Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Entrevista

Terça-feira, 21.06.05

Com o jornalista Nuno Dias, Sub-chefe de redacção do semanário "O Diabo", mantive uma conversa sobre a actual situação da União Europeia que é publicada na edição de hoje do referido semanário e que aqui se transcreve, com a devida vénia:

O DIABO — Estava à espera do duplo fracasso em que se saldou o Conselho Europeu de Bruxelas? Não é a primeira vez que falham as negociações das perspectivas financeiras, mas quando a isso se soma uma crise política e institucional, dá mostras da crise que assola a U.E. O «timing» impunha que se lograsse um acordo, pois seria um sinal de que a Europa estava de razoável saúde. Tratou-se de uma machadada muito séria para o projecto europeu.

O DIABO — O Primeiro-Ministro luxemburguês confessou estar «envergonhado» por terem sido os pequenos Estados a cederem, perante a intransigência dos grandes. Como comenta? Os pequenos Estados-membros da U.E., ao demonstrarem a sua disponibilidade para abdicarem dos fundos em nome de um entendimento alargado, deram uma grande lição à «velha Europa».

O DIABO — Os interesses de Portugal saem prejudicados? Foi mau para Portugal não ter havido um acordo. A 1 de Julho inicia-se a presidencia britânica e não é crível que os anfitriões cedam o que não quiseram fazer agora. Estou convicto que até final do ano não vai existir um acordo e existe a particularidade de a 1 Janeiro de 2006, com a Alemanha na presidência — e provavelmente já sem Schroder — se torne ainda mais complicado que as negociações cheguem a bom porto.

O DIABO — Para um país declaradamente «subsidiodependente», como Portugal, é preocupante se a margem de fundos que vamos perder for próxima dos 20 por cento? Na fase mais forte de transferência dos fundos comunitários eles chegaram a representar 4 por cento do PIB, o que é uma verba astronómica. Naturalmente que o nosso País vai ressentir-se da inevitável redução das verbas que recebe, uma vez que os fundos da coesão serão os mais penalizados. Portugal começa-se a aperceber de uma realidade trágica: nem sempre o destino dado a todos os fundos que recebemos terá sido o mais correcto.

O DIABO — Há um tomar de consciência que se abusou de infraestruturas em detrimento da formação? Do dia para a noite, o País confronta-se com a iminência de perder uma fonte significativa de receitas que permitiu o seu prosperar e questiona a oportunidade das opções feitas no passado. Outros Estados, que tinham graus de desenvolvimento semelhantes ao nosso, tomaram outro tipo de soluções. A Irlanda, por exemplo, apostou na formação e na valorização da sua massa critica, em prejuizo das infraestruturas, e hoje, leva um avanço sem margem para dúvida em termos comparativos com Portugal.

O DIABO — No meio desta complexa luta de poder e das intransigências dos maiores países, quem desata os nós desta Europa? A Europa está submersa numa «eurodepressão» e não vai ser tarefa fácil mudar o clima de um dia para o outro, mas prevejo que se os atritos continuarem, pode emergir a figura do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, como o grande protagonista na tarefa de conciliar vontades. Se o conseguir ficará, por certo, na História da Europa.

O DIABO — Em que medida é que os egoísmos nacionais têm contribuido para travar o processo europeu? Por um lado, ainda bem que os egoísmos nacionais existem. É sinal que a Europa não é formatada e não fala a uma só voz. A U.E. é uma união de povos e de nações, e é bom que estas mantenham a sua individualidade e não percam de vista a defesa dos seus próprios interesses. A essência e a grandeza do projecto reside no harmonizar dos diferentes pontos de vista.

O DIABO — Mas os egoísmos têm o seu lado perverso... Cabe às instituições, sobretudo à Comissão Europeia, saber apresentar as políticas necessárias para compôr esses interesses divergentes e impedir que esses factores toldem o próprio processo europeu.

O DIABO — Alargar o período de ratificação do Tratado Europeu para meados de 2007 foi a melhor solução? Lamento que se queira passar como um grande sucesso o que não é senão o estancar da crise e o evitar que os «nãos» se multipliquem.

O DIABO — Pensa que se está a adiar o problema? O Conselho Europeu decidiu parar o processo de ratificação, mas não diz como é que vai resolver o problema gerado pelas negativas que surgiram. Evita a proliferação dos «nãos», mas contorna a resolução do problema.


O DIABO —
Faltando 13 países para ratificar e com esta pausa para reflectir, admite que o processo consiga resistir mais dois anos? É um ponto de interrogação. É certo que até 2007 não se falará mais em ratificações por parte dos Estados que ainda não a fizeram. Curioso é que no segundo semestre desse ano Portugal vai ter a presidencia da U.E., o que significa que vai ter de ser feito um novo balanço.

