-se a políticos falhados. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán tem feito pressão a favor de um autoritário "restabelecimento do Estado." Estes casos parecem apontar para um passado europeu no qual os falhanços da democracia deram lugar a formas mais "expeditas" de governo.


E, no entanto, enquanto a Europa permanece um ponto de interrogação, o crescimento económico e a criação de empregos, embora frágeis, voltaram à América. Além disso, mesmo que a China se tornasse a maior economia global em, digamos, 2018, os americanos ainda seriam muito mais ricos do que os chineses, com um PIB per capita quatro vezes maior na América do que na China.


Na verdade, a desigualdade de rendimentos e a injustiça social são concomitantes à cultura capitalista em todo o Ocidente. Mas potências emergentes como a China e a Índia não estão em posiçãode dar o exemplo. Comparado com o capitalismo indiano, os falhanços éticos do capitalismo noutras paragens parecem especialmente benignos. Uma centena de oligarcas na Índia detém activos equivalentes a 25% do PIB, enquanto 800 milhões dos seus compatriotas sobrevivem com menos de um dólar por dia. Políticos e juízes são comprados, e recursos naturais no valor de biliões de dólares são vendidos a empresas poderosas por uma insignificância.


Ter a maior economia é vital para uma potência que aspire a manter a superioridade militar e a capacidade de definir a ordem internacional. Consequentemente, o poder cada vez menor do Ocidente significa uma luta mais dura para apoiar a relevância de componentes vitais do seu sistema de valores, como a democracia e os direitos universais.


A Europa, com a sua mentalidade quase pós-histórica, abandonou há muito a pretensão de ser uma potência militar. O mesmo não pode ser dito dos EUA. Mas, em vez de reflectir um declínio na sua superioridade militar, os reveses da América no Iraque e no Afeganistão são o resultado de políticas obstinadas que procuraram utilizar a força bruta para resolver conflitos que simplesmente não poderiam ser resolvidos desse modo.


Os cortes recentes e profundos no orçamento militar dos EUA não assinalam necessariamente um declínio; podem indiciar uma era de defesa mais inteligente, que assente em ideias inovadores, alianças fortes e construção de capacidade dos seus parceiros. A mudança das prioridades militares dos EUA para a região Ásia-Pacífico é um reequilíbrio estratégico compreensível, dado o excessivo foco da América no Médio Oriente e a manutenção de uma presença militar desnecessária na Europa.Mitigado pela fadiga do público dos Estados Unidos com aventuras ultramarinas, o zelo missionário da América em salvar o mundo da maldade de autocratas longínquos será substancialmente reduzido. Mas isto não significa necessariamente que a China ocupe automaticamente a posição que a América deixar vaga. Apesar dos cortes recentes, o orçamento para a defesa da América é ainda cinco vezes maior do que o da China. Mais significativamente, a estratégia de longo prazo da China requer que se focalize, no curto prazo, em satisfazer o seu vasto apetite por energia e matérias-primas.


Não nos iludamos: o eurocentrismo e o orgulho ocidental receberam golpes severos nos anos recentes. Mas, para aqueles que no Ocidente estão assoberbados pelo fatalismo e pela dúvida, emana agora uma mensagem de esperança proveniente da Primavera Árabe, e da retoma na Rússia da revolução inacabada que terminou com o comunismo. Nem foi ainda resolvida a inconsistência entre o capitalismo da China e a sua falta de liberdades civis. Não se pode excluir de antemão uma Primavera Chinesa.


O Ocidente enfrenta sérios desafios – como sempre tem enfrentado. Mas os valores da liberdade humana e da dignidade que guiam a civilização ocidental permanecem o sonho da vasta maioria da humanidade." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 02:03 | link do post | comentar | partilhar
Quarta-feira, 08.02.12

Martin Schulz, esse cavalheiro

"O Presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz, criticou o facto de Portugal estar a pedir investimentos angolanos, considerando que, assim, “o futuro de Portugal é o declínio”. Num debate sobre o papel dos parlamentos na UE realizado a 1 de Fevereiro na Biblioteca Solvay, em Bruxelas – e depois difundido no canal de televisão alemão Phoenix do último domingo –, Martin Schulz referiu-se à visita-relâmpago que o primeiro-ministro português fez a Angola em Novembro, em que este admitiu ir à procura de capital angolano para as privatizações em curso.  “Há umas semanas estive a ler um artigo no Neue Zürcher Zeitung que até recortei. O recém-eleito primeiro-ministro de Portugal, Passos Coelho, deslocou-se a Luanda. [...] Passos Coelho apelou ao Governo angolano que invista mais em Portugal, porque Angola tem muito dinheiro. Esse é o futuro de Portugal: o declínio, também um perigo social para as pessoas, se não compreendermos que, economicamente, e sobretudo com o nosso modelo democrático, estável, em conjugação com a nossa estabilidade económica, só teremos hipóteses no quadro da União Europeia”. Esta referência à política externa portuguesa foi recebida com espanto por dois eurodeputados portugueses contactados pelo PÚBLICO. Paulo Rangel (PSD) mostrou-se “muito surpreendido” com as declarações de Schulz: “Vou fazer um pedido formal de esclarecimento” ao presidente do Parlamento Europeu, anunciou. Já Capoulas Santos (PS) afirma que, “como Estado independente, Portugal tem o direito de ter prioridades diplomáticas próprias, tal como todos os outros países”. “Se com estas declarações [Schulz] pretende dizer que há uma incompatibilidade entre as prioridades diplomáticas europeia e portuguesa, não subscrevo”, acrescentou.  Martin Schulz acabou, no debate em Bruxelas, por ir mais longe. Já sem falar de Portugal, mas num contexto de crescente proximidade entre a UE e a China (Merkel visitou o país na semana passada e o primeiro-ministro Wen Jiabao reafirmou a disponibilidade da China para ajudar a zona euro a ultrapassar a crise da dívida soberana), o presidente dos democratas europeus referiu-se ao contraste entre os modelos de desenvolvimento europeu e chinês, afirmando que este assenta numa “sociedade esclavagista, sem direitos, numa ditadura que oprime implacavelmente o ser humano”. A seguir, questionou: “Porque não defendemos o nosso Estado de direito, e o modelo dos direitos do homem, e uma crescente capacidade económica, para desafiar, não só do ponto de vista económico, mas também de democracia política? [...] Se não tomarmos rapidamente esta decisão, a Europa tornar-se-á irrelevante”." [Fonte]

 

Estas afirmações revelam o senhor Martin Schulz ao seu verdadeiro nível. Este senhor, o melhor que os socialistas europeus tiveram para oferecer ao Parlamento Europeu para seu Presidente, é um modelo de correcção, de cavalheirismo e, sobretudo, «savoir-faire». Quem não se lembra dos debates - elevadíssimos - que travou aquando da eleição de Durão Barroso para a Comissão Europeia? Ou quando se meteu com Berlusconi, essa personalidade também fantástica da política europeia, que lhe respondeu «à letra»? É, pois, uma figura que enobrece tanto o Parlamento que o tem por Presidente como os eurodeputados que nele votaram. De certa forma, ilustra bem e na perfeição a classe política europeia que nos governa. Impõe-se, pois, perguntar: mas onde está a surpresa com aquilo que ele afirmou? Só me surpreendo com a capacidade que alguns têm para ainda se surpreenderem.... Proveniente de um SPD que aspira e sonha remover Angela Merkel da chanceleria de Berlim em 2013, dá medo, dá muito medo mesmo, pensar que é isto e disto o melhor que a social-democracia alemã tem para oferecer aos alemães (mas isso ainda seria o menos; seria problema deles....), à Europa e ao Mundo. 

Joao Pedro Dias às 23:43 | link do post | comentar | partilhar
Terça-feira, 07.02.12

Na Antena Aberta da Antena 1

Pela enésima vez anuncia-se este como sendo um dia absolutamente determinante para o futuro da Grécia e, por arrastamento, da própria União Europeia. No meio de uma greve geral, com a divergência entre os principais partidos a acentuar-se, o governo grego tem de decidir se aceita ou não mais uma tranche de austeridade, conditio sine qua non para o recebimento da primeira tranche do segundo pacote de resgate financeiro do país, no montante de 130MM€.

 

A Antena 1 tem a gentileza de me convidar a abrir a sua “Antena Aberta”, pedindo um comentário sobre a situação vivida em Atenas e uma antecipação sobre o que a mesma pode significar para Portugal. Fatalmente acabamos por repetir o que já tem sido dito por muitos e em muitos lados. É difícil fugir aos lugares comuns e à racionalidade, pese embora esta crise grega, não raro, nos surpreenda com laivos de autêntica irracionalidade. Certo parece ser que o dinheiro do primeiro resgate não chegou e as medidas de austeridade impostas também não lograram qualquer efeito positivo. Daí a necessidade de um segundo resgate e de mais austeridade a somar a toda a austeridade que já foi vertida sobre os gregos. Decerto – estes, pela sua idiossincrasia, também não ajudam à festa: mentem, não são fiáveis, adulteram números e estatísticas, aldrabam e não se sabem governar (nem se deixam governar). Tivesse, porém, a receita da troika tido sucesso e nada disto teria acontecido. Ou seja, se os gregos não ajudaram, as instituições internacionais não provaram. E é neste clima de ameaça permanente de queda no precipício ou arrastamento para o abismo que se vive mais um braço de ferro entre a troika internacional e um governo dito de salvação nacional, liderado por um tecnocrata e que engloba além do PASOK e da Nova Democracia a própria extrema-direita grega, que terá de enfrentar eleições legislativas ainda no presente semestre. Governo que cada vez mais parece incapaz tanto de controlar a situação social interna como de aplicar as medidas impostas internacionalmente.


Diferente é a questão de sabermos até que ponto um eventual incumprimento grego se poderá reflectirem Portugal. PassosCoelho, prudentemente, tem acautelado a possibilidade quando afirma que Portugal não irá pedir nem mais tempo nem mais dinheiro à troika, a menos que a situação internacional se altere de forma significativa – é a porta aberta para um pedido de novo resgate internacional ou de renegociação do auxílio concedido caso a Grécia enverede pelo caminho do incumprimento. E nessa perspectiva, por muito que isso desagrade ao poder instalado, o chamado efeito contágio não pode nem deve ser tido por afastado. Embora também não falte quem defenda a tese contrária – derrubada a Grécia, a Europa da União tudo fará para suster a queda e apoiar os seus dois outros protectorados: Portugal e a República da Irlanda. Vê-se, pois, que já não é do domínio da análise que curamos, mas no campo da pura adivinhação que começamos a entrar. E essa não é a nossa missão. Para complexa, já basta a realidade que nos é dado observar.


Uma nota final não pode deixar de ficar registada – não é só no domínio da análise que as opiniões divergem. Hoje mesmo o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, voltou a defender, em Bruxelas, que o lugar da Grécia é na zona euro, horas depois de a comissária holandesa e Vice-Presidente da Comissão Europeia, Neelie Kroes, ter afirmado que a exclusão do país não seria um drama…

 

O comentário produzido pode ser escutado, na íntegra, aqui.

Joao Pedro Dias às 20:29 | link do post | comentar | partilhar

Os gregos riem-se de nós

 

"É cada vez mais difícil a Grécia adotar reformas credíveis. Ontem [6 de fevereiro] repetiu-se o mesmo padrão que se tem vindo a registar desde há quase dois anos, sempre que se aproxima o momento em que Atenas fica sem dinheiro (o que acontecerá muito provavelmente no próximo mês de março) e a União Europeia tem de voltar a injetar-lhe recursos na veia. Toda a gente sabe que os gregos estão a brincar com o fogo. Mas isso parece não interessar a ninguém, a começar pelos gregos. O Governo de Lucas Papademos, um tecnocrata que se supunha que teria o apoio de todos os partidos para adotar as decisões difíceis que George Papandreu não se atreveu a tomar, tem-se revelado tão imobilista como o do seu antecessor. Ontem (6 de fevereiro), a troika constituída pelo FMI, pelo Banco Central Europeu e pela Comissão Europeia teve que ameaçar o Governo grego para o obrigar a despedir 15 mil funcionários públicos ao longo de 2012, com o objetivo de reduzir o défice. A Grécia tem mais de 700 mil funcionários públicos entre os seus onze milhões de habitantes e tinha prometido reduzir esse número em 150 mil até 2015. De facto, já se tinha comprometido a reduzir 32 mil no ano passado que, afinal, se ficaram por uns meros dois mil. Assim são as coisas na Grécia.

Os gregos aproveitam-se do erro da Europa

A troika pede-lhes que reduzam o salário mínimo (mais alto que em Espanha), que baixe os salários, que elimine pagamentos extraordinários, reduza pensões e baixe a despesa pública, e os políticos gregos fazem ouvidos moucos. Estão conscientes de que a Europa se enganou no caminho com eles e aproveitam-se disso. Havia três princípios que a Alemanha defendia como sacrossantos: no bail out (não ao resgate), no default (não ao incumprimento) e no exit (não à saída do euro). O primeiro já foi esmagado em 2010, quando se aceitou resgatar a Grécia, a Irlanda e Portugal. Agora, os gregos andam às voltas com o segundo (ontem foi pedido um relatório ao ministro das Finanças com todos os pormenores de um eventual incumprimento grego). E a sua saída do euro foi mencionada várias vezes nas negociações dos últimos dias. O Governo espanhol não é alheio a tudo isto. No executivo não gostam da perspetiva de se abrir a porta de saída do clube do euro, porque atrás iria Portugal e ninguém sabe onde poderia acabar a lista. Mas também gostavam que os políticos gregos levassem mais a sério o que está a acontecer. “Já sabíamos que os gregos são como são. O problema não é só económico, mas também político”, afirma um alto funcionário. E a saída não parece estar nas ameaças, como a que foi feita pelos alemães, de nomear um comissário, ou como a avançada pelos franceses, de criar uma conta separada para depositar o dinheiro destinado ao pagamento da dívida. Os gregos nunca se sentiram inferiores aos outros europeus. Apesar da sua economia estar destruída, a sua autoestima e o seu orgulho são enormes. De facto, sempre desconfiaram da ideia de Europa a menos que isso signifique que Bruxelas financiará o seu nível de vida. Mas isto já se sabia desde o primeiro dia em que entraram na UE." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 18:43 | link do post | comentar | partilhar

Tratado de Maastricht, 20 anos depois

Cumprem-se hoje 20 anos (!) sobre a data de assinatura formal do Tratado da União Europeia, vulgo Tratado de Maastricht - que introduziu a primeira grande mutação no projecto comunitário europeu iniciado nos idos de cinquenta, quando a Europa ainda carpia as dores da segunda guerra mundial e se mostrava fortemente empenhada em que a tragédia não se voltasse a repetir. Em Portugal, mas também por toda a Europa dita «ocidental» de então, foi o primeiro momento sério de debate aprofundado sobre os diferentes modelos que se deparavam para o futuro das Comunidades Europeias da época. Foi o tempo do debate aprofundado e transversal que dividiu a sociedade política europeia de forma absolutamente transversal, entre partidários e adversários do Tratado que se anunciava. Foi o momento do surgimento de uma querela apaixonada em torno dos conceitos de federalismo e de intergovernamentalismo; foi a época que assistiu a todas as transformações que se seguiram à proclamação do fim da guerra-fria; foi o tempo da aproximação ao projecto europeu não só da Áustria, da Finlândia e da Suécia (que haveriam de aderir em 1995) mas também da generalidade dos Estados da ex-Europa de leste, da Europa que estava para lá do Muro de Berlim recém-derrubado, aproximação que haveria de culminar nas adesões de 2004 e de 2007.

 

Dando acolhimento a uma ambição quase ilimitada, a geração liderante de então ousou lançar as bases não só da união política europeia como, igualmente, da união económica e monetária. Olhando para trás, retrospectivamente, teremos de concluir que houve excesso de ambição ou de voluntarismo para as capacidades políticas à época existentes; foi a primeira vez que, seriamente, ouvimos falar e discutir questões fundamentais cuja importância, à época, mal compreendíamos, como critérios de convergência, convergências reais e convergências nominais, cláusulas de opting out, moeda única e/ou moeda comum, uniões económicas perfeitas e imperfeitas.

 

Mas Maastricht não se limitou a criar a União Europeia como um passo no processo de aprofundamento da integração política do velho continente - veio, também, iniciar uma prática nova que consistiu em diferenciar os povos da Europa, da Europa da nova União, entre aqueles a quem foi dado o direito de se pronunciarem sobre o futuro que se construía e a imensa maioria daqueles a quem esse direito foi negado e cerceado. Os dinamarqueses foram pioneiros no uso do direito - e logo à primeira ousaram enfrentar os poderes instituídos e recusaram o Tratado. Perante tamanha ousadia, a União nascente não encontrou outra nem melhor solução do que forçar a mão dinamarquesa e impor a repetição do referendo. À segunda, o Tratado foi aprovado. Continuou a dúvida sobre quantos outros referendos se realizariam se o segundo repetisse os resultados do primeiro. Mas o precedente estava aberto - e a alguns outros Estados a repetição de referendos impor-se-ia como regra, em momentos posteriores. Decerto - quando a rejeição proveio de Estados ditos «grandes», a Europa da União entendeu por bem conformar-se com os resultados e mudar os textos submetidos a sufrágio. Nessa batalha referendária, Portugal, recém-entrado no projecto comunitário havia apenas meia dúzia de anos, esteve do lado da imensa maioria de povos de segunda, daqueles a quem o direito de se pronunciarem sobre os assuntos europeus foi cerceado. Não por ter faltado quem tenha reclamado a sua realização, a começar pelo, à data, supremo magistrado da Nação; mas porque, então, nesses idos de noventa, éramos governados por um Primeiro-Ministro que, alicerçado na sua imensa maioria absoluta, se encarregou de explicar ao soberano popular que, ouvi-lo em referendo, era um luxo muito caro....

