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Como os mercados integraram a Europa - by Joschka Fischer

Terça-feira, 10.01.12

"Durante os últimos dois anos, sucessivas cimeiras europeias terminaram com garantias de que – finalmente – as medidas necessárias para conter a crise da dívida soberana na zona euro tinham sido tomadas. Muitas foram publicamente retratadas como avanços importantes, embora essa nunca tenha sido a realidade. Como regra, demorou cerca de três dias antes dos mercados recuperarem e de a crise entrar noutra ronda.

 

Como os líderes políticos da Europa falharam em resolver a crise eficazmente, o custo para terminá-la subiu. Na verdade, permitiu-se que uma facilmente manejável crise financeira na Grécia crescesse até se tornar uma emergência ameaçadora para os estados na periferia meridional da União Europeia – e para o projecto europeu como um todo. Isto foi estadismo no seu pior e a maior parte da culpa desta situação pode ser atribuída à chanceler alemã Angela Merkel.

Na verdade, antes da cimeira europeia de Dezembro em Bruxelas, o capital de confiança no Conselho Europeu estava já tão esgotado que ninguém parecia tomar seriamente as suas decisões. Certamente, o veto do Reino Unido às alterações que a cimeira propôs ao Tratado de Lisboa pode ter submergido tudo o resto, ao mesmo tempo que aumentou a desconfiança por parte do público e dos mercados financeiros numa Europa dividida.

Mas falar sobre uma divisão da UE é um disparate. Nenhum primeiro-ministro britânico poderia consentir numa mudança de tratado para criar uma união fiscal sem ter de organizar antes um referendo nacional, cujo resultado forçaria o Reino Unido a abandonar a UE. E nenhum líder da UE no perfeito uso das suas faculdades poderia ter interesse nisso. O Reino Unido tem todo o interesse em terminar a crise e em preservar um euro forte, tal como os europeus no continente precisam dos britânicos dentro da UE.

Por isso ficou claro desde há meses que uma base legalmente vinculatória para avançar no sentido de uma união fiscal europeia, embora indispensável, só poderia ocorrer fora do enquadramento do Tratado de Lisboa, nomeadamente numa base intergovernamental e como um UE-17 ou um UE-17+, tal como aconteceu. Além disso, a hipótese alarmista de uma “divisão” negligencia a realidade de que a UE e a união monetária desde há muito se movem a velocidades diferentes.

O veto britânico, e a algazarra que causou, foi por essa razão algo que a Europa podia ter dispensado, e Cameron cedo se arrependerá de se ter oferecido como refém aos seus correligionários eurocépticos. Fortalecê-los enfraquecerá drasticamente a influência do Reino Unido na UE.

Tudo isso é ainda mais verdade porque a cimeira de Bruxelas abriu a porta para a união fiscal a UE-17+. Se um novo tratado for negociado em Março de 2012 e ratificado nos meses seguintes, a UE terá dado um passo notável em frente – na verdade, apenas ficando a um passo de distância duma verdadeira união política, que terá de seguir-se se a Europa quiser acabar de uma vez com a crise.

E, no entanto, a confiança nas decisões recentemente tomadas em Bruxelas permanece baixa, devido não só à confiança dissipada e ao espalhafato sobre o veto britânico, mas também à aparente ausência de medidas para intervir na crise actual. Mas isto, também, é um conceito errado.

Se lermos as decisões tomadas em Bruxelas, imediatamente notamos que a Alemanha e outros países ricos da UE receberam todos os mecanismos e garantias de estabilidade que tinham requerido previamente, deixando-os sem razões para continuar a recusar medidas de intervenção de crise, incluindo garantias financeiras apropriadas. A recente cimeira em Bruxelas abriu o caminho para uma união fiscal, incluindo simultaneamente um pacto de estabilidade e – criticamente importante – um pacto de responsabilidade comum. Na Alemanha, nada disto ainda foi interiorizado.

No curto prazo, a união de responsabilidades deverá ser implementada pelo Banco Central Europeu, cuja independência será outra vez tida como sagrada em Berlim, fornecendo uma folha de figueira europeia para as prioridades de política interna da Alemanha. Por este ponto de vista, Merkel devia estar grata a Cameron pela distracção que este criou em Bruxelas.

E a quem devemos agradecer por todo este progresso europeu? Devemo-lo à sabedoria dos líderes políticos da Europa, particularmente à de “Merkozy”, o estranho casal formado por Merkel e pelo Presidente francês, Nicolas Sarkozy?Infelizmente, não: o progresso resultou quase exclusivamente da pressão dos malquistos mercados financeiros. Tal como o antigo primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi foi deposto não por oponentes políticos, mas por investidores nervosos, foram os mercados, não os líderes europeus, quem abriu a porta à união fiscal e política na Europa.

Isso não é motivo para celebração. Pelo contrário, reflecte como os políticos europeus têm falta de visão estratégica suficiente e de coragem para resolver a crise da zona euro – e também para regular os mercados.[Fonte]

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publicado por Joao Pedro Dias às 02:38






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