O DIABO — Para já que soluções imediatas advoga para ultrapassar o veto francês e holandês? A primeira hipótese é esquecer o Tratado Constitucional, mas isso seria contribuir para uma Europa com instituições que não respondem às necessidades de uma U.E. a 25; a segunda hipótese é repetir o referendo e perguntar aos franceses se mudaram de ideias; finalmente, a terceira, é reformular o texto do documento. O Conselho Europeu não seguiu nenhuma das três vias. Parece que está a querer pôr o Tratado na gaveta e tirá-lo ao fim de algum tempo, quando os europeus já tiverem esquecidos. Mas isso não resolve a crise...

O DIABO — A inexistência de um «Plano B» não revela uma certa improvisação por parte dos líderes? Revela, acima de tudo, muita precipitação, mas salvo melhor opinião, a origem profunda da crise europeia não está no Tratado Constitucional — até porque houve no passado outros tratados muito mais inovadores e com maiores transferências de soberania — mas sim na «luz verde» dada a um alargamento mal controlado e planeado, que veio baralhar completamente a máquina institucional da União Europeia. A U.E. não estava preparada para receber de uma assentada dez novos Estados que viram no projecto europeu o seu seguro de caução para garantir o sistema democrático. O Tratado Europeu comparado com o Tratado de Maastricht em termos de transferências de soberania é inofensivo.

O DIABO — Pensa que futuros alargamentos serão repensados? Chirac disse isso mesmo na sua declaração no Conselho Europeu. E, claro está, a adesão da Turquia fica seriamente comprometida. Chirac já sofreu uma derrota politica em França e como prometeu o referendo no seu País para viabilizar a entrada da Turquia, estou certo que agora, na posse de todos os dados, não quererá arriscar. Não esqueçamos ainda que provavelmente em Outubro muda o Governo alemão e a CDU, a força política favorita, é adversária assumida da entrada da Turquia.

O DIABO — A consciência europeia ainda é uma miragem no «Velho Continente»? Só pode haver uma construção europeia consistente e uma U.E. a sério se existir consciência europeia, mas esse estado de espírito não se alcança por decreto ou por tratado, mas sim de uma forma natural. Não há Tratado que valha, se os cidadãos não sentirem essa consciência europeia. Os «pais» fundadores da UE sempre disseram que os grandes designios só se atingiam de forma gradual. Em 1954, quando se tentou dar um passo maior do que perna e preverter o método dos pequenos passos propondo a criação de uma comunidade política e de defesa, o projecto fracassou.

O DIABO — Schroder, Blair e Chirac estão a anos-luz de Schuman e Monnet? A actual falta de líderes carismáticos é um dos grandes dramas que se deparam à U.E. A Europa carece de uma liderança política. Em 1984, quando foi instituído o célebre «cheque britânico» — que compensava os britânicos por estes não beneficiarem de subsídios agrícolas — os líderes que presidiram a esta negociação eram estadistas de eleição (Thatcher, Mitterrand e Khol), como hoje não se vislumbra.

O DIABO — Que riscos correm os pequenos países se o directório for para a frente? O directório é uma ameaça que os pequenos Estados devem tudo fazer para combater. Curiosamente creio que devemos temer a possibilidade de um directório em situações de crise. Nestes momentos é que os grandes Estados tendem a assumir as suas responsabilidades e a determinarem o destino do que não lhes diz só respeito a eles. A espécie de limbo em que se encontra a U.E. pode potenciar a emergência de um directório.

O DIABO — Com a tremenda indefinição política em Paris e Berlim, Londres pode ganhar protagonismo na U.E.? Há partidas que a História nos prega: quem vai estar a pilotar esta U.E. em crise a partir de 1 de Julho será, precisamente, o Reino Unido. Mas é evidente que uma Europa liderada pelos britânicos vai prestar atenção ao livre mercado e às questões económicas, não sendo de prever que seja uma liderança muito activa na esfera política.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Joao Pedro Dias às 11:13






links

ORGANIZAÇÕES EUROPEIAS

COMUNICAÇÃO SOCIAL



comentários recentes

  • Jorge Greno

    Mas então o Português deixou de ser língua oficial...

  • Pedro

    Bom dia,O Casa Europa está novamente em destaque n...

  • Henrique Salles da Fonseca

    BRAVO!!!Todos os políticos no activo praticaram o ...

  • O mais peor

    Até que enfim o sapo destaca um blogue de valor qu...

  • De Puta Madre

    Eu Gostaria que o Espaço Europeu não Tivesse nos S...

  • Dylan

    Se no caso egípcio, algumas pessoas acharam por be...

  • Carlos Medeiros

    Gostei do post. Estou totalmente de acordo. E cons...

  • silveira

    Não é isso que diz a notícia!... De qualquer forma...

  • silveira

    Se eu fosse juíz sentiria vergonha por esta rejeiç...

  • silveira

    É claro como água!... Para voltarmos a ter justiça...