 

Parece que foi ontem. Foi há 20 anos.

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6 Encontros | 6 Debates

Joao Pedro Dias às 00:01 | link do post | comentar | partilhar
Sexta-feira, 03.02.12

A chanceler que brinca com o fogo - by Joschka Fischer

"A chanceler Angela Merkel deve andar feliz hoje em dia: os índices de aprovação do seu partido não são maus e os que a ela dizem respeito são muito bons. Já não tem adversários relevantes no centro direita da União Democrata-Cristã (CDU) e à esquerda, a oposição está fragmentada em quatro partidos. A sua resposta à crise europeia prevaleceu – ou pelo menos é a impressão que ela deixa transparecer, e aquela em que a maioria dos alemães acredita. Portanto, tudo corre bem no reino alemão, certo?

 

Não vamos pôr o carro à frente dos bois. Existem dois assuntos que poderão complicar a candidatura de Merkel às próximas eleições, no Outono de 2013. A nível interno, o seu parceiro de coligação, o Partido Democrático Liberal (FDP), está a desintegrar-se. Mesmo que o FDP sobreviva às próximas eleições (o que não é, de modo algum, certo), é muito pouco provável que a actual coligação mantenha a sua maioria parlamentar, o que deixaria Merkel cada vez mais dependente do Partido Social Democrata (SPD). Embora talvez este facto não a preocupe muito enquanto mantiver o cargo de chanceler, Merkel vai enfrentar – pela primeira vez – um adversário, Sigmar Gabriel, o líder do SPD, que constituirá um risco para ela se o subestimar.


Mas o verdadeiro perigo para Merkel vem do exterior: a crise europeia. Se tiver pouca sorte, a crise atingirá o auge logo no início do ano eleitoral alemão e todas as previsões anteriores poderão ser contestáveis, porque, apesar da frustração alemã relativamente à Europa, o eleitorado poderá castigar severamente aqueles que deixaram a Europa cair.


A economia da União Europeia está a mergulhar numa recessão grave e, muito provavelmente, duradoura, em grande parte auto-infligida. Enquanto a Alemanha ainda está a tentar dissipar o fantasma da hiperinflação, através de medidas rigorosas de austeridade, os países críticos da UE enfrentam uma séria ameaça de deflação, com consequências potencialmente desastrosas. É apenas uma questão de tempo – e já não falta muito – para que a instabilidade económica dê origem à instabilidade política.


A Hungria, onde a regressão democrática parece ganhar terreno, oferece uma antevisão de uma Europa onde a crise e a deflação da zona euro persistem. O ambiente nos Estados-membros mediterrânicos da UE e também na Irlanda começa a aquecer, devido não só ao aperto da austeridade, mas também – e talvez mais importante – à ausência de políticas capazes de oferecer às pessoas a esperança de um futuro melhor. A natureza explosiva das tendências actuais, que apontam para uma renacionalização da soberania da base para o topo, é largamente subestimada em Berlim.


A crise atingiu agora a Itália e ameaça estender-se à França. Ao eleger Mario Monti para o cargo de primeiro-ministro, a Itália mobilizou os seus melhores, e nem a Itália nem a Europa irão obter um melhor governo num futuro previsível. Se a administração de Monti for derrubada – quer no Parlamento quer nas ruas – a quarta maior economia da UE poderá desmoronar. Monti pede ajuda com urgência. Onde é que está essa ajuda?


Também não devem ser ignorados os desenvolvimentos em França (a segunda maior economia da zona euro) neste ano de eleições presidenciais. Se a maioria dos franceses começar a acreditar que lhes está a ser imposta do exterior uma linha de acção – e logo pela Alemanha! – irá responder com forma tradicional de teimosia gaulesa.


O que está em risco não é tanto o resultado das eleições, mas sim a margem entre o Presidente Nicolas Sarkozy e a líder de extrema-direita da Frente Nacional, Marine Le Pen – e se ela o vai ultrapassar de forma a ficar garantida para a segunda volta das eleições contra o candidato socialista. Apesar de ser pouco provável que ela ganhe a presidência, poderia restruturar e realinhar a direita francesa. Por esta razão, um fracasso de Sarkozy iria reduzir drasticamente o espaço de manobra do seu sucessor socialista na política europeia, alterando fundamentalmente a posição da França na Europa.


Mas, enquanto o desfecho das eleições francesas depende de forma crucial das políticas de crise europeias, o governo alemão age como se isto não lhe dissesse respeito. Em vez disso, o assunto principal – e quase exclusivo em Berlim – são as eleições que se aproximam. E a questão central não é "O que deve ser feito de imediato no interesse da Europa?" mas sim "Quanto é que se pode esperar que as pessoas na Alemanha aceitem – em particular, quanta honestidade?". Ninguém irá agir de forma a comprometer as suas perspectivas eleitorais, pelo menos enquanto ainda houver alternativas. Logo, é admissível que a Alemanha não esteja realmente interessada num esforço sério para resolver a crise europeia, porque isso implicaria correr grandes riscos e investir muito dinheiro.


A coligação CDU-FDP prefere disfarçar a situação convencendo-se da existência de uma conspiração anglo-saxónica, incentivada pelos países europeus em crise que se mostram pouco disponíveis para produzir e aplicar reformas e cujo único objectivo é fazer com que os alemães paguem. Até à data, a coligação de Merkel pode comparar-se a um condutor que conduz em contramão, convencido de que todos os outros é que vão no sentido errado.


A desintegração europeia já avançou muito mais do que pode parecer. A desconfiança e o egoísmo nacionais estão a propagar-se rapidamente, devorando a solidariedade europeia e o objectivo comum.


A nível institucional, a Europa tem-se mantido no caminho certo desde a última cimeira, mas ameaça desintegrar-se, da base para o topo. Para salvar o euro – o que é fundamental, pois o destino do projecto europeu depende do sucesso da união monetária – a Europa precisa de intervenção imediata: para além de medidas indispensáveis de austeridade e de reformas estruturais, só é possível ter êxito com um programa económico viável que assegure o crescimento.


E isso não vai ser barato. Se o governo de Merkel acredita que defender apenas verbalmente o crescimento é suficiente, então está a brincar com o fogo: um colapso do euro, cujas graves queimaduras não seriam apenas sofridas pelos alemães." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 20:20 | link do post | comentar | partilhar
Quinta-feira, 02.02.12

No mercado de Pequim

[Fonte]

Joao Pedro Dias às 22:12 | link do post | comentar | partilhar
Quarta-feira, 01.02.12

Irlanda dá início a debate amargo sobre referendo

“Pacto fiscal criado para evitar referendo irlandês”, titula o Irish Times. De acordo com a lei irlandesa, todos os novos tratados da UE devem ser submetidos a um plebiscito nacional. No entanto, um funcionário anónimo da UE revelou ao diário de Dublin que o pacto fiscal acordado na segunda-feira, dia 30 de janeiro “foi especificamente executado” para evitar o cenário do referendo do Tratado de Lisboa de 2009, que foi rejeitado, adiando assim a sua entrada em vigor. Admitindo que a decisão de realizar uma votação poderia chegar ao Supremo Tribunal da Irlanda, o funcionário defendeu que o referendo “não tem nada a ver com democracia”. O Irish Times constata que – apesar de não serem absolutamente claras as partes do tratado criadas para favorecer o Governo, os funcionários irlandeses são conhecidos por procurarem formas de adotar novos limites rigorosos à dívida e aos défices através da legislação, em vez da Constituição. Contudo, os partidos da oposição irlandesa, incluindo Fianna Fáil e Sinn Féin estão a unir esforços para intentar uma ação judicial para forçar o voto, escreve o Irish Examiner, no âmbito do aumento de debates amargos no parlamento. O correspondente europeu do Irish Times, Arthur Beesley, observa que apesar de a Irlanda “não estranhar” a “vigilância externa incómoda dos seus negócios internos” desde o resgate, da UE/BCE/FMI, de 85 mil milhões de euros em 2010, o novo tratado poderá prender “eternamente” o país a tal vigilância. Claro que uma coisa é submeter o decreto inexorável da troika numa situação de urgência, na qual o Estado é afastado dos mercados de dívida privada. Outra é aceitar que os futuros governos estejam de pés e mãos atados perante as obrigações crescentes da Irlanda para com a Europa – mesmo quando o Estado recuperar. Beesley sugere ainda que caso o referendo controverso seja rejeitado, isto “impedirá seriamente a Irlanda de regressar aos mercados”. Mais importante é o facto de os países que não ratificarem o pacto dentro de 13 meses deixarem de ter o direito de ser resgatados pelo Mecanismo de Estabilidade Europeu. Os observadores podem constatar uma decisão certamente incorreta nesta disposição, que parte de uma ideia alemã". [Fonte]

Joao Pedro Dias às 23:18 | link do post | comentar | partilhar
Terça-feira, 31.01.12

Saudades de Kohl - by José Cutileiro

"Tip O’Neill presidiu à Câmara dos Representantes em Washington de 1977 a 1987 e dizia: All politics is local politics – toda a política é política local. Como bom americano estava a pensar em política interna: tudo o que se resolvesse em Washington, os compromissos precisos para chegar às grandes decisões nacionais exigiam satisfação de pequenos caprichos das parvónias de uns ou doutros. De resto, quem entrar no Congresso dos Estados Unidos poderá ver carradas de visitantes – homens, mulheres, crianças – vestidos com à-vontade transatlântico, procurando encontrar o seu Senador ou o seu Representante, olhando para a História nos retratos das paredes, bebendo coca- -cola, falando e rindo alto e bom som. O Congresso é deles.

O aforismo aplica-se a política internacional mas de maneira diferente. A política interna determina a política externa. Quando um país for forte, a sua própria política interna; quando não o for – e é essa a diferença – a política interna de países que o sejam. 

Nos dias inglórios da chamada aventura europeia que vivemos de há dois anos para cá, as medidas de rigor tomadas por Conselhos Europeus, isto é, por acordos internacionais a 27 que nos estão a afundar na recessão económica em vez de nos ajudarem a sair do buraco, têm sido ditadas por razões de política interna. Não das políticas internas dos 27 membros da União, mas de política interna alemã. Nas frequentes eleições estaduais da República Federal, os partidos que apoiam Angela Merkel têm perdido sempre, desde a eleição nacional que a levou ao poder. A Senhora faz o que pode para tentar recuperar votos – até passou, de um dia para o outro, a condenar centrais nucleares na produção de electricidade que sempre defendera –, afirma seguir a vontade do povo quando faz impor austeridade punitiva às gentes do Sul e diz que não a medidas que aliviariam esta (intervenção do Banco Central Europeu; obrigações europeias; maior fundo de emergência europeu). A oposição social-democrata que espera voltar ao poder em 2013 é contra essa austeridade e preferiria medidas que fomentassem crescimento. 

Assim, uma razão de política interna alemã – a convicção da Chanceler de que a maioria dos alemães não quer gastar mais um euro a ajudar outros europeus e a vontade dela de lhes agradar – foi ditando decisões da União cada vez mais custosas e funestas. 

Depois de 2 anos de crise, outros dirigentes europeus estão menos mesmerizados pela Berlim de Angela Merkel e acordam de uma espécie de sonambulismo; ameaças de Pax Germanica alarmam toda a gente (até os finlandeses); políticas internas de cada um reclamam direito de cidade – o afundamento económico da Europa que a curteza de vistas da Senhora ajudou a cavar talvez seja evitável.

A crise desencadeada quando Papandreu veio dizer que a Grécia tinha viciado as contas poderia ter sido a oportunidade da Alemanha se redimir de vez. Faltou a grandeza de um Kohl e vai levar muito tempo tornar a pôr a Europa no são." [Fonte]
Joao Pedro Dias às 23:45 | link do post | comentar | partilhar

Angela Merkel ultrapassa os limites

“A mulher que caminhava no frio.” A expressão do Süddeutsche Zeitung resume a receção, no mínimo, fresca do desempenho de Angela Merkel no Conselho Europeu do dia 30 de janeiro. De facto, a chanceler conseguiu impor em apenas dois meses, e praticamente sozinha, o pacto fiscal aos seus parceiros europeus, mas passou a ficar com “a imagem da malvada comissária da austeridade”, observa o Spiegel Online, e “suscita na Europa o medo de um domínio estrangeiro”. A culpa é da proposta de enviar um comissário do orçamento para Atenas para obrigar os gregos a controlar as suas contas. “Veneno político”, considera o Spiegel, “a confissão de um fracasso”, acrescenta o Tagesspiegel, que compreende totalmente que em Atenas as comparações com um “Gauleiter” da época nazi tenham vindo a aumentar cada vez mais: Se ao menos se tratasse apenas de uma falta de sensibilidade histórica, com a qual os alemães pressionam os gregos, poderíamos remediá-la com um pouco de habilidade diplomática. Mas não é este o caso. A proposta mostra que a comunidade monetária deixou claramente de ser desejada. Neste momento, trata-se do rico contra o pobre, do forte contra o fraco. […] Os gregos já têm a troika (FMI, UE e BCE), não precisam de um interveniente suplementar que refaça as suas contas num quadro. A nova tranche de ajuda que está atualmente a ser discutida deverá criar um equilíbrio entre as reformas e o crescimento. Para tal, é preciso muito dinheiro, tempo e – sim – também é precisa confiança". [Fonte]

Joao Pedro Dias às 12:03 | link do post | comentar | partilhar

Polónia não está 100% satisfeita

“Cimeiras europeias com a Polónia e sem a Polónia”, titula o Gazeta Wyborcza a propósito do compromisso conseguido a 30 de janeiro na cimeira da UE, que autoriza a participação da Polónia apenas nas reuniões da zona euro destinadas a “aplicar o pacto fiscal e as reformas da zona euro”. O Primeiro-Ministro polaco, Donald Tusk, sublinha que não está “100% satisfeito com este compromisso”, mas que, ainda assim, a Polónia irá assinar este pacto. O Dziennik Gazeta Prawna traça um retrato negro da cimeira realizada esta semana e chega às seguintes conclusões: Em primeiro lugar, a Europa desfez-se. O pacto fiscal é o ato fundador da nova UE, na qual os países fora do euro passam a ser membros de segunda categoria. Em segundo lugar, cria uma oportunidade excelente para pôr fim ao mito de que nós [a Polónia] andamos atrelados à Alemanha a aproveitar os benefícios. A Alemanha não vai sacrificar a cooperação com a França por causa do discurso do ministro dos Negócios Estrangeiros Sikorski, em Berlim, a pedir mais liderança da Alemanha. Em terceiro lugar, felicitamos a França e a Alemanha por terem liderado uma política eficaz com objetivos nacionais claramente definidos. Nós [a Polónia] limitamo-nos a improvisar". [Fonte]

Joao Pedro Dias às 12:00 | link do post | comentar | partilhar

Praga opta por ficar à porta

“Nem sim, nem não. República Checa isolada na UE”, constata o Hospodářské noviny no dia seguinte à adoção do pacto orçamental pelo Conselho Europeu. Praga foi a única, juntamente com o Reino Unido, que se recusou a assinar o pacto de responsabilidade orçamental adotado pelos outros 25 Estados-membros da UE. “Este tratado não traz qualquer benefício político e não permite a todos os países uma participação igual nas cimeiras europeias”, justificou o Primeiro-Ministro Petr Nečas, que terá de contar também com a oposição do presidente Václav Klaus a qualquer integração suplementar. Para este diário, a cimeira de Bruxelas não divide a Europa, mas pode ser vista como sendo um acontecimento que realça “diferentes pontos de vista sobre a integração, onde toda a gente pode escolher o seu lugar”. Neste quadro, a República Checa não se quis sentar à mesa, nem ficar na sala de espera […]. Preferiu ficar ‘à escuta’ numa sala minúscula, de onde é difícil influenciar o que se passa na Europa". [Fonte]

Joao Pedro Dias às 11:40 | link do post | comentar | partilhar
Segunda-feira, 30.01.12

O novo Tratado intergovernamental orçamental

TREATY ON STABILITY, COORDINATION AND GOVERNANCE

IN THE ECONOMIC AND MONETARY UNION

 

THE CONTRACTING PARTIES………..

