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Um paradoxo meramente aparente

Segunda-feira, 15.08.11

"O Ministro das Finanças britânico, George Osborne, pediu esta segunda-feira aos países da Zona Euro que avancem numa maior integração orçamental, de forma a transmitirem confiança à economia mundial. A Zona Euro «deve agora demonstrar seu compromisso com uma maior integração orçamental e com disposições de governação que evitem o risco moral e reforcem a responsabilidade fiscal», disse Osborne, num artigo em co-autoria com o seu homólogo de Singapura, Tharman Shanmugaratnam, publicado no «Financial Times». Na semana passada, Osborne já exortou os seus homólogos da Zona Euro a tomarem rapidamente todas as medidas necessárias, incluindo a criação de «euro-obrigações» (Eurobonds), para evitar a desintegração da moeda única, «o que seria um desastre económico, inclusive para o Reino Unido»".

 

Parece paradoxal - contra a opinião franco-alemã que recusa a emissão de títulos europeus de dívida pública (eurobonds), é o Reino Unido que, não integrando o euro, vem defender essa medida como condição de defesa da moeda europeia. O paradoxo, porém, é apenas aparente.


Defensor, desde sempre, duma visão predominantemente económica do processo de integração europeia, apostando sempre muito mais na sua dimensão económica do que na sua dimensão política, e tendo nos restantes parceiros comunitários os seus principais interlocutores comerciais, é do mais absoluto interesse do Reino Unido que a Europa da União, e particularmente a sua zona euro, ultrapasse o mais rapidamente possível o momento de turbulência que vive e que aparece associado às dívidas soberanas de alguns dos seus Estados da periferia, num movimento, de resto, que se está a aproximar do centro da Europa e parece já não querer poupar, sequer, algumas das suas principais economias. O pior que podia suceder a Londres era ter de kidar com o desmembramento da moeda única europeia e com o cenário previsivelmente catastrófico que daí adviria e que daí resultaria. Dito de outra forma - é do interesse britânico a manutenção da moeda única, não para a ela aderir mas para com ela poder continuar a relacionar-se.

 

É nesta lógica e sob este prisma, essencialmente egoístico, que deve ser entendida a preocupação do Reino Unido com a moeda única europeia - à qual, de resto, sempre se recusou a aderir, recusando sistematicamente abrir mão da sua estrelina nacional. E é também a esta luz que se deve perceber a defesa ou sugestão de criação dos célebres «eurobonds» ou títulos europeus de dívida pública que permitiriam uma mutualização das dívidas soberanas dos Estados que compartilham o euro como moeda própria. Com o detalhe, nada dispiciendo de, não integrando o eurogrupo, Londres se eximir a participar nos necessários e indespensáveis custos financeiros associados à criação desse instrumento de dívida pública europeia (recorde-se que, mantendo-se fora do eurogrupo, o Reino Unido já não participa directamente no esforço financeiro dos resgates europeus em curso, exceptuando, por razões específicas, o ocorrido com a República da Irlanda mas, mesmo aí, com base em acordos bilaterais e não no âmbito do Fundo de Estabilização Financeira).

 

É, pois, mais aparente do que real o paradoxo que resulta das palavras do Ministro das Finanças britânico - determina-o e move-o, essencialmente, o seu interesse nacional específico, mais do que o próprio interesse comunitário.

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publicado por Joao Pedro Dias às 23:11






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