 

CONSCIOUS of the obligation of the Contracting Parties, as Member States of the European Union, to regard their economic policies as a matter of common concern, 

 

DESIRING to promote conditions for stronger economic growth in the European Union and, to that end, to develop ever-closer coordination of economic policies within the euro area,

 

BEARING IN MIND that the need for governments to maintain sound and sustainable public finances and to prevent a government deficit becoming excessive is of an essential importance to safeguard the stability of the euro area as a whole, and accordingly requires the introduction of specific rules to address this need, including a balanced budget rule and an automatic mechanism to take corrective action, 

 

CONSCIOUS of the need to ensure that their deficits do not exceed 3 % of their gross domestic product at market prices and that government debt does not exceed, or is sufficiently declining towards, 60 % of their gross domestic product at market prices,

 

RECALLING that the Contracting Parties, as Member States of the European Union, should refrain from adopting any measure which could jeopardise the attainment of theUnion's objectives in the framework of the economic union, notably the practice of accumulating debt outside the general government accounts, 

 

BEARING IN MIND that the Heads of State or Government of the euro area Member States agreed on 9 December 2011 on a reinforced architecture for Economic and Monetary Union, building upon the European Union Treaties and facilitating the implementation of measures taken on the basis of Articles 121, 126 and 136 of the Treaty on the Functioning of the European Union,

 

BEARING IN MIND that the objective of the Heads of State or Government of the euro area Member States and of other Member States of the European Union is to incorporate the provisions of this Treaty as soon as possible into the Treaties on which the European Union is founded, 

 

WELCOMING the legislative proposals made by the European Commission for the euro area within the framework of the European Union Treaties on 23 November 2011, on the strengthening of economic and budgetary surveillance of Member States experiencing or threatened with serious difficulties with respect to their financial stability, and on common provisions for monitoring and assessing draft budgetary plans and ensuring the correction of excessive deficit of the Member States, and TAKING NOTE of the Commission's intention to present further legislative proposals for the euro area concerning, in particular, ex ante reporting of debt issuance plans, economic partnership programmes detailing structural reforms for Member States in excessive deficit procedure as well as coordination of major economic policy reform plans of Member States,

 

EXPRESSING their readiness to support proposals which the Commission might present to further strengthen the Stability and Growth Pact by introducing, for Member States whose currency is the euro, a new range for medium term objectives in line with the limits established in this Treaty,

 

TAKING NOTE that, when reviewing and monitoring the budgetary commitments under this Treaty, the European Commission will act within the framework of its powers as provided by the Treaty on the functioning of the European Union, in particular Articles 121, 126 and 136 thereof,

 

NOTING in particular that, for the application of the budgetary "Balanced Budget Rule" described in Article 3 of this Treaty, this monitoring will be made through the setting up of country specific medium term objectives and of calendars of convergence, as appropriate, for each Contracting Party,

 

NOTING that the medium term objectives should be updated regularly on the basis of a commonly agreed method, the main parameters of which are also to be reviewed regularly, reflecting appropriately the risks of explicit and implicit liabilities for public finance, as embodied in the aims of the Stability and Growth Pact,

 

NOTING that sufficient progress towards the medium term objectives should be evaluated on the basis of an overall assessment with the structural balance as a reference, including an analysis of expenditure net of discretionary revenue measures, in line with the provisions specified under European Union law, in particular Council Regulation (EC) No. 1466/97 of 7 July 1997 on the strengthening of the surveillance of budgetary positions and the surveillance and coordination of budgetary policies, as amended by Regulation (EU) No. 1175/2011 of the European Parliament and of the Council of 16 November 2011 (hereinafter "the revised Stability and Growth Pact"),

 

NOTING that the correction mechanism to be introduced by the Contracting Parties should aim at correcting deviations from the medium-term objective or the adjustment path including their cumulated impact on government debt dynamics,

 

NOTING that compliance with the obligation to transpose the "Balanced Budget Rule" into national legal systems through binding and permanent provisions, preferably constitutional, should be subject to the jurisdiction of the Court of Justice of the European Union, in accordance with Article 273 of the Treaty on the Functioning of the European Union, 

 

RECALLING that Article 260 of the Treaty on the Functioning of the European Union  empowers the Court of Justice of the European Union to impose the payment of a lump sum or penalty on a Member State of the European Union having failed to comply with one of its judgments and that the European Commission has established criteria for the determination of the lump sum or penalty to be paid in the framework of that Article,

 

RECALLING the need to facilitate the adoption of measures under the excessive deficit procedure of the European Union for euro area Contracting Parties whose planned or actual government deficit to gross domestic product exceeds 3%, whilst strongly reinforcing the objective of that procedure, namely to encourage and, if necessary, compel the Member State concerned to reduce a deficit which might be identified, 

 

RECALLING the obligation for those Contracting Parties whose government debt exceeds the 60 % reference value to reduce it at an average rate of one twentieth per year as a benchmark,

 

BEARING IN MIND the need to respect, in the implementation of this Treaty, the specific role of the social partners, as it is recognized in the laws or national systems of each of the Contracting Parties, 

 

STRESSING that none of the provisions of  this Treaty is to be interpreted as altering in any way the economic policy conditions under which financial assistance has been granted  to a Contracting Party in a stabilisation programme involving the European Union, its Member States and the International Monetary Fund,

 

NOTING that the smooth functioning of the Economic and Monetary Union makes it necessary that the Contracting Parties work jointly towards an economic policy where, whilst building upon the mechanisms of economic policy coordination as defined in the European Union Treaties, they take the necessary actions and measures in all the domains which are essential to the good functioning of the euro area, 

 

NOTING, in particular, the wish of the Contracting Parties to make more active use of enhanced cooperation, as provided for in Article 20 of the Treaty on European Union and in Articles 326 to 334 of the Treaty on the Functioning of the European Union, without undermining the internal market, as well as to make full recourse to measures specific to the Member States whose currency is the euro pursuant to Article 136 of the Treaty on the Functioning of the European Union, and to a procedure for the ex ante discussion and coordination among the Contracting Parties whose currency is the euro of all major economic policy reforms planned by them, with a view to benchmarking best practices, 

 

RECALLING the agreement of the Heads of State or Government of the euro area Member States on 26 October 2011 to improve the governance of the euro area, including the holding of at least two Euro Summit meetings per year, to be convened, unless justified by exceptional circumstances, immediately after meetings of the European Council or meetings with the participation of all Contracting Parties having ratified this Treaty,

 

RECALLING also the endorsement by the Heads of State or Government of the euro area Member States and of other Member States of the European Union on 25 March 2011 of the Euro Plus Pact which identifies the issues that are essential to fostering competitiveness in the euro area,

 

STRESSING the importance of the Treaty establishing the European Stability Mechanism as an element of a global strategy to strengthen the Economic and Monetary Union and POINTING OUT that the granting of assistance in the framework of new programmes under the European Stability Mechanism will be conditional, as of 1 March 2013, on the ratification of this Treaty by the Contracting Party concerned and, as soon as the transposition period mentioned in Article 3(2) has expired, on compliance with the requirements of this Article,

 

NOTING that … are Contracting Parties whose currency is the euro and that, as such, they will be bound by the provisions of this Treaty from the first day of the month following the deposit of their instrument of ratification if the Treaty is in force at that date; NOTING ALSO that … are Contracting Parties which, as Member States of the European Union, have, at the date of signature of this Treaty, a derogation or an exemption from participation in the single currency and may be bound, as long as this derogation or exemption is not abrogated, only by those provisions of Titles III and IV by which they declare, on depositing their instrument of ratification or at a later date, that they intend to be bound,

 

HAVE AGREED UPON the following provisions: 

 

TITLE I

PURPOSE AND SCOPE

Article 1

1. By this Treaty, the Contracting Parties agree, as Member States of the European Union, to strengthen the economic pillar of the Economic and Monetary Union by adopting a set of rules intended to foster budgetary discipline through a fiscal compact, to strengthen the coordination of economic policies and to improve the governance of the euro area, thereby supporting the achievement of the European Union's objectives for sustainable growth, employment, competitiveness and social cohesion. 

2.  The provisions of this Treaty shall apply in full to the Contracting Parties whose currency is the euro. They shall also apply to the other Contracting Parties to the extent and under the conditions set out in Article 14.

 

TITLE II

CONSISTENCY AND RELATIONSHIP WITH THE LAW OF THEUNION

Article 2

1.  This Treaty shall be applied and interpreted by the Contracting Parties in conformity with the Treaties on which the European Union is founded, in particular Article 4(3) of the Treaty on European Union, and with European Union law, including procedural law whenever the adoption of secondary legislation is required.

2.  The provisions of this Treaty shall apply insofar as they are compatible with the Treaties on which theUnionis founded and with European Union law. They shall not encroach upon the competences of theUnionto act in the area of the economic union.

 

TITLE III

FISCAL COMPACT

Article 3

1. The Contracting Parties shall apply the following rules, in addition and without prejudice to the obligations derived from European Union law:

a) The budgetary position of the general government shall be balanced or in surplus.

b) The rule under point a) shall be deemed to be respected if the annual structural balance of the general government is at its  country-specific medium-term objective as defined in the revised Stability and Growth Pact with a lower limit of a structural deficit of 0.5 % of the gross domestic product at market prices. The Contracting Parties shall ensure rapid convergence towards their respective medium-term objective. The time frame for such convergence will be proposed by the Commission taking into consideration country-specific sustainability risks. Progress towards and respect of the medium-term objective shall be evaluated on the basis of an overall assessment with the structural balance as a reference, including an analysis of expenditure net of discretionary revenue measures, in line with the provisions of the revised Stability and Growth Pact.

c) The Contracting Parties may temporarily deviate from their medium-term objective or the adjustment path towards it only in exceptional circumstances as defined in paragraph 3. 

d) Where the ratio of government debt to gross domestic product at market prices is significantly below 60 % and where risks in terms of long-term sustainability of public finances are low, the lower limit of the medium-term objective specified under point b) can reach a structural deficit of at most 1.0 % of the gross domestic product at market prices.

e) In the event of significant observed deviations from the medium-term objective or the adjustment path towards it, a correction mechanism shall be triggered automatically. The mechanism shall include the obligation of the Contracting Party concerned to implement measures to correct the deviations over a defined period of time.

2. The rules mentioned under paragraph 1 shall take effect in the national law of the Contracting Parties at the latest one year after the entry into force of this Treaty through provisions of binding force and permanent character, preferably constitutional, or otherwise guaranteed to be fully respected and adhered to throughout the national budgetary processes. The Contracting Parties shall put in place at national level the correction mechanism mentioned in paragraph 1.e) on the basis of common principles to be proposed by the European Commission, concerning in particular the nature, the size and the time-frame of the corrective action to be undertaken, also in the case of exceptional circumstances, and the role and independence of the institutions responsible at national level for monitoring the observance of the rules. This mechanism shall fully respect the prerogatives of national Parliaments.

3. For the purposes of this Article, definitions set out in Article 2 of Protocol (No 12) on the excessive deficit procedure annexed to the European Union Treaties shall apply. In addition, "annual structural balance of the general government" refers to the annual cyclically-adjusted balance net of one-off and temporary measures. "Exceptional circumstances" refer to the case of an unusual event outside the control of the Contracting Party concerned which has a major impact on the financial position of the general government or to periods of severe economic downturn as defined in the revised Stability and Growth Pact, provided that the temporary deviation of the Contracting Party concerned does not endanger fiscal sustainability in the medium term.

 

Article 4

When the ratio of their general government debt to gross domestic product exceeds the 60 % reference value mentioned under Article 1 of Protocol (No 12), the Contracting Parties shall reduce it at an average rate of one twentieth per year as a benchmark, as provided for in Article 2 of Council Regulation (EC) No. 1467/97 of 7 July 1997 on speeding up and clarifying the implementation of the excessive deficit procedure, as amended by Council Regulation (EU) No. 1177/2011 of 8 November 2011. The existence of an excessive deficit due to the breach of the debt criterion will be decided according to the procedure set forth in Article 126 of the Treaty on the Functioning of the European Union.

 

Article 5

1. The Contracting Parties that are subject to an excessive deficit procedure under the European Union Treaties shall put in place a budgetary and economic partnership programme including a detailed description of the structural reforms which must be put in place and implemented to ensure an effective and durable correction of their excessive deficits. The content and format of these programmes shall be defined in European Union law.  Their submission to the European Commission and the Council for endorsement and their monitoring will take place within the context of the existing surveillance procedures of the Stability and Growth Pact.

2. The implementation of the programme, and the yearly budgetary plans consistent with it, will be monitored by the Commission and by the Council.

 

Article 6

With a view to better coordinating the planning of their national debt issuance, the Contracting Parties shall report ex-ante on their public debt issuance plans to the European Commission and to the Council.

 

Article 7

While fully respecting the procedural requirements of the European Union Treaties, the Contracting Parties whose currency is the euro commit to support the proposals or recommendations submitted by the European Commission where it considers that a Member State of the European Union whose currency is the euro is in breach of the deficit criterion in the framework of an excessive deficit procedure. This obligation shall not apply where it is established among the Contracting Parties whose currency is the euro that a qualified majority of them, calculated by analogy with the relevant provisions of the European Union Treaties without taking into account the position of the Contracting Party concerned, is opposed to the decision proposed or recommended.

 

Article 8

1. The European Commission is invited to present in due time to the Contracting Parties a report on the provisions adopted by each of them in compliance with Article 3(2). If the European Commission, after having given the Contracting Party concerned the opportunity to submit its observations, concludes in its report that a Contracting Party has failed to comply with Article 3(2), the matter will be brought to the Court of Justice of the European Union by one or more of the Contracting Parties. Where a Contracting Party considers, independently of the Commission's report, that another Contracting Party has failed to comply with Article 3 (2), it may also bring the matter to the Court of Justice. In both cases, the judgment of the Court of Justice shall be binding on the parties in the procedure, which shall take the necessary measures to comply with the judgment within a period to be decided by the Court.

2. If, on the basis of its own assessment or of an assessment by the European Commission, a Contracting Party considers that another Contracting Party has not taken the necessary measures to comply with the judgment of the Court of Justice referred to in paragraph 1, it may bring the case before the Court of Justice and request the imposition of financial sanctions following criteria established by the Commission in the framework of Article 260 of the Treaty on the Functioning of the European Union. If the Court finds that the Contracting Party concerned has not complied with its judgment, it may impose on it a lump sum or a penalty payment appropriate in the circumstances and that shall not exceed 0,1 % of its gross domestic product. The amounts imposed on a Contracting Party whose currency is the euro shall be payable to the European Stability Mechanism. In other cases, payments shall be made to the general budget of the European Union. 

3. This Article constitutes a special agreement between the Contracting Parties within the meaning of Article 273 of the Treaty on the Functioning of the European Union

 

TITLE IV

ECONOMIC POLICY COORDINATION AND CONVERGENCE

Article 9

Building upon the economic policy coordination as defined in the Treaty on the Functioning of the European Union, the Contracting Parties undertake to work jointly towards an economic policy fostering the smooth functioning of the Economic and Monetary Union and economic growth through enhanced convergence and competitiveness.  To that end, the Contracting Parties shall take the necessary actions and measures in all the domains which are essential to the good functioning of the euro area in pursuit of the objectives of fostering competitiveness, promoting employment, contributing further to the sustainability of public finances and reinforcing financial stability.

 

Article 10

In accordance with the requirements of the European Union Treaties, the Contracting Parties stand ready to make active use, whenever appropriate and necessary, of measures specific to those Member States whose currency is the euro as provided for in Article 136 of the Treaty on the Functioning of the European Union and of enhanced cooperation as provided for in Article 20 of the Treaty on European Union and in Articles 326 to 334 of the Treaty on the Functioning of the European Union on matters that are essential for the smooth functioning of the euro area, without undermining the internal market.

 

Article 11

With a view to benchmarking best practices and working towards a more closely coordinated economic policy, the Contracting Parties ensure that all major economic policy reforms that they plan to undertake will be discussed ex-ante and, where appropriate, coordinated among themselves.

This coordination shall involve the institutions of the European Union as required by European Union law.

 

TITLE V

GOVERNANCE OF THE EURO AREA

Article 12

1. The Heads of State or Government of the Contracting Parties whose currency is the euro shall meet informally in Euro Summit meetings, together with the President of the European Commission.  The President of the European Central Bank shall be invited to take part in the meetings. The President of the Euro Summit shall be appointed by the Heads of State or Government of the Contracting Parties whose currency is the euro by simple majority at the same time the European Council elects its President and for the same term of office. 

2. Euro Summit meetings shall take place, when necessary, and at least twice a year, to discuss questions related to the specific responsibilities which the Contracting Parties whose currency is the euro share with regard to the single currency, other issues concerning the governance of the euro area and the rules that apply to it, and strategic orientations for the conduct of economic policies to increase  convergence in the euro area.

3. The Heads of State or Government of the Contracting Parties, other than those whose currency is the euro,  who have ratified this Treaty shall participate in discussions of Euro Summit meetings concerning competitiveness for the Contracting Parties, the modification of the global architecture of the euro area and the fundamental rules that will apply to it in the future, as well as, when appropriate and at least once a year, in discussions on specific issues of implementation of this Treaty on  Stability, Coordination and Governance in the Economic and Monetary Union.

4. The President of the Euro Summit shall ensure the preparation and continuity of Euro Summit meetings, in close cooperation with the President of the European Commission. The body charged with the preparation and follow up of the Euro Summit meetings shall be the Euro Group and its president may be invited to attend the Euro Summit meetings for that purpose.

5. The President of the European Parliament may be invited to be heard.  The President of the Euro Summit shall present a report to the European Parliament after each of the meetings of the Euro Summit.

6. The President of the Euro Summit shall keep the Contracting Parties whose currency is not the euro and the other Member States of the European Union closely informed of the preparation and outcome of the Euro Summit meetings. 

 

Article 13

As foreseen in Title II of Protocol (No 1) on the role of national Parliaments in the European Union annexed to the European Union Treaties, the European Parliament and the national Parliaments of the Contracting Parties will together determine the organisation and promotion of a conference of representatives of the relevant committees of the national Parliaments and representatives of the relevant committees of the European Parliament in order to discuss budgetary policies and other issues covered by this Treaty.

 

TITLE VI

GENERAL AND FINAL PROVISIONS

Article 14

1. This Treaty shall be ratified by the Contracting Parties in accordance with their respective constitutional requirements. The instruments of ratification shall be deposited with the General Secretariat of the Council of the European Union.

2. This Treaty shall enter into force on 1 January 2013, provided that twelve Contracting Parties whose currency is the euro have deposited their instrument of ratification, or on the first day of the month following the deposit of the twelfth instrument of ratification by a Contracting Party whose currency is the euro, whichever is the earlier.

3. This Treaty shall apply as from the day of entry into force amongst the Contracting Parties whose currency is the euro and which have ratified it.  It shall apply to the other Contracting Parties whose currency is the euro as from the first day of the month following the deposit of their respective instrument of ratification.

4. By derogation to paragraph 3, Article 12 shall apply to all Contracting Parties whose currency is the euro as from the date of the entry into force of this Treaty.

5. This Treaty shall apply to the Contracting Parties with a derogation as defined in Article 139(1) of the Treaty on the Functioning of the European Union, or with an exemption as defined in Protocol No 16 on certain provisions related to Denmark annexed to the European Union Treaties, which have ratified it, as from the day when the decision abrogating that derogation or exemption takes effect, unless the Contracting Party concerned declares its intention to be bound at an earlier date by all or part of the provisions in Titles III and IV of this Treaty.

 

Article 15

This Treaty shall be open to accession by Member States of the European Union other than the Contracting Parties. Accession shall be effective upon the deposit of the instruments of accession with the Depositary, who shall notify the other Contracting Parties thereof.

 

Article 16

Within five years at most following the entry into force of this Treaty, on the basis of an assessment of the experience with its implementation, the necessary steps shall be taken, in compliance with the provisions of the Treaty on the European Union and the Treaty on the Functioning of the European Union, with the aim of incorporating the substance of this Treaty into the legal framework of the European Union.


Done at Brussels on the … of … in the year two thousand and twelve in a single original whose Bulgarian, Danish, Dutch, English, Estonian, Finnish, French, German, Greek, Hungarian, Irish, Italian, Latvian, Lithuanian, Maltese, Polish, Portuguese, Romanian, Slovak, Slovenian, Spanish and Swedish texts are equally authentic, which shall be deposited in the archives of the Depositary which will transmit a certified copy to each of the Contracting Parties.

Joao Pedro Dias às 23:10 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Domingo, 29.01.12

Saudades desta União Europeia

Joao Pedro Dias às 02:55 | link do post | comentar | partilhar
Sábado, 28.01.12

Grécia cede soberania orçamental à UE?

O Financial Times (link indisponível, só para assinantes) dá notícia de que o segundo plano de resgate financeiro à Grécia, acordado na Cimeira do Conselho Europeu do passado dia 9 de Dezembro, só se concretizará, por pressão alemã, se a Grécia abdicar da sua soberania orçamental e confiar nas mãos de um delegado das organizações internacionais responsáveis pelo segundo empréstimo de 130MM€ as principais decisões atinentes à sua política orçamental. A TSF tem a gentileza de me pedir um comentário à notícia que surge e o primeiro pensamento que me ocorre é o de que, para os Estados resgatados ou intervencionados, falar-se já hoje de «soberania orçamental» é um absoluto eufemismo. Os Estados que foram alvo de resgate internacional já perderam a sua soberania orçamental e esta já transitou dos representantes dos eleitores para os credores. E não é só na Grécia que isto que se passa.... Por outro lado, mesmo sem resgates financeiros internacionais, convém recordar que os semestres europeus já limitam de forma significativa a capacidade e autonomia dos Estados - e dos seus Parlamentos nacionais - em matéria orçamental. Não é, pois, de matéria virgem que estamos a falar; pode variar o grau da limitação, não muda a natureza da mesma. A confirmar-se a notícia avançada, porém, há outra ilacção que não pode deixar de ser tirada - a estratégia que tem estado a ser seguida para a Grécia estará muito longe de produzir os resultados desejados. Daí que novo empréstimo tenha de obedecer a novas regras e a novos princípios. Resta saber da viabilidade de tais princípios serem, efectivamente aplicados. Creio serem legítimas algumas dúvidas nessa matéria. Na crise actual, que surgiu na periferia e se vem estendendo para o centro da Europa, nenhum Estado-Membro da União se poderá dizer, verdadeiramente, a salvo dos seus efeitos. Daí que talvez se venha a registar alguma prudência na imposição destas limitações orçamentais. É que o que hoje diz respeito aos meus vizinhos, amanhã poder-me-á tocar a mim.... Para memória futura, podem ser escutados aqui excertos as declarações proferidas.

Joao Pedro Dias às 13:23 | link do post | comentar | partilhar
Quinta-feira, 26.01.12

Numa Europa com traços esquizofrénicos, há opiniões para todos os gostos: «"Esqueçam a Grécia. É Portugal que vai destruir o euro"»

"Um "default" é acidente. Dois já é uma crise sistémica. Quem o diz é Matthew Lynn, presidente executivo da Strategy Economics, sublinhando que Portugal voltará a ter um importante papel no palco mundial. Mas pela negativa. Ao Negócios, diz que o incumprimento português é inevitável. "É apenas uma questão de tempo".

 

Matthew Lynn, CEO da consultora britânica Strategy Economics , traça um cenário sombrio para a Zona Euro.E dizque Portugal será o responsável pela queda do euro.

 

No seu mais recente artigo de opinião, publicado na "Market Watch", na sua coluna intitulada "London Eye", Lynn começa por relembrar a importância do País para a história mundial, com a assinatura do Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo não europeu entre Espanhae Portugalem 1494. E salienta que 2012 pode ser o ano em que Portugal volta ao centro do palco mundial. Como? “Fazendo o euro ir ao ar”, responde.

 

“A Grécia já estoirou – e o seu incumprimento está já descontado pelo mercado. Mas Portugal está precisamente na mesma posição (…). Está também a resvalar para um inevitável ‘default’ das suas dívidas – e quando isso acontecer, vai ter um efeito devastador para a moeda única e infligir danos ao sistema bancário europeu, que poderão revelar-se catastróficos”, escreve Lynn, autor de dois livros de economia: "The Billion-Dollar Battle: Merck v. Glaxo and Birds of Prey: Boeing v.Airbus" e Bust: Greece, the Euro and the Sovereign Debt Crisis.

 

O analista e consultor britânico compara a situação de Atenas e de Lisboa, destacando que “Portugal - um dos países mais pobres da União Europeia, com um PIB per capita de apenas 21.000 dólares, significativamente abaixo dos 26.000 dólares da Grécia – fixou metas de redução do seu défice de 4,5% em 2012 e de 3% em 2013”.

 

“Então e como está a sair-se?”, questiona-se. E responde: “Quase tão bem como a Grécia – ou seja, nada bem. Prevê-se que a economia grega registe uma contracção de 6% este ano e Portugalnão fica muito atrás – o Citigroup estima que a economia ‘encolha’ 5,7% em 2012 e mais 3% em 2013”.

 

Matthew Lynn recorda o estudo da Universidade do Porto, divulgado na semana passada, que diz que a economia paralela aumentou 2,5% no ano passado e que representa agora cerca de 25% da actividade económica em Portugal. “E não há qualquer expectativa de que isso vá mudar em breve. As empresas portuguesas simplesmente não conseguem sobreviver a pagar as taxas de imposto que lhes foram impostas”, refere o especialista.

 

“O resultado qual será?”, pergunta. E volta a responder: “Os objectivos de redução do défice não vão ser cumpridos. No início deste mês, o governo reviu em alta a previsão do défice, de 4,5% para 5,9% do PIB este ano. Se a experiência grega for válida, esta meta continuará a ser revista em alta. A economia encolhe, cada vez mais pessoas transitarão para a economia subterrânea para sobreviverem e o défice continuará a crescer”.

 

“Em resposta, a União Europeia exige mais e mais austeridade – o que significa, muito simplesmente, que a economia continuará a contrair-se ainda mais. É um círculo vicioso. Se alguém souber como sair dele, então está a guardar o segredo para si próprio”, comenta Lynn.

 

Juros da dívida a escalarem

 

O comentador da "Market Watch" recorda o corte do “rating” da dívida soberana de longo prazo de Portugal, para nível de “lixo”, por parte da Standard & Poor’s. Das três principais agências, só faltava a S&P para a dívida pública de Portugal ser colocada na categoria “especulativa” – ou seja, não é considerada “digna” de investimento, atendendo aos riscos que os investidores correm de não serem reembolsados.

 

Segundo Matthew Lynn, haverá mais “downgrades”. “Os juros da dívida estão a disparar. Na semana passada, as ‘yields’ das obrigações a 10 anos superaram os 14%. E deverão subir ainda mais”, prognostica. O analista relembra que a maturidade a 10 anos da dívida soberana grega já está com juros de 33%e dizque “não há qualquer razão para as ‘yields’ da República Portuguesa não atingirem os mesmos níveis”.

 

“E isso é importante”, sublinha. Isto porque, adianta, a crise grega poderia até ser vista como um caso especial. “Mas não a de Portugal. Não houve ‘manipulação’ nos números [Portugal] não registou défices excessivos – com efeito, quando caminhávamos para a crise de 2008, o País apresentava défices de menos de 3% do PIB, bem dentro das regras impostas pela Zona Euro. Não era irresponsável. O problema, muito simplesmente, é que Portugal não conseguiu competir no seio de uma moeda única com economias muito mais fortes. Agora, o País está a mergulhar numa depressão em toda a escala – tão má como o que se testemunhou nos anos 30 [Grande Depressão] – devido à união monetária”.

 

“Vai ser tão grave como na Grécia. E talvez até pior”, vaticina.

 

Lynn refere igualmente que os bancos europeus estão mais expostosa Portugaldo que à Grécia. “No total, os bancos têm uma exposição de 244 mil milhões de dólaresa Portugal, contra 204 mil milhões de dívida grega”, segundo os dados do Banco de Pagamentos Internacionais citados pelo antigo colunista da Bloomberg News e responsável pela “newsletter” da área financeira desta agência.

 

“O grosso da dívida portuguesa é detido pela Alemanha e pela França. Mas estes são os dados oficiais. É bem provável que grande parte da dívida privada, que é mais substancial do que a dívida pública, seja detida por bancos espanhóis. E estes já estão frágeis. Conseguirão assumir as perdas? Talvez, mas não apostaria a minha última garrafa de vinho do Porto nisso”, comenta Matthew Lynn.

 

Em seguida, diz o ex-colunista da Bloomberg, esta situação também irá repercutir-se na moeda única. “Se um país entrar em incumprimento, dentro de uma união monetária, isso pode ser visto como um acidente infeliz. Todas as famílias têm uma ovelha negra. Mas quando um segundo país cai, o caso fica muito mais sério. A ideia de que isto é culpa de alguns governos irresponsáveis vai deixar de ser sustentável. A explicação alternativa – a de que o euro é uma moeda disfuncional – vai ganhar mais peso”.

 

Segundo Lynn, “um incumprimento da dívida soberana por parte de Portugal desencadeará uma retirada da Zona Euro – e neste momento, parece que esse poderá ser o motor que desencadeará o colapso do sistema”. “Foram cinco séculos de espera. Mas agora Portugal poderá estar prestes a desempenhar de novo um papel central na economia global”, conclui o especialista da área financeira.

 

"É apenas uma questão de tempo"

 

Ao Negócios, Matthew Lynn reafirmou o que diz no seu artigo de opinião. Questionado sobre se há alguma possibilidade de Portugal não entrar em incumprimento, responde que não. “Penso que é inevitável um ‘default’ de Portugal, caso se mantenha no euro. Quando uma economia está a encolher 5% ao ano, é impossível que a dívida fique sob controlo. Por isso, as dívidas vão ficando cada vez maiores”.

 

“A única coisa que poderia evitar o incumprimento seria uma ampla ajuda financeira por parte do resto da Zona Euro. Isso estabilizaria a dívida e daria à economia uma hipótese de crescer. Mas isso não vai acontecer – por isso, o ‘default’ é a única opção. É apenas uma questão de tempo”, disse ao Negócios." [Fonte]

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Quarta-feira, 25.01.12

Como? Importa-se de repetir? - «Merkel quer mais Europa no futuro»

"A chanceler alemã apelou a que os Estados-membros da União Europeia (UE) cedam mais competências a Bruxelas para que se criem os mecanismos políticos adequados para a organização gerir a moeda única. «A questão precisa de ser: atrevemo-nos a mais Europa?», questionou Merkel no discurso de abertura do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, que vai reunir centenas de grandes nomes mundiais para cinco dias de debates. A chanceler alemã afirmou que faltam à União Europeia «estruturas políticas» para fazer com que a moeda única avance de forma positiva, sem concretizar o que queria dizer, segundo citação da Associated Press. Merkel acrescentou, ainda, que a Alemanha não vai prometer aquilo que não pode cumprir: «Dissemos desde o começo que queremos lutar pelo euro, mas o que não queremos é uma situação em que sejamos forçados a prometer algo que não seremos capazes de cumprir». A chanceler alemã, Angela Merkel, disse em entrevista publicada hoje por seis jornais europeus que a sua visão para o futuro da União Europeia passa por uma união política. «A minha visão é a União Política, porque a Europa tem de seguir o seu caminho próprio e exclusivo. Temos de nos aproximar passo a passo, em todos os âmbitos políticos. Porque o certo é que cada vez percebemos com maior nitidez que cada tema do vizinho nos diz respeito. A Europa é política interna», afirmou a dirigente alemã em resposta a uma questão sobre os Estados Unidos da Europa." [Fonte]

Estas declarações feitas no Fórum de Davos soam bem, ficam bem e enquandram-se com o ambiente geral. É pena, porém, que nas cimeiras bilaterais com Sarkozy ou nas cimeiras do Conselho Europeu, Merkel não pratique tanto os princípios que enunciou em Davos. Não lhe têm faltado oportunidades para contribuir para uma verdadeira política externa alemã de feição europeia; tem optado, por regra, quase sempre, por uma política europeia germanizada. Parece a mesma coisa, mas não é. E faz toda a diferença.
Joao Pedro Dias às 20:49 | link do post | comentar | partilhar

Fórum Económico Mundial de Davos

 

Começou hoje em Davos, na Suíça, mais uma edição do Fórum Económico Mundial, o encontro anual da elite política e económica global. "A Europa vai estar no centro do palco", anota o The Times. que considera que "em economia, não há questão mais premente e importante do que encontrar uma solução duradoura para a crise do euro". Esta é uma das novas sedes do poder político-económico de facto que gere e disciplina a sociedade internacional dos nossos dias. É da praxe e da ordem que cada época histórica concreta tenha a sua instituição ou entidade de referência, onde verdadeiramente se situa a sede do poder mundial. Entre as duas guerras foi a Sociedade das Nações que pretendeu desempenhar a função, só fracassando, entre outrasa razões, por os EUA a ela nunca terem aderido; após a segunda guerra mundial foi a Organização das Nações Unidas - o lugar, como repete Adriano Moreira, onde todos se encontram com todos - que desempenhou essa tarefa; após a queda do mudo de Berlim e o fim da guerra-fria e na sociedade internacional caracterizada pela desordem madura que nos é dado conhecer, com a crise do Estado soberano que também já é a crise do Estado nacional, a emergência dos novos poderes que ninguém elegeu, sufragou ou controla, e onde a democracia é conceito em vias de extinção, é em instituições como o G-20 ou este Fórum Económico Mundial que reúne anualmente em Davos, que está sedeado o verdadeiro poder económico e político do mundo. É lá que os líderes europeus que contam se encontram, que prestam contas do que fazem e do que não fazem, consertam e acertam estratégias, firmam dependências e assinam lealdades e ouvem os conselhos dos peritos em voga. Mas não é por isso que a sua legitimação se consuma ou a democraticidade se impõe.

Joao Pedro Dias às 10:11 | link do post | comentar | partilhar
Segunda-feira, 23.01.12

Habemus pactum

É-nos dito que, ao final da noite, o ECOFIN - a reunião dos Ministros das Finanças dos 27 Estados-Membros da União - concluiu o processo negocial de elaboração do tratado intergovernamental que, na Cimeira de Dezembro passado, foi decidido elaborar, à margem das instituições comunitárias, entre 26 dos 27 Estados da União. Parece, pois, que temos Tratado. Resta saber se ficou tudo tratado....

Joao Pedro Dias às 23:57 | link do post | comentar | partilhar
Domingo, 22.01.12

Croácia aprova adesão à União Europeia

Declarações prestadas hoje à TSF sobre o resultado do referendo realizado na Croácia a propósito da adesão à União Europeia, quando se encontram contados a maior parte dos votos dos cidadãos croatas. Como era de esperar, os resultados vieram confirmar na íntegra o que havíamos previsto anteriormente, aqui, e que resultava da generalidade dos estudos de opinião que se vinham conhecendo. Para memória futura, as declarações prestadas podem ser escutadas aqui.

Joao Pedro Dias às 22:49 | link do post | comentar | partilhar

Croácia referenda hoje adesão à União Europeia

 

 

Croácia vai referendar, hoje, a sua adesão à União Europeia. Se se confirmarem as previsões das sondagens, a esmagadora maioria dos croatas dará o seu «sim» à adesão. Escrevi uma vez e apetece-me repeti-lo hoje: esta União Europeia continua a assentar sobre povos de segunda e povos de primeira. Os primeiros são a imensa maioria, a quem não foi pedida qualquer opinião sobre a sua adesão à União; os segundos, os povos de primeira, são aqueles que usam a sua cidadania plenamente e a quem lhes é dado pronunciar-se sobre se querem, ou não, aderir à União. A Croácia ainda não faz parte da UE; pode vir a fazê-lo a partir de 2013. Mas ainda não estando cá dentro, já dá lições de democracia a muitos dos que cá estão desde o seu início. Saúde-se o facto, porque é digno de registo. E assinale-se, já agora, um paradoxo: pese embora atravesse a principal crise da sua existência, a UE continua a desempenhar uma imensa atractibilidade junto dos Estados que ainda não a integram. Apesar da crise. Apesar dos políticos e das lideranças que temos. E são estes pequenos nadas que ainda nos vão dando esperanças e fazendo acreditar no projecto europeu.

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Joao Pedro Dias às 00:32 | link do post | comentar | partilhar
Sábado, 21.01.12

Cem mil pessoas desfilam em Budapeste para apoiar o governo contra críticas da UE

"Milhares de pessoas manifestaram-se este sábado em Budapeste para apoiar a política do governo conservador do primeiro-ministro húngaro que tem sido fortemente criticado pela União Europeia devido a artigos da Constituição que contrariam legislação comunitária. De acordo com a agência Associated Press, cerca de cem mil pessoas participaram na chamada «Marcha da Paz», convocada por jornalistas e personalidades da direita. Os manifestantes transportavam velas, tochas e bandeiras húngaras, bem como cartazes em que se lia «Acreditamos no governo», «Viva Viktor Orban» e «Esta é uma democracia», numa alusão a críticas feitas nas últimas semanas pela União Europeia sobre leis que, na opinião de Bruxelas, limitam a democracia naquele país. Os organizadores defenderam que «as informações enganadoras e tendenciosas publicadas a nível internacional criaram um ambiente que pinta o país de uma forma injusta e que causa cada vez mais prejuízos à economia nacional». Apesar de a concentração se destinar a apoiar a política do governo, esta iniciativa não contou com a participação oficial do partido no governo, Fidesz. Os organizadores pediram que, no final da marcha, o primeiro-ministro falasse, mas Viktor Orban decidiu não participar. A Comissão Europeia decidiu esta semana abrir um procedimento de infracção contra a Hungria em resultado da entrada em vigor da nova Constituição do país, dotada de artigos que entram em conflito com a legislação comunitária. Em causa estão, para Bruxelas, a independência do banco central do país, do seu sistema judicial e a protecção de dados nacionais. O governo húngaro, que procura assistência financeira da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI), já garantiu entretanto que as disposições controversas da nova Constituição do país serão alteradas. A Comissão Europeia condicionou esse empréstimo, que poderia ascender a 20 mil milhões de euros, com a alteração das leis que aumentam a influência do governo sobre o sistema judicial e o banco central húngaro".[Fonte]
Joao Pedro Dias às 23:51 | link do post | comentar | partilhar
Sexta-feira, 20.01.12

A locomotiva chinesa

Pequim anunciou que a economia chinesa diminuiu em 2011, contando “apenas” com 9,2% de crescimento (face aos 10,4% de 2010). Entre as causas desse abrandamento está a redução das exportações para a zona euro. [Fonte]

Joao Pedro Dias às 01:20 | link do post | comentar | partilhar
Quinta-feira, 19.01.12

Novo projecto de Tratado: países só receberão ajudas da UE se ratificarem o pacto orçamental

"Só um país que ratifique o pacto intergovernamental poderá receber um plano de assistência suportado pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira (MEEF), o instrumento que vai substituir de forma permanente o actual fundo de socorro do euro. Esta regra consta de um novo projecto do tratado que será negociado na segunda-feira entre os ministros das Finanças da zona euro. A ajuda no quadro desse mecanismo, que deverá entrar em vigor em Julho, para substituir de forma permanente o actual Fundo Europeu de Estabilização Financeira, será condicionada à ratificação do tratado. Segundo a agência AFP, que cita o documento parcialmente, este será o mais recente projecto de texto posto à discussão dos responsáveis políticos. Ligando a ratificação do pacto orçamental para o reforço da governação económica dos países do euro (e aberto aos restantes membros da União Europeia) ao acesso aos programas de assistência permitidos pelo MEEF, a zona euro condiciona a eventualidade de um país pedir uma intervenção externa a regras orçamentais mais apertadas. Se este princípio for concretizado no acordo final, só depois de ratificar o pacto orçamental, o que implica incluir na legislação nacional uma regra de ouro que garante o equilíbrio orçamental um país em dificuldades e, por iniciativa própria, poderá negociar um empréstimo com Bruxelas. Esta cláusula de condicionalidade entraria em vigor a partir de Março de 2013. A inscrição da regra de ouro nas Constituições deixou de ser obrigatória numa segunda versão do texto. A definição do equilíbrio orçamental com um défice estrutural de 0,5% do PIB (que não contabiliza os efeitos da conjuntura económica nem medidas extraordinárias) passa a constar, não necessariamente nas Constituições, mas na legislação nacional, através de disposições vinculativas. Isto, apesar de no texto se referir que essa regra deva ser de natureza de preferência constitucional. O novo texto prevê ainda que o Tribunal de Justiça da União Europeia possa impor sanções financeiras que podem atingir 0,1% do PIB de um país. A decisão de criar um pacto intergovernamental foi tomada na última cimeira europeia, a 8 e 9 de Dezembro, e a expectativa da Alemanha e da França é de que o texto possa ser assinado a 1 de Março. A conclusão do acordo, esperam os líderes europeus, deverá acontecer no próximo Conselho Europeu de 30 de Janeiro." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 22:27 | link do post | comentar | partilhar

Joseph Stiglitz: "a queda da Grécia não significa Portugal fora do euro"

Disse que as medidas de austeridade não são uma solução. O que pode então ser feito? É preciso ir além da austeridade. Obviamente, para Portugal, uma vez que o acesso aos mercados financeiros está restringido, não há muita escolha para além de algum grau de austeridade. A minha esperança é que a Europa reconheça isto e traga para a discussão formas mais variadas de assistência que permitiriam a Portugal e aos outros países em dificuldade crescerem mais, porque o facto básico é que a austeridade, só por si, vai trazer a recessão. E vimos isso em todos os países: Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha, e agora no Reino Unido. É um histórico de 100 %. Portanto sabemos que mais austeridade significa mais declínio. A principal esperança é a de maior assistência europeia. E há várias coisas que a Europa pode fazer, mesmo dentro do actual quadro institucional: o banco europeu de investimento pode investir mais em Portugal. E há outros fundos aos quais Portugal pode aceder para garantir que as PMEs têm acesso ao crédito, de forma a evitar o problema que aconteceu na Grécia em que os pequenos negócios estão a falir.

 

Acha que a resposta do Banco Central Europeu tem sido suficientemente forte? O Banco Central Europeu, quase relutantemente, tem comprado obrigações de vários países. Se não fosse isso, as coisas seriam ainda piores. Mas é claro que a intervenção tem sido limitada, não tem baixado as taxas de juro para um nível que seja gerível no longo prazo. Ainda por cima, de cada vez que compram dívida, prometem que não vão fazer muito mais, e isso não dá confiança aos mercados acerca do valor das obrigações daqui a 3 ou 6 meses ou a 3 anos.

 

Em resumo, acha que a resposta europeia tem sido forte? Não usaria a palavra «forte». Foi uma resposta mal conduzida. O acordo que foi feito em Dezembro focou-se apenas na austeridade. Dizia apenas que os países não poderiam ter défices. A impressão que dá é que tentaram prevenir a próxima crise sem resolver esta. Mas nem sequer conseguem prevenir a próxima! Basta ver que antes desta crise a Irlanda e a Espanha tinham saldos orçamentais positivos. Portanto, o diagnóstico que fizeram da crise, e a solução que desenharam para a combater... estão ambos errados.

 

Acha que o Euro vai sobreviver a esta crise? Antevê o cenário de países serem forçados a abandonar a moeda única? Há poucos anos era inconcebível que o Euro se pudesse desintegrar. Agora, não é só concebível, como os economistas começam a pensar qual a melhor forma de o fazer. É uma questão política. Quando o Euro começou, acho que foi um projecto incompleto. Anularam as taxas de câmbio e os mecanismos das taxas de juro e não os substituíram por nada. A esperança era que nos anos seguintes se avançasse com desenvolvimentos institucionais, mas isso não aconteceu. O que não surpreende. Quando as coisas vão bem, as pessoas não têm muita vontade de fazer coisas, e depois, quando a crise acontece, também é difícil fazer seja o que for. Quando a crise rebentou em Janeiro de 2010, eu tive esperança que as pessoas olhassem para a história e decidissem terminar o projecto. Mas não foi isso o que aconteceu. Fizeram muito pouco e tarde demais, e o padrão continua a ser esse. Mas o que me preocupa mais nem é a questão de ser uma reacção curta e tardia. É o remédio que está errado. É um remédio que provavelmente vai piorar a saúde do doente. É o remédio errado não apenas porque não resolve o problema, como ainda vai provavelmente agravá-lo.

 

Se a Grécia ser forçada a abandonar o Euro, esse facto pode levar a que aconteça o mesmo a Portugal? Acho que cada país vai ser sui generis. Vai depender das circunstâncias em cada um dos países. Acho que há um risco considerável de os mercados entrarem em pânico e as taxas de juro aumentarem. Portugal está numa posição relativamente boa porque é relativamente pequeno. Se a Europa disser «ok, é um país a menos, vamos avançar», poderá financiar as necessidades de Portugal. O verdadeiro problema é a Itália, porque se as taxas de juro para a Itália dispararem (e a Itália tem enormes necessidades de financiamento), isso vai colocar um desafio. O Banco Central Europeu vai providenciar o financiamento? A Europa, a Alemanha, vão apoiar o BCE? Acho que estas são decisões políticas nas quais os líderes, neste momento, não querem sequer pensar.

 

Como olha para o papel das agências de rating na crise? Há poucos dias a Standard & Poors desvalorizou a classificação de 9 países europeus. Qual é a sua opinião acerca destes downgrades? As agências de rating têm um cadastro terrível, e acho notável que as pessoas ainda lhes prestem tanta atenção. Deram notações máximas aos subprimes, que eram produtos péssimos. Uma interpretação que existe agora é a de que estão a tentar recuperar a reputação, em particular porque como ganham dinheiro a vender os ratings a companhias privadas, o que querem fazer é dizer aos mercados «vejam como somos duros para com a Europa», para conseguirem dinheiro de companhias americanas por lhes darem um bom rating. Dito isto, o facto é que uma das preocupações da Standard & Poors mostrou é uma preocupação genuína. O que as agências notaram é aquilo que eu tenho dito: que a austeridade vai provavelmente comprometer o crescimento, e trazer a recessão à Europa, e as economias em recessão têm mais dificuldade em fazer face ao pagamento das dívidas. E por isso, eles limitaram-se a registar o óbvio. E alguns líderes políticos europeus não querem enfrentar o óbvio. Mas o que é interessante é notar quantos líderes europeus reconhecem isto. Mário Monti falou nisto, e até Sarkozy, quando não está a levar pancada das agências de rating, fala nisto. Disse que a austeridade não é a resposta, mas as agências colocam-no numa posição difícil.

 

Ainda assim, o downgrade chegou numa altura em que as coisas não estavam a correr assim tao mal na Europa. As últimas colocações de dívida correram bem. Há cada vez mais vozes a dizer que esta atitude das agências de rating é política, mais do que uma visão puramente financeira acerca da capacidade dos países serem capazes de pagarem as dívidas. Concorda com esta análise? Acho que a principal questão económica na análise da Standard & Poors é o facto destes pacotes de austeridade coordenados irem muito provavelmente levar a uma recessão muito séria, e que isso coloca em causa a capacidade de pagar a dívida. O trabalho de uma agência de rating - quando estão a fazer o que devem, o que nem sempre acontece - não é dizer como as coisas estão hoje, mas de como vão estar amanhã. Não precisamos de uma agência de rating para dizer, por exemplo, no dia a seguir ao Irão ir à bancarrota, «olhem, o Irão foi à bancarrota». Queremos que eles nos digam, com dois anos de antecedência à bancarrota do Irão, que isso vai acontecer». E na maior parte dos casos as agências não fizeram um bom trabalho. Mas o que eles estão a tentar fazer é dizer «o nosso trabalho é fazer uma previsão», e a previsão, como diz a maior parte dos economistas, é a de que esta austeridade vai levar a um arrefecimento económico.

 

No mundo ocidental, nas últimas décadas, tentámos construir sociedades do bem-estar. Acha que os acontecimentos financeiros dos últimos anos podem minar esse conceito? Hoje procuramos atingir limites ao défice e crescimento dos PIBs. Mas isso nem sempre significa que os cidadãos terão vidas melhores... ou significa? Isso é algo que me preocupa muito. Pimeiro deixe-me dizer que não tem de ser assim. Mas há um risco real de à medida que os países ficam absorvidos com os problemas dos orçamentos, as pessoas com as vozes mais fracas, os pobres, os cidadãos normais, vão ser aqueles que sofrem mais. Os rendimentos são cortados, a educação pública é cortada, e o resultado disso é que as sociedades coesas que muitos países europeus tentaram criar vão ser minadas. Quero sublinhar que isso será contra-producente. Os economistas acreditam cada vez mais que uma das principais causas desta crise foi o enorme aumento da desigualdade. Uma desigualdade que já não víamos desde os anos vinte, antes da grande depressão. Há uma ligação clara, e a comissão norte-americana em que participei sublinhou esse facto. Portanto, se insistirmos em políticas que aumentam ainda mais a desigualdade, isso vai debilitar a capacidade de recuperação. Vai ser contra-producente, no sentido estrito do objectivo de promover a recuperação económica, e ainda mais no objectivo mais amplo de tentar responder à questão: «que tipo de sociedade queremos criar?» E tudo isto está relacionado com o conflito entre os fins e os meios para os atingir, e está também relacionado com outro tema muito discutido: a globalização. Era suposto que a globalização trouxesse uma série de benefícios. E agora ouvimos que para responder à globalização, os rendimentos têm de ser cortados, os apoios sociais têm de ser cortados... e temos de perguntar: como é que a globalização pode ser vista como uma coisa boa quando a vida de tantos cidadãos está a piorar por causa dela? E a resposta, claro, é que temos de gerir a economia de mercado, temos de gerir a globalização... e se o fizermos bem... e acho que isso é possível... então teremos as vantagens que nos prometeram. Mas infelizmente isso tem sido feito de uma maneira que tem deixado muitas pessoas (nos estados unidos são mesmo a maioria dos cidadãos) pior do que estavam. [Fonte]

Joao Pedro Dias às 21:08 | link do post | comentar | partilhar
Quarta-feira, 18.01.12

O fim do mito da igualdade

 

"Os acontecimentos das últimas três semanas fizeram cair definitivamente a hipocrisia da União Europeia, que consiste em fazer acreditar que os Estados que a constituem são iguais, apesar de diferentes. Primeiro, a zona euro decidiu encontrar-se, deliberar e tomar decisões em comité restrito. Sem os outros e, por isso, sem nós [os polacos]. Isto prejudica e limita tanto o papel da Comissão Europeia, que desde a sua criação se apoia no princípio da igualdade entre os Estados, como o do Parlamento Europeu, cujos lugares são distribuídos entre os países-membros proporcionalmente às suas populações. Se o pacto europeu de estabilidade for adotado na sua atual forma, criar-se-á uma união dentro da União. Para um grande número de questões, esta união restrita ditará as condições aos outros, como hoje faz “Merkozy”.

Os 26 nada podem contra os alemães

Segundo, a decisão de baixar as notações financeiras de nove países da zona euro não terá, necessariamente, repercussões sobre o custo da dívida desses países (a descida de notação dos Estados Unidos não tem nenhuma influência desse género; quanto à dívida de Itália, é hoje mais barata do que quando o país tinha melhor notação). Essa descida influenciará, no entanto, a hierarquia informal entre os Estados-membros e o peso da voz de cada um deles dentro da União. Assim, a liderança da Alemanha, que manteve a sua classificação, é absolutamente confortável. Tal como o é a prudente política alemã de austeridade. A Alemanha, provavelmente, poderá contrair empréstimos com juros ainda mais baixos e estimular ainda mais o mercado, cavando mais ainda o fosso económico que a separa do resto da Europa. Consequentemente, os tratados quantitativos do tratado de Lisboa (o cálculo da maioria qualificada no seio do Conselho Europeu sobre um duplo critério: o número de Estados e o peso demográfico) perderão importância perante o papel crescente dos critérios qualitativos (qualidade do Estado e da economia). Vamos mesmo assistir ao declínio de “Merkozy”, desequilibrado pelo peso de uma Merkel demasiado poderosa em relação a Sarkozy. Será ainda mais difícil fazer seja o que for, na Europa, sem a Alemanha. Quanto aos restantes 26 outros países, nada podem contra os alemães (a não ser acabarem com a União).

As diferenças institucionalizadas

O processo de decisão e de repartição de vozes no Parlamento Europeu, na Comissão e no Conselho, tão laboriosamente negociados no tratado de Lisboa, desfazem-se em pedaços. Durante algum tempo, a União será como o futebol na época em que todos jogavam, mas só a Alemanha ganhava. Terceiro, o endurecimento da retórica e das decisões políticas em relação à Hungria demonstra que na União há alguns países que podem permitir-se fazer mais coisas do que outros. É verdade que Orbán tem uma retórica detestável e uma política económica estúpida. Mas, institucionalmente, não fez nada que não fosse tolerado noutros países. O seu assalto aos media não é mais antiliberal do que o que Sarkozy fez com a televisão pública francesa e, antes dele, Berlusconi com os media italianos. Quanto à BBC, desde sempre que a nomeação de quem a dirige depende diretamente do Governo. Do mesmo modo, o banco central húngaro está tão dependente do Governo como o Banco de Inglaterra ou a Fed norte-americana. A comunidade internacional tolerou tranquilamente e continua a tolerar situações semelhantes em França, em Itália, em Inglaterra, nos Estados Unidos, não porque tenham passado despercebidas, nem sequer pela sua timidez perante as grandes potências, mas simplesmente porque não vê nelas nada de repreensível. As grandes e antigas democracias, tal como os títulos de dívida alemães, têm um capital de confiança que tem faltado às jovens e pequenas democracias. Em certa medida, as diferenças sempre existiram e sempre pesaram. Mas, atualmente, exprimimo-las abertamente e não hesitamos em institucionaliza-las. Não sabemos quais serão, a longo prazo, as consequências de tudo isto para a Polónia e para a UE. Geralmente, a adaptação da forma (institucional) ao conteúdo (económico, por exemplo) tem como efeito racionalizar as instituições. Mas hoje, estamos a lidar com as emoções, ou seja com a política. As diferenças amplificadas emocional e politicamente, as diferenças divulgadas e institucionalizadas, tornam-se desconfortáveis para toda a gente. Muitos países aceitarão cada vez pior a posição da Alemanha dentro da União. A Alemanha, por seu lado, aceitará cada vez pior a manutenção dos esforços de solidariedade e de autorestrições. Isto significa que para além das tensões económicas e das políticas internas, são de esperar grandes tensões internacionais e problemas de decisão cada vez maiores. Pelo menos, até que uma nova lógica substitua a hipocrisia o mito fundador da União. Coisa que não se fará nem rápida nem facilmente". [Fonte]

Joao Pedro Dias às 02:09 | link do post | comentar | partilhar
Terça-feira, 17.01.12

Forte com os fracos e fraca com os fortes, a Comissão Europeia ordena à Hungria que mude leis polémicas

"A Comissão Europeia ordenou nesta terça-feira à Hungria que modifique as leis que põem em perigo a independência do Banco Central, dos seus juízes e da autoridade de protecção de dados, sob pena de se iniciar um processo na justiça europeia que deixará aquele país sem direito de voto, anunciou o presidente da Comissão, Durão Barroso. “Decidimos lançar os procedimentos de infracção contra a Hungria”, declarou Durão Barroso aos jornalistas em Estrasburgo, à margem da reunião do Parlamento Europeu que decorre em Estrasburgo. Esta é a primeira etapa de um processo que pode terminar no Tribunal de Justiça Europeu. “Não queremos que reste uma sombra de dúvida durante muito tempo sobre o respeito pela democracia naquele país”, explicou Barroso, citado pela AFP. O Governo liderado por Viktor Orbán tem um mês para executar as alterações – embora durante este mês o Parlamento húngaro esteja fechado para a pausa de Inverno. Na quarta-feira o primeiro-ministro húngaro deverá explicar-se perante o Parlamento Europeu em Estrasburgo. Este conflito com a União Europeia pode ter importantes repercussões para a Hungria, que precisa de um empréstimo de 15 a 20 mil milhões de euros urgentemente do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da EU. Mas a directora do FMI, Christine Lagarde, já deu a entender claramente que faz depender o início de negociações de o país dar “provas palpáveis” da vontade de modificar as leis que estão a causar desagrado internacional, por estarem a ser consideradas contrárias aos princípios democráticos." [Fonte]

 

Sejamos absolutamente claros: a Comissão Europeia tem toda a razão, neste diferendo com a Hungria, posto que a nova legislação aprovada em Budapeste tem aspectos de muito díficil compatibilização com as regras do Estado de direito democrático que devem estar subjacentes à pertença de qualquer Estado à União Europeia, desde a consagração dos célebres critérios de Copenhaga de 1993, estabelecidos na Cimeira do Conselho Europeu de Dezembro desse ano, e posteriormente ratificados e renovados em diferentes momentos e situações. A questão, aqui, é outra - a questão é que, nestes tempos conturbados que vivemos na Europa a que ainda se chama da União, não vimos nem escutámos Durão Barroso e os seus pares falarem igualmente tão de alto e tão assertivamente quando foram outros os Estados que incumpriram preceitos e normas dos Tratados e da boa prática institucional europeia; quando foram outros os Estados que passaram por cima das instituições europeias e apostaram na política do directório para a Europa; quando foram outros os Estados que violaram normas e princípios estruturantes do ordenamento jurídico comunitário, como a regra da igualdade jurídica entre os Estados ou o princípio da solidariedade entre eles. Ou seja - perante os fracos e os pequenos, a Comissão Europeia de Barroso «ousou» ser forte e falar alto; ameaçar com processos e intervenção do Tribunal de Justiça. Perante os grandes e os fortes, acomodou-se, conformou-se, saiu de cena, rastejou.... Não é isso o que se espera duma Comissão Europeia. Para não destoar do ambiente geral por que passa esta União, também esta Comissão Europeia parece que se vê esgotar muito rapidamente o seu prazo de validade.

Joao Pedro Dias às 17:53 | link do post | comentar | partilhar
Segunda-feira, 16.01.12

Futuro presidente do Parlamento Europeu critica prepotência de Merkel

"O novo presidente do Parlamento Europeu, o socialista alemão Martin Schulz, que assume funções na quarta-feira, afirma que Angela Merkel «faria bem em não dar a impressão que dá ordens na União Europeia». Numa entrevista à agência Efe, Martin Schulz, eleito por acordo entre o Partido Popular e os Social-democratas europeus, diz «lamentar» que a chanceler alemã «dê a impressão de que ordena e manda». Schulz, que irá substituir como presidente do Parlamento Europeu o conservador polaco Jerzy Buzek, adianta que «o Governo alemão não dá explicações nem ao seu país nem a Bruxelas quando deveria dar a cara porque foi o país que mais beneficiou por estar na União Europeia». O socialista alemão culpabiliza a «cacofonia comunitária» para fazer frente à crise e «a impossibilidade dos Governos em colocarem-se de acordo apesar de cimeiras infinitas sem resultados».  Para o novo presidente do Parlamento Europeu, «se há divisão dentro da União Europeia é por culpa dos chefes de Estado e de Governo». Martin Schulz diz que um dos seus principais objetivos da sua nova função será «travar a renacionalização da política comunitária» enfatizada devido à crise e «reconquistar a confiança dos cidadãos europeus na Europa»." [Fonte]

 

O senhor Martin Schulz não é, propriamente, o modelo de eurodeputado que se possa erigir em paradigma de virtude e urbanidade. Durão Barroso, de resto, bem o pode atestar, quer por referência ao momento da sua eleição e da sua reeleição para liderar a Comissão Europeia, quer noutros momentos do debate político travado em Bruxelas ou Estrasburgo. As instituições da Europa da União, parece também não quererem fugir ou distinguir-se da mediania (quando não da mediocridade) daqueles que escolhem e elegem para as representarem. Deve ser para não se distinguirem da qualidade dos representantes nacionais com quem têm de lidar e dialogar. Nada melhor, em certas alturas, do que conversas niveladas, entre iguais - e, portanto, há que nivelaar (por baixo) a qualidade dos escolhidos. Adiante - não é esse o tema deste comentário. O tema desta nota é outro: é que apesar da sua falta de qualidade, desta vez, Schulz tem razão. A prepotência de Merkel é censurável e condenável. Ser Schulz a censurar e condenar essa prepotência é que raia um pouco o irónico e o absurdo. Sobretudo se nos lembrarmos de algumas das suas intervenções parlamentares. E nem será preciso ter memória muito desenvolvida.

Joao Pedro Dias às 14:55 | link do post | comentar | partilhar
Domingo, 15.01.12

Pensamento profundo

A chanceler alemã considerou, em entrevista à rádio Deutschlandfunk que será difundida este domingo, que a Grécia não conseguirá vencer a crise da dívida soberana com meios próprios. A profundidade dos argumentos e do pensamento desta senhora deixa-me verdadeiramente perplexo e sem palavras. Se, tomando a nuvem por Juno, isto representa a qualidade média das elites políticas que nos governam, estamos conversados...
Joao Pedro Dias às 03:04 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Sábado, 14.01.12

Hungria: Partido de extrema-direita quer referendo sobre presença na UE

"O partido de extrema-direita húngaro Jobbik defendeu, este sábado, que o país deve realizar um referendo sobre a presença na União Europeia, refere a agência AP. Gabor Vona, líder do partido, afirmou que a Hungria «tem que sair desta União», terminando o encontro com os membros queimando uma bandeira da União Europeia em palco. A União Europeia está a pressionar a Hungria com uma acção judicial por causa de uma série de novas leis - aprovada por maioria de dois terços do partido do primeiro-ministro Viktor Orban, Fidesz - visando ameaçar a independência do banco central do país, do seu sistema judicial e da protecção de dados nacionais. Gabor Vona disse, perante uma multidão de cerca de 3000 apoiantes, que o seu partido não concordava com as leis de Viktor Orban, Fidesz, e que a posição da União Europeia equivale a uma «declaração de guerra» contra a Hungria". [Fonte]
Joao Pedro Dias às 20:00 | link do post | comentar | partilhar

«Sexta-feira, 13 e negra»:

Traduzindo:

"Problemas nas previsões dos Maias"

"Tiraram-nos o nosso triplo C?"

[Fonte]

Joao Pedro Dias às 02:07 | link do post | comentar | partilhar
Sexta-feira, 13.01.12

Bruxelas lamenta decisão «inconsistente» da Standard & Poor's

"A Comissão Europeia lamentou a decisão da agência de notação de baixar o rating de nove países da Zona Euro, classificando-a de «inconsistente», e questiona o momento em que é feita. «Após verificar que desta feita não é acidental, lamento a decisão inconsistente tomada hoje pela Standard&Poor's relativamente ao rating de muitos Estados-membros da Zona Euro, numa altura em que a Zona Euro está a tomar acções decisivas em todas as frentes da sua resposta à crise», afirmou o comissário europeu dos Assuntos Económicos, Olli Rehn, em declaração divulgada em Bruxelas. De acordo com o comissário europeu, que por norma não comenta os cortes de rating, as iniciativas que têm vindo a ser tomadas são as apropriadas, pois conduzem à «necessária consolidação orçamental e reformas estruturais» nos Estados-membros, respondem às «fragilidades do sector bancário» e reforçam a governação económica. «As recentes decisões da UE, juntamente com a acção do Banco Central Europeu (BCE), têm sido fundamentais para aliviar as tensões nos mercados de obrigações soberanas», acrescentou. O comissário responsável pelos Assuntos Económicos finaliza sublinhando a importância de finalizar, «tão cedo quanto possível», o formato que terá o futuro mecanismo europeu de estabilização, que deverá entrar em vigor já em Julho de 2012, e que, segundo Rehn, graças ao seu capital próprio «irá ser menos vulnerável às alterações nos ratings dos seus Estados-membros». A agência de notação Standard&Poor's anunciou hoje o corte do rating da maioria dos países da Zona Euro, entre os quais a França, que perdeu a nota máxima, e Portugal, Espanha e Itália, que baixaram dois níveis. «Reduzimos os ratings de Chipre, Itália, Portugal e Espanha, em dois níveis, os de Áustria, França, Malta, Eslováquia e Eslovénia, em um nível, e mantemos os níveis da Bélgica, Estónia, Finlândia, Alemanha, Irlanda, Luxemburgo e Holanda», refere um comunicado da agência. Entre os países afectados pela decisão da S&P contam-se dois que tinham nota máxima, França e Áustria, que baixam um nível de AAA para AA+. No caso de Portugal, a descida foi de dois níveis, de BBB- para BB, um nível já considerado "lixo". [Fonte]
Joao Pedro Dias às 23:59 | link do post | comentar | partilhar

Standard & Poor's corta "rating" a nove países, França perde AAA e Portugal passa a “lixo”

A ameaça concretizou-se e abre um novo capítulo na composição dos ratings na zona euro: a agência Standard & Poor’s (S&P) fez nesta sexta-feira uma vaga de cortes que abrange nove países e retira à França e à Áustria a nota máxima de avaliação. Portugal passa a ter uma nota já considerada “lixo” financeiro. A Itália fica pela primeira vez abaixo do patamar A. O ratings de Portugal, Itália, Espanha e Chipre baixaram em dois níveis, enquanto os de França, da Áustria – que perdem o triplo A – e de mais três países (Eslováquia, Eslovénia e Malta) foram cortados em um nível. Portugal viu o seu rating descer em dois níveis, de BBB- para BB, ficando, assim, classificado por todas as três grandes agências de notação norte-americanas com o rating considerado nos mercados sem categoria de investimento. A confirmação foi dada oficialmente pela S&P ao início da noite, já depois de fechar a bolsa de Nova Iorque, e de a agência Reuters ter avançado a informação durante a tarde. A ameaça de cortar o rating à Alemanha, a maior potência da zona euro, e um dos seis países que até agora tinham a nota AAA, não se confirmou. Mas o grupo de países da zona euro avaliados com nota máxima fica reduzido a quatro: sem a França e a Áustria, restam a Alemanha, a Holanda, a Finlândia e o Luxemburgo com o triplo A. Todos tinham sido avisados, a 5 de Dezembro, que as suas dívidas estavam em processo de revisão. Nesta vaga de cortes, Itália passa de A para BBB+, Espanha de AA para A, o Chipre de BBB para BB+, França e Áustria de AAA para AA+, Eslováquia de A+ para A, Eslovénia de AA- para A+ e Malta de A para A-. A escala da S&P tem quatro grandes patamares de avaliação (de A a D), cada um dividido por níveis. Para a agência, o último Conselho Europeu não tomou uma posição forte para resolver a crise da dívida soberana e essa é um dos motivos principais elencados pela S&P para justificar estes cortes. As revisões em baixa são motivadas principalmente porque as decisões dos líderes – que em Dezembro acordaram avançar com um pacto para reforçar a disciplina orçamental – “podem ser insuficientes para enfrentar as pressões sistémicas actuais na zona euro”. O Governo português reagiu ao anúncio da S&P minutos depois, considerando a decisão infundada por baixar a nota de Portugal partindo de uma avaliação à zona euro e esquecendo as medidas de consolidação orçamental. “A S&P parece ter substituído a sua análise individualizada por país por uma análise sistémica baseada na área do euro, da qual decorrem avaliações que não reflectem adequadamente as realidades nacionais”, lê-se num comunicado do Ministério das Finanças. A S&P enumera alguns riscos a que a zona euro está exposta: o “aumento dos prémios de risco exigidos a um cada vez maior grupo de países da zona euro”, “o enfraquecimento das perspectivas de crescimento” e “a discussão pública e prolongada dos responsáveis políticos europeus acerca da melhor maneira de enfrentar os desafios”. As reacções políticas em França ouviram-se ainda antes de a S&P se pronunciar, logo que o ministro das Finanças, François Baroin, confirmou que o Governo fora notificado da decisão. O Governo francês já estava avisado para uma possível perda do triplo A. Mas a confirmação de que a segunda maior economia da moeda única deixa de estar classificada com a nota máxima traz inevitavelmente mais incertezas sobre o futuro da moeda única, com as implicações que esta decisão acarreta para o fundo de socorro do euro (que é financiado pelos países do euro). Para França, o corte traz ainda outro sabor amargo: o país estava avaliado com a nota AAA desde 1975; e para o Presidente Nicolas Sarkozy, a descida acontece num momento preciso – a 100 dias da eleição presidencial, segundo contabilizou a AFP. A Comissão Europeia reagiu com o comissário dos Assuntos Económicos e Financeiros, Olli Rehn, a falar numa “decisão aberrante” numa altura em que a Europa está a responder “de forma decisiva sobre todas as frentes para responder à crise”. Embora a Alemanha mantenha o seu triplo A, o ministro alemão das Finanças desvalorizou as decisões das agências de notação. Ainda antes de ser anunciada oficialmente qualquer decisão da S&P, Wolfgang Schäuble mostrava-se solidário com França e lembrava que o clima de incerteza quanto ao futuro da moeda única “não é uma novidade”. [Fonte]

Joao Pedro Dias às 23:55 | link do post | comentar | partilhar
Quinta-feira, 12.01.12

UE abandona obrigatoriedade da "regra de ouro" na Constituição

"A "regra de ouro" impondo orçamentos de Estado em equilíbrio deverá deixar de ser obrigatoriamente consagrada na Constituição, ou legislação equivalente, dos países do euro, segundo o novo projecto de Tratado que vai ser hoje negociado pelos representantes dos governos.nSegundo o novo texto, a "regra de ouro" deverá ser consagrada na legislação nacional através de disposições vinculativas e permanentes de natureza "de preferência constitucional", o que deixa a cada país a liberdade de decidir como proceder. Esta constitui uma das principais alterações aos projectos destinados a concretizar o acordo concluído na cimeira europeia de 8 e 9 de Dezembro passado relativo à elaboração de um novo Tratado intergovernamental de reforço da governação e convergência económica dos países do euro. Segundo a primeira versão apresentada aos governos, a obrigação do equilíbrio orçamental "deverá ser introduzida em disposições nacionais vinculativas de natureza constitucional ou equivalente". Esta obrigatoriedade suscitou reacções de resistência de vários países, sobretudo exteriores ao euro, que pretendem associar-se a um Tratado que visa sobretudo os membros da moeda única. A nova versão que vai ser hoje colocada à discussão de vinte e seis governos - o Reino Unido decidiu ficar de fora - avança disposições mais suaves: a regra de ouro deverá ser consagrada "na legislação nacional" dos países membros "no prazo de um ano a partir da entrada em vigor deste Tratado através de disposições de carácter vinculativo e permanente, de preferência constitucional, que garantam o seu respeito ao longo dos processos orçamentais nacionais". O texto mantém em contrapartida a anterior obrigação de criação de um "mecanismo de correcção" automática em caso de desvios do objectivo do equilíbrio orçamental ou da respectiva trajectória de ajustamento. A nova versão mantém igualmente a definição de equilíbrio orçamental como um défice estrutural – sem os efeitos da conjuntura económica nem medidas extraordinárias – de 0,5% do PIB.  Do mesmo modo, este valor só poderá ser “temporariamente” ultrapassado para ter em um "acontecimento inesperado fora do controle" do país em causa que tenha um impacto importante na sua posição orçamental, "ou em períodos de recessão económica severa" tal como definida no pacto de estabilidade e crescimento. Ou seja, uma contração do PIB de pelo menos 2%. Isto, desde que o desvio "não ponha em risco a sustentabilidade orçamental de médio prazo" desse país. O défice de 0,5% do PIB poderá igualmente ser temporariamente ultrapassado nos países com uma dívida pública inferior a 60% do PIB, o limiar definido nas regras de acesso ao euro. Ao contrário da anterior versão, no entanto, o novo texto precisa que o défice nestes casoss não poderá ultrapassar 1% do PIB. Por seu lado, os países com dívida superior a 60% do PIB ficarão obrigados a reduzir todos os anos um vigésimo da diferença face ao valor de referência. Esta medida, tal como a generalidade das disposições do novo Tratado, já estão previstas na legislação secundária europeia actualmente em vigor, seja no pacto de estabilidade e crescimento do euro (PEC), seja nas novas regras de disciplina orçamental que entraram em vigor em Dezembro." [Fonte]

 

Insisto, uma vez mais, no que me parece óbvio, apesar de demasiadamente técnico - consagrar na Constituição dos Estados limites ao endividamento dos mesmos e aos respectivos défices constitucionais não faz mal nenhum nem daí vem nenhum mal ao mundo. Sei, claro, que há situações de crise em que essas normas, consagradas no plano constitucional, podem ser um entrave ou um obstáculo ao desenvolvimento de certas políticas nacionais, sobretudo em épocas de crise. Nessa medida não seriam diferentes de outras regras meramente programáticas que as Constituições dos Estados consagram. Adiante. A desnecessidade da sua inclusão constitucional, contudo, deriva de outro facto - se reconhecemos que o direito da União tem um valor supra-constitucional e está acima das próprias Constituições nacionais, então bastará a inclusão dessas regras no direito da União, como actualmente já ocorre com as normas do Pacto de Estabilidade e Crescimento, para vincularem os Estados, independentemente da sua consagração constitucional. A inscrição destas regras nas Constituições dos Estados só é importante para quem ache que as Constituições estão acima do direito da União. Quem tiver visão contrária (é o nosso caso) encolhe os ombros e não vê nenhuma necessidade de as Constituições terem uma regra de ouro.

Joao Pedro Dias às 12:17 | link do post | comentar | partilhar

Polítícas europeias levarão a «15 anos de recessão», diz ministro belga

Ontem foi Mario Monti - o Primeiro-Ministro escolhido pelo duopólio para governar os territórios italianos sem se submeter a eleições - a vir questionar o rumo franco-alemão (eufemismo, dir-se-ia: o rumo alemão) imposto à União Europeia. Hoje é um Ministro belga a denunciar o óbvio - esta política de austeridade em cima de austeridade imposta por Berlim conduzirá a década e meia de recessão. Insisto - lentamente, Estados, governos e povos tomarão consciência do rumo que está a ser seguido e, sem que isso signifique laxismo nas contas públicas, ausência de reformas inevitáveis num Estado social que não tem por detrás economias fortes e sustentáveis, ou despesismo incomportável para economias que não crescem, acabarão por fazer apelo ao regresso da política e de determinados valores que lhe andam associados, para a construção de soluções alternativas. Nessa altura, a política estará de volta e de regresso. Até agora e por agora, vão governando os economistas e os aprendizes de políticos que aspiram a ser estadistas.

 

«A política de austeridade «imposta» aos países da UE «não é boa» e levará a «15 anos de recessão para a Europa», disse o ministro belga responsável pelo sector empresarial do Estado. «Os Estados devem impor disciplina», admitiu Paul Magnette, em entrevista publicada esta quinta-feira no jornal La Libre Belgique. «A Comissão Europeia está actualmente a preparar 15 anos de recessão para a Europa: todos os grandes economistas o dizem», lamentou. O governante acrescentou que os Estados devem ser ajudados a pagar as suas dívidas através do Banco Central Europeu (BCE) e do Banco Europeu de Investimento (BEI), o que permitiria o saneamento das contas e não cortar nos gastos sociais. A Bélgica está na mira da Comissão Europeia por causa do défice excessivo, o que já levou o governo de Bruxelas a decidir cortar em vários gastos.» [Fonte]
Joao Pedro Dias às 11:26 | link do post | comentar | partilhar
Quarta-feira, 11.01.12

Hungria sob o fogo da Comissão Europeia: questões constitucionais e questões financeiras.

1. A Comissão Europeia prepara-se para exigir à Hungria um recuo nas controversas reformas constitucionais sobre o sector judicial, o banco central e a protecção de dados no país – criticadas como anti-democráticas –, admitindo mesmo avançar com “procedimentos legais”, sem avançar porém quais os “procedimentos legais” que adoptará em caso de recusa. “Como guardiã dos tratados, [a Comissão] expressa a sua preocupação”, especificou a porta-voz do braço executivo da UE, Pia Ahrenkilde-Hansen, avançado que eventuais decisões punitivas serão decididas na reunião dos comissários agendada para a próxima terça-feira. “Esperamos que a própria Hungria tome a iniciativa de tomar as medidas necessárias para resolver este problema, uma vez que então poderemos passar a procedimentos contra as infracções longos e complicados”, afirmou. As autoridades de Budapeste têm mantido uma posição irredutível nas reformas adoptadas, mas recentemente foi dado um pequeno sinal de receptividade a ponderar as avaliações da União Europeia. “Estamos dispostos a mudar a legislação se tal for necessário”, escreveu o ministro húngaro dos Negócios Estrangeiros, Janos Martonyi, numa carta ontem divulgada, com data de 6 de Janeiro e endereçada à Comissão Europeia, na qual afirma ainda que a Hungria “respeita em absoluto a autoridade” do organismo. [Fonte]

 

2. Também hoje a Comissão Europeia considerou “insuficiente” as acções tomadas pela Hungria para corrigir o seu défice excessivo e recomenda a adopção de sanções, fazendo pela primeira vez uso de novos poderes. A recomendação da aplicação de medidas suplementares dirigidas à Hungria surge num relatório apresentado sobre procedimentos por défice excessivo relativos a cinco Estados-membros, no qual considera que Bélgica, Chipre, Malta e Polónia tomaram medidas adequadas para reduzir os seus défices, ao passo que a Hungria não. Ao abrigo das novas regras de fortalecimento do pacto de estabilidade e crescimento, que fazem parte do pacote legislativo recentemente adoptado de reforço da governação económica (o “6 pack”), a Comissão propõe ao Conselho que considere que as autoridades húngaras não tomaram acções efectivas para baixar o défice, e irá então propor novas recomendações dirigidas a Budapeste. “Propomos que os ministros da União Europeia decidam que [a Hungria] não tomou as medidas eficazes para colocar o défice público abaixo da barra dos 3% do Produto Interno Bruto”, é sublinhado em comunicado – abrindo a porta a que o país possa ser castigado com medidas como a cativação dos fundos europeus, o que pode privar o Governo do conservador Viktor Orban em mais de um milhão de euros em ajudas europeias. [Fonte]

Joao Pedro Dias às 22:55 | link do post | comentar | partilhar

Primeiro-ministro italiano ataca o eixo franco-alemão

Numa entrevista ao jornal Die Welt, Mário Monti diz que Angela Merkel e Nicolas Sarkozy cometem um erro grave se pensam que podem dirigir a União Europeia sozinhos. O primeiro-ministro italiano reclamou um maior protagonismo da Itália e de outros Estados no debate sobre a crise da dívida, defendendo que a União Europeia não pode ser dirigida apenas pela Alemanha e a França. Lentamente, um a um, os líderes desta Europa que temos, que ainda vai sendo chamada de União pese embora esteja cada vez mais desunida, vão reagindo e vão criticando o duopólio que tem pretensões a exercer a governança europeia, sem para o efeito estar dotado de qualquer mandato ou legitimidade que não a (aparente) força das suas economias. É, também, aqui, uma hierarquia (nova) de poderes que se vai estabelecendo, com a diferença (relativamente a hierarquias precedentes) que esses poderes já não são aferidos pela capacidade bélica mas por critérios económicos. O que há de novo aqui, e que não deixa de ser curioso, é que essas críticas começam a ouvir-se dos próprios vassalos que os suseranos dos tempos modernos colocaram à cabeça dos Estados, um pouco à semelhança do que acontecia com os senhores feudais de antanho, passando por cima da voz e da vontade daquele que se continua a afirmar como o soberano supremo, essa entidade cada vez mais difusa e difícil de definir chamada «povo». Parece que a última manifestação do facto vem de Itália, através da voz de Mário Monti, o Primeiro-Ministro escolhido por Mercozy para governar aqueles territórios. Bem-vindo seja, pois, ao clube! 
Joao Pedro Dias às 12:06 | link do post | comentar | partilhar
Terça-feira, 10.01.12

Como os mercados integraram a Europa - by Joschka Fischer

"Durante os últimos dois anos, sucessivas cimeiras europeias terminaram com garantias de que – finalmente – as medidas necessárias para conter a crise da dívida soberana na zona euro tinham sido tomadas. Muitas foram publicamente retratadas como avanços importantes, embora essa nunca tenha sido a realidade. Como regra, demorou cerca de três dias antes dos mercados recuperarem e de a crise entrar noutra ronda.

 

Como os líderes políticos da Europa falharam em resolver a crise eficazmente, o custo para terminá-la subiu. Na verdade, permitiu-se que uma facilmente manejável crise financeira na Grécia crescesse até se tornar uma emergência ameaçadora para os estados na periferia meridional da União Europeia – e para o projecto europeu como um todo. Isto foi estadismo no seu pior e a maior parte da culpa desta situação pode ser atribuída à chanceler alemã Angela Merkel.

Na verdade, antes da cimeira europeia de Dezembro em Bruxelas, o capital de confiança no Conselho Europeu estava já tão esgotado que ninguém parecia tomar seriamente as suas decisões. Certamente, o veto do Reino Unido às alterações que a cimeira propôs ao Tratado de Lisboa pode ter submergido tudo o resto, ao mesmo tempo que aumentou a desconfiança por parte do público e dos mercados financeiros numa Europa dividida.

Mas falar sobre uma divisão da UE é um disparate. Nenhum primeiro-ministro britânico poderia consentir numa mudança de tratado para criar uma união fiscal sem ter de organizar antes um referendo nacional, cujo resultado forçaria o Reino Unido a abandonar a UE. E nenhum líder da UE no perfeito uso das suas faculdades poderia ter interesse nisso. O Reino Unido tem todo o interesse em terminar a crise e em preservar um euro forte, tal como os europeus no continente precisam dos britânicos dentro da UE.

Por isso ficou claro desde há meses que uma base legalmente vinculatória para avançar no sentido de uma união fiscal europeia, embora indispensável, só poderia ocorrer fora do enquadramento do Tratado de Lisboa, nomeadamente numa base intergovernamental e como um UE-17 ou um UE-17+, tal como aconteceu. Além disso, a hipótese alarmista de uma “divisão” negligencia a realidade de que a UE e a união monetária desde há muito se movem a velocidades diferentes.

O veto britânico, e a algazarra que causou, foi por essa razão algo que a Europa podia ter dispensado, e Cameron cedo se arrependerá de se ter oferecido como refém aos seus correligionários eurocépticos. Fortalecê-los enfraquecerá drasticamente a influência do Reino Unido na UE.

Tudo isso é ainda mais verdade porque a cimeira de Bruxelas abriu a porta para a união fiscal a UE-17+. Se um novo tratado for negociado em Março de 2012 e ratificado nos meses seguintes, a UE terá dado um passo notável em frente – na verdade, apenas ficando a um passo de distância duma verdadeira união política, que terá de seguir-se se a Europa quiser acabar de uma vez com a crise.

E, no entanto, a confiança nas decisões recentemente tomadas em Bruxelas permanece baixa, devido não só à confiança dissipada e ao espalhafato sobre o veto britânico, mas também à aparente ausência de medidas para intervir na crise actual. Mas isto, também, é um conceito errado.

Se lermos as decisões tomadas em Bruxelas, imediatamente notamos que a Alemanha e outros países ricos da UE receberam todos os mecanismos e garantias de estabilidade que tinham requerido previamente, deixando-os sem razões para continuar a recusar medidas de intervenção de crise, incluindo garantias financeiras apropriadas. A recente cimeira em Bruxelas abriu o caminho para uma união fiscal, incluindo simultaneamente um pacto de estabilidade e – criticamente importante – um pacto de responsabilidade comum. Na Alemanha, nada disto ainda foi interiorizado.

No curto prazo, a união de responsabilidades deverá ser implementada pelo Banco Central Europeu, cuja independência será outra vez tida como sagrada em Berlim, fornecendo uma folha de figueira europeia para as prioridades de política interna da Alemanha. Por este ponto de vista, Merkel devia estar grata a Cameron pela distracção que este criou em Bruxelas.

E a quem devemos agradecer por todo este progresso europeu? Devemo-lo à sabedoria dos líderes políticos da Europa, particularmente à de “Merkozy”, o estranho casal formado por Merkel e pelo Presidente francês, Nicolas Sarkozy?Infelizmente, não: o progresso resultou quase exclusivamente da pressão dos malquistos mercados financeiros. Tal como o antigo primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi foi deposto não por oponentes políticos, mas por investidores nervosos, foram os mercados, não os líderes europeus, quem abriu a porta à união fiscal e política na Europa.

Isso não é motivo para celebração. Pelo contrário, reflecte como os políticos europeus têm falta de visão estratégica suficiente e de coragem para resolver a crise da zona euro – e também para regular os mercados.[Fonte]

Joao Pedro Dias às 02:38 | link do post | comentar | partilhar
Segunda-feira, 09.01.12

Angela Merkel, esquisso biográfico

Um excelente contributo biográfico sobre a Chanceler Ângela Merkel, que permite compreender os seus principais traços de personalidade, as suas deslealdades perante quem lhe deu a mão e, indirectamente, parte significativa da postura política e das políticas em que aparece empenhada. A ler! [Fonte]


"A chancela da senhora Merkel


Quando o muro de berlim começou a ser erguido, em 1961, Herlind Kasner sentou-se sozinha na igreja a chorar. O seu marido, Horst, sentia-se aliviado: o pastor luterano que trocara Hamburgo, na República Federal Alemã, com o objectivo de espalhar a palavra de Deus no Leste comunista não voltaria a questionar a decisão pois já não tinha forma de voltar às origens.


Nem um nem o outro imaginavam que Angela, a sua filha mais velha então com cinco anos, viria a tornar-se a primeira mulher e primeiro cidadão do Leste a governar a Alemanha reunificada. E muito menos que a sua missão passasse por salvar uma União Europeia então acabada de nascer como alicerce da paz num continente marcado pela guerra.


Nada na época fazia adivinhar um futuro desses: a jovem sonhava tornar-se professora e tradutora, talvez influenciada pelos ensinos de inglês e latim que representavam o ganha-pão da mãe, e revelava-se uma excelente aluna, limitada apenas pela timidez. Angela só dava nas vistas involuntariamente, como quando revelava uma falta de aptidão física que contrastava com os alunos de um país que ostentava no desporto o orgulho na sua formação.


Mas já aí mostrava uma determinação fora do comum, sustentada na obsessão de seguir as regras que agora transporta para os seus parceiros europeus: quando foi forçada a ultrapassar um dos seus maiores receios de criança – mergulhar para uma piscina – Angela subiu até à prancha mais alta e ali ficou a combater os seus medos até que, ao soar do toque que assinalava o final da aula, saltou para a água.


Como a grande maioria dos alunos da República Democrática Alemã (RDA), Merkel pertenceu à Juventude Livre Alemã, o movimento jovem ligado ao partido do regime. Chegou a ter um lugar de destaque na comissão de Agitação e Propaganda, mas quando é questionada sobre as tentativas da polícia secreta da RDA – a Stasi – em recrutá-la, Merkel diz que respondeu ser demasiado «fala-barato para ser uma informadora».


Em 1973 mudou-se para Leipzig, onde completou a licenciatura em Física, mais tarde enriquecida por um mestrado em Física Quântica, e onde iniciou a relação com Ulrich Merkel, o homem com quem estaria casada entre 1977 e 1982 e de quem herdou o nome que ainda hoje ostenta. Uma relação cujo final ajuda a perceber por que os críticos de Merkel a consideram «fria», pois, segundo Ulrich, tudo acabou num diaem que Angela«arrumou as coisas e foi-se embora». Sem discutir nem explicar as suas razões, Merkel decidiu abandonar o seu primeiro casamento levando apenas o frigorífico.


Por essa altura já o casal vivia em Berlim Oriental, com Angela a trabalhar no Instituto de Físico-Química da Academia de Ciências ao mesmo tempo que aprendia a língua russa, que hoje fala fluentemente.


Do SPA para o Governo


Merkel manteve-se em Berlim e nas Ciências durante os anos 80 e só a queda do muro revelaria a sua faceta política. Mas não no imediato, pois muita tinta já fez correr a reacção de Angela Merkel ao anúncio de 9 de Novembro de 1989, que permitia aos cidadãos do Leste cruzarem o muro rumo a Berlim Ocidental e à República Federal Alemã (RFA): segundo um perfil recentemente publicado na Newsweek, a futura ‘Dama de Ferro’ da Alemanha e ‘Senhora Não’ da Europa preferiu seguir para a sua sessão semanal de spa a ir assistir ao vivo a um acontecimento histórico.


Mas logo depois seguiu o caminho de muitos dos seus colegas cientistas orientais: pressionados pela concorrência mais apta vinda do Ocidente e pela novidade trazida pela pluralidade de partidos, muitos foram o que seguiram para o mundo político. Merkel decidiu dedicar a próxima etapa da sua vida a «servir a Alemanha» e para tal filiou-se no movimento Amanhecer Democrático. Mas rapidamente se mudou para a União Democrata-Cristã da RDA e em Abril de 1990 pertencia já ao gabinete de imprensa de Lothar de Maizière, o último primeiro-ministro do leste germânico.


O salto para a liderança da CDU


Apenas oito meses depois, em Dezembro de 1990, Merkel era recrutada por Helmut Kohl para o seu terceiro gabinete – o primeiro da Alemanha reunificada. No perfil em que apresentava Merkel como próxima chanceler alemã, em 2005, a revista New Yorker contava que «Helmut Kohl foi o homem que explicou o mundo a Angela Merkel». E os seus primeiros passos nos Executivos do mentor provam de que mais do que uma política com doutrina formada, Merkel é uma mulher que gosta de aprender antes de abraçar as causas que resolve defender. Começou como ministra das Mulheres e da Juventude, «um ministério pequeno» onde podia trabalhar «sem muito stresse». Aí, para os olhos da opinião pública germânica, ela era uma feminista assumida. Depois, em 1994, passou para a chefia do Ministério do Ambiente e sem surpresas tornou-se uma ambientalista, com destaque para a sua participação nas negociações que resultariam no Protocolo de Quioto.


Apesar de ir ganhando reputação, Merkel passaria o reinado de Kohl a ser tratada como «a miúda» do chanceler. Um título que odiava tanto como agora odeia a moda europeia de juntar o seu nome ao do Presidente francês – o ‘Merkozy’ que decide os destinos da Europa. E a revolução que Merkel provocou dentro da União Democrata-Cristã (CDU) após a derrota de Kohl frente a Gerhard Schröder em 1997, mostra que talvez não tenha sido boa ideia para o veterano a forma despreocupada como se referia ao membro mais novo do seu Governo.


«Formal, directa e sem apetite para conversas de circunstância» – foi assim que a jornalista da New Yorker descreveu Angela Merkel após a entrevista de 2005. Qualidades que ficaram bem expostas na carta aberta que a então estrela em ascensão da CDU, com 45 anos, publicou no rescaldo da derrota eleitoral dos conservadores, cuja liderança envelhecida era ainda desgastada por sucessivos casos de corrupção.


Escolhendo o diário mais lido pelos conservadores alemães, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, Merkel anunciou o fim da «era de Helmut Kohl». E convicta de que Kohl não renunciaria voluntariamente à liderança do partido de forma «rápida e completa para dar lugar aos sucessores da nova geração», Merkel comparou o partido a um adolescente que «tem de cortar os seus laços com os pais e começar a sua própria vida». Tal como fizera ao abandonar Templin rumo a Leipzig com 19 anos, Merkel desafiava a CDU a fazer o mesmo: «Cabe-nos a nós, que agora temos responsabilidade no partido, pegar no futuro com as nossas mãos».


Por esta altura já Angela voltara a casar e outra vez com um cientista, Joachim Sauer. Uma estrela da química quântica que é apontado como futuro vencedor de um Nobel e que não gosta de viver a vida pública da mulher. Numa das suas poucas aparições públicas, na festa que organizou para os 50 anos de Merkel, Sauer terá dado nas vistas na hora do recolher: «Vamos Angela, eu não sou político e amanhã tenho de trabalhar cedo», terá dito à frente de ilustres convidados assim que soaram as badaladas da meia-noite. Apesar dos 14 anos que levam juntos, a família conta apenas os dois filhos do primeiro casamento de Sauer, porqueAngela diz«não precisar de filhos» para se sentir «uma mulher completa».


A carta que ditou o fim da era Kohl caiu como uma bomba em cima dos veteranos que controlavam o partido e seduziu os milhares de delegados da CDU que esse ano se juntaram em Congresso. Em Abril de 2000, Angela Merkel tornava-se a primeira mulher a liderar a formação política conservadora. Uma liderança que surgia no início de ciclo social-democrata, logo deixando os ‘falcões’ da CDU com tempo para preparar o ataque à liderança.


Mas Merkel deu mais mostras do seu pragmatismo: em 2002 abandonou as primárias do partido a meio da corrida, deixando caminho aberto para Edmund Stoiber, o então Governador da Baviera e homem-forte do maior parceiro de coligação da CDU, a União Social-Cristã (CSU). Como esperado, Schröder foi reeleito e ninguém atribuiu culpas à líder do partido.


Eleita deputada, começou a liderar a oposição nas bancadas do Bundestag – o Parlamento alemão – retirando espaço dentro do partido para que houvesse outra candidatura que não a sua em 2006. E assim foi, mas um ano mais cedo graças a outro veterano que não deu o devido valor à adversária: Gerhard Schröder levou deputados do seu próprio partido a votarem contra si numa moção de confiança que tinha como objectivo forçar a antecipação das eleições. Um tiro que saiu pela culatra, pois Angela Merkel conseguiu mesmo ser a mais votada numa eleição marcada pela sua promessa de aumentar o IVA e pelo sapo engolido por Helmut Kohl, que teve de ir a público apoiar a 'sua' «miúda».


E mesmo quando ninguém acreditava que formaria uma coligação maioritária, convenceu os sociais-democratas a formar uma grande coligação. Assim governou durante quatro anos, com dificuldade para impor as suas anunciadas reformas de disciplina fiscal mas com capacidade suficiente para ser eleita pela revista Forbes como a mulher mais influente do mundo por quatro anos consecutivos. Até que os alemães foram de novo chamados às urnas e Merkel reforçou a maioria, ainda assim com necessidade de recorrer a parceiros, desta feita os liberais do FDP.


Foi aí que a Europa lhe rebentou nas mãos. Kohl promoveu o euro como garante da estabilidade no Velho Continente, e a sua seguidora também o considera um assunto de guerra ou paz. «Se o euro cair, a Europa vai atrás», afirmou recentemente no Parlamento. E perante uma geração de alemães mais preocupada com o dinheiro enviado para os incumpridores do que com o passado bélico do país, Merkel é igual a si mesma: em Bruxelas exige austeridade como moeda de troca para mais ajudas, em Berlim passa a vida a lembrar que em Espanha «mais de 50% dos jovens estão desempregados». É esse segredo, segundo os seus biógrafos, que a faz demorar tanto a tomar as decisões mais importantes."

Joao Pedro Dias às 02:15 | link do post | comentar | partilhar
Domingo, 08.01.12

FMI duvida que a Grécia cumpra as metas da troika

"O Fundo Monetário Internacional (FMI) está a perder confiança na capacidade de a Grécia equilibrar as suas contas públicas e reduzir o peso da sua dívida, sugere um relatório da instituição citado pela revista Der Spiegel. Segundo o documento a que a publicação alemã teve acesso, e que é citado pela agência Bloomberg, o FMI considera insuficiente o actual programa de ajustamento para Atenas atingir o equilibro orçamental, dadas as metas do acordo com a troika que estão por cumprir. Os peritos do FMI – um dos parceiros do empréstimo de 110 mil milhões de euros negociado com o anterior Governo helénico –, querem que na próxima ronda de avaliação do Memorando de Entendimento sejam revistos os pontos-chave do acordo. Isto segundo o relato daquela revista alemã, que não foi comentado nem desmentido pelo fundo. Para a instituição liderada por Christine Lagarde, a Grécia só tem três opções: avançar com mais medidas para consolidar as suas finanças; ser negociado um perdão maior com os credores privados; ou serem negociados mais fundos por parte da zona euro. A notícia surge dias depois de os representantes dos bancos e outras instituições financeiras credoras da Grécia terem feito pressão para uma conclusão rápida das negociações quanto ao abatimento de parte dos empréstimos feitos ao Estado grego. Numa altura em que se aproxima o exame à execução do ajustamento grego (em meados de Janeiro), um conselheiro do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, afirmou ontem, que o perdão em 50% da dívida grego, pré-acordado com os credores em Outubro, não será suficiente para salvar a Grécia. Isto após uma notícia, não desmentida pelo Governo alemão, de que Berlim pretendia um perdão da dívida de 75% dos títulos detidos pelo sector financeiro privado. O abate à dívida grega estabelecido em Outubro pela zona euro prevê um perdão de 100 mil milhões de euros e garantias para os credores no valor de 30 mil milhões." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 23:21 | link do post | comentar | partilhar

Cameron disposto a vetar taxa europeia sobre transações financeiras

O primeiro-ministro britânico diz-se disposto a vetar qualquer tentativa para aplicar um imposto nas transações financeiras na União Europeia. David Cameron acredita que impor um imposto desse tipo no espaço comunitário sem que isso seja feito noutras partes do Mundo pode prejudicar o mercado laboral e a prosperidade da Europa. Cameron defende que “a ideia de uma nova taxa europeia, que não é aplicada noutros locais, é desaconselhável” e garante que irá “bloquear” a iniciativa, “exceto se o resto do Mundo concordar ao mesmo tempo nalgum tipo de imposto global”. Grande promotora da chamada taxa “Tobin” – idealizada pelo Nobel da Economia James Tobin -, a França mostrou-se disposta a aplicá-la no país e pretende avançar com legislação para esse efeito antes das presidenciais de Abril. Quando propôs a taxa, na sexta-feira, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, defendeu que “quando compramos um apartamento em qualquer parte do Mundo, pagamos uma taxa; quando vamos ao supermercado, pagamos taxas; mas quando fazemos uma transação financeira, não pagamos taxa. Quem é que pode compreender uma regra destas?”. Sarkozy debaterá certamente a ideia com a chanceler alemã, Angela Merkel, em Berlim, no encontro desta segunda-feira que serve para preparar a cimeira de Bruxelas a 30 de Janeiro. Apesar da França se dizer disposta a avançar sozinha, a Alemanha e a Itália defendem uma taxa com aplicação em toda a União Europeia." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 19:02 | link do post | comentar | partilhar
Sábado, 07.01.12

LPFP obrigada a retirar publicidade da Bwin

A Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) está obrigada, a partir da próxima segunda-feira, a retirar toda a publicidade referente à operadora de apostas desportivas online, patrocinador da Taça da Liga, informou o organismo. Atendendo aos fundamentos que são publicamente conhecidos, esta é uma decisão dos Tribunais portugueses que reúne todos os indícios de ter ignorado, olimpicamente, regras e princípios de direito da União Europeia....

Joao Pedro Dias às 23:14 | link do post | comentar | partilhar
Sexta-feira, 06.01.12

Viktor Orbán cada vez mais isolado

 

"O reforço das prerrogativas do Executivo e o enfraquecimento dos contrapoderes são criticados por uma parte da imprensa húngara e também na Europa. Num momento em que o país é atingido por uma crise financeira, que se agrava à medida que aumenta a desconfiança dos investidores relativamente à política do Governo de Budapeste. Enquanto o semanário de esquerda 168 óra pede explicitamente "a demissão pacífica de Orbán, enquanto ainda lhe é possível fazê-lo", para "evitar a catástrofe económica", o seu confrade Heti Világgazdaság escreve que estamos a ver os créditos finais para a República da Hungria. Com a entrada em vigor, em 1 de Janeiro, da nova Constituição impulsionada pelo primeiro-ministro, Viktor Orbán, passa a ser apenas "Hungria". Este semanário divulga ainda parte de uma carta que recebeu do gabinete da comissária europeia responsável pela Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania, Viviane Reding, na qual é dito que a Comissão pode desencadear "um processo de infracção por desrespeito pelo direito comunitário" contra a Hungria. A carta adiantará que a Comissão pode utilizar todos os instrumentos disponíveis para assegurar os direitos fundamentais e os valores europeus na Hungria. Em princípio, não comentamos a Constituição de um Estado-membro mas as leis de todos os países [membros] devem ser conformes com a Carta dos Direitos Fundamentais da UE. A Comissão utilizará todos os meios para aplicar os valores da Carta na Hungria. As críticas começam a colocar numa posição difícil a própria imprensa próxima do Governo. Assim, o diário conservador Magyar Nemzet refere que, neste momento, o Governo se encontra sob "fogo cruzado" dos parceiros e das instituições europeias e, também, dos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional: Presentemente, já não se trata de uma brincadeira nem de uma simples conspiração internacional. Ainda que as críticas dos políticos e dos órgãos de comunicação europeus sejam por vezes injustas, e nalguns casos simplesmente ridículas, não temos alternativa. Evocar os resultados obtidos até agora pelo Governo já não faz sentido, porque a situação é muito mais grave. Não podemos evitar uma profunda autocrítica, pois é preciso sair rapidamente debaixo desse fogo cruzado. A gravidade da situação é tal que a atitude de Budapeste perante as críticas europeias parece ter mudado, salienta o HVG, segundo o qual “o Governo está disposto a negociar, sem condições, com o FMI e com a Comissão Europeia". O tempo urge, tanto mais que a crise financeira que afeta a Hungria começou a estender-se aos países vizinhos. Assim, o România libera refere que "a chantagem de Viktor Orbán" – se se permitir que a Hungria entre em falência, "a onda de choque terá repercussões na Europa" – pode "destabilizar a Europa de Leste". Em Praga, por exemplo, o Hospodářské noviny explica que a coroa checa, que desvalorizou 8% num ano em relação ao euro, está, neste momento, a ser "empurrada para o fundo pelo florim" húngaro." [Fonte]

Joao Pedro Dias às 20:31 | link do post | comentar | partilhar

À mesa do IDL. Hoje com Luciano Amaral

Joao Pedro Dias às 00:35 | link do post | comentar | partilhar
Quinta-feira, 05.01.12