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Recebendo o Rotary Clube de Belém-Norte

Sábado, 09.06.01

 

Tendo liderado, há cerca de um ano, a delegação do Rotary Clube de Aveiro que se deslocou a Belém do Pará (Brasil) para assinar o acto de irmanação ou geminação entre os Clubes rotários de Aveiro e de Belém-Norte, coube-nos desta feita receber em Aveiro uma delegação do Rotary Clube de Belém-Norte. Por incumbência e gentil solicitação do Presidente do Rotary Clube de Aveiro, Companheiro Henrique Mendonça, foi-me pedido que fizesse a intervenção institucional, em nome do nosso Clube, no jantar festivo que assinalou a referida recepção e que decorreu na Sala do Despacho da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro. Para os interessados, aqui fica o registo das palavras proferidas.


I


«O RC Aveiro está hoje em festa. Festa tripla por nela convergirem três dos aconteci­men­tos maiores do ano rotário prestes a findar.

 

Em primeiro lugar aumentámos o número de Companheiros Paul Harris do nosso Clube. En­quanto Clube mobilizámo-nos e praticámos, de uma assentada, dois assi­naláveis actos de jus­tiça: começámos por distinguir com a maior con­decoração que nos era possível ou­torgar, a D. Deo­linda Morais, distinta senhora de todos nós co­nhecida que com a sua ha­bitual sim­patia e bondade nos vem acolhendo em sua casa todas as semanas há mais de duas décadas. E que melhor forma po­deríamos ter escolhido, em ho­menagem à nossa distinta ga­lardoada, do que fazê-lo pro­por­cionando à Rotary Foundation mais alguns meios para que continue levando a cabo os seus generosos programas em prol da humanidade, sem levar em consi­deração cor de pele, credo reli­gioso, opção política – porque sempre e apenas norteada pelo ideal de servir, de fa­zer bem e de bem fazer, um pouco na senda daquele ditado que o nosso povo tanto repete, que manda fazer o bem sem olhar a quem. Pelo que co­nheço da nossa homena­geada, por natureza tão avessa a ex­cessivas exposi­ções e nada atreita a homenagens públi­cas, valorará mais o bem que o nosso con­tributo proporcionará do que a comenda que material­mente simbo­liza nossa acção.


Em segundo lugar festejamos hoje mais um ani­versário do nosso Clube, o quadragé­simo sé­timo – acontecimento sem­pre marcante para a vida de qualquer instituição onde, contra­riamente ao que sucede com a vida de todos nós, cada ano é sempre celebrado com um júbilo maior do que o anterior por­quanto significa que a instituição que constituímos tem mais vitalidade, maior credibili­dade, e também acrescidas respon­sabilidades perante a so­ciedade em que se insere.

 

E finalmente temos o prazer e a honra de rece­ber em nosso seio uma ilustre delega­ção de membros do RC Belém-Norte, nosso Clube amigo, nosso Clube-ir­mão, parcela de nós pró­prios plantada nas margens do Amazonas, nas cerca­nias dessa Amazónia imensa não raro tão mal tratada pelas mãos humanas que tanto lhe de­vem, na região que no século XVII um dos nos­sos maiores, o Padre António Vieira,descre­veu como um confuso e intrincado de rios e bos­ques espessos, aqueles – os rios – com infinitas en­tradas e saídas, e estes – os bosques – sem entrada nem saída.


Todos estes motivos são importantes e mereceriam por si só uma reunião festiva como aquela que celebramos aqui hoje.


Quis o des­tino proporcionar-nos a dita de os conjugar­mos a todos nesta reu­nião, num dia que tão cedo se não apagará de nossas memórias rotárias.

 

Permitam-me que, de todos os eventos mencionados, me centre de forma particular no último de­les.

 

II


Há cerca de um ano, na qualidade de Presidente doRC de Aveiro, tive o privilé­gio de in­tegrar a delegação do nosso Clube que, de­mandando as terras de Santa Cruz, aproveitou para celebrar os qui­nhentos anos do achamento do Brasil e para outorgar o Protocolo de geminação entre os Clubes rotários de Aveiro e de Be­lém-Norte.


Fo­ram dias inesquecí­veis e momentos inol­vidáveis de sã e fraterna convivência rotariana que permiti­ram colo­car mais uma pequena pe­dra na fru­tuosa estrada do emparceiramento e da ami­zade en­tre nos­sas duas ci­dades, começado há cerca de três dé­cadas, conhe­ce­dor de momentos de al­guma letargia, mas que em boa hora foi re­centemente retomado, redi­na­mizado e de que a nossa convivência aqui hoje mais não é senão a sua mais re­cente ma­nifestação.


A este facto não posso deixar de acrescentar a felici­dade que é para nós podermos con­tar, entre nossos ilustres visi­tantes, com um dos ca­bouqueiros desse processo de gemi­nação entre nossas duas cida­des: o nosso Com­panheiroEudiracy Silva,ao tempo inte­grando a equipa do Prefeito de Belém do Pará, Stélio Maroja – e para quem me atrevo a pedir um justíssimo e caloroso aplauso.

 

Aos Companheiros do nosso Clube que não tiveram o privilégio de nos acompanhar no ano transacto ten­tá­mos fazer-lhes um retrato tão fiel quanto possível da lhaneza do trato que nos foi dis­pensado, da afabilidade e cortesia com que fomos recebidos, da pujança e do espírito rotário que encontrámos em nosso Clube ir­mão.

 

Tentativa inglória, porém.

 

Nem fotografias, por muito abundantes que fossem – como foram; nem fil­mes – por muito extensos que fos­sem – como foram – lograram ajudar-nos na missão.

 

Te­riam sido precisas muitas palavras, e sobretudo muita arte e muito enge­nho, para dar­mos conta de tudo quanto nos foi propor­cionado.

 

E se as palavras nos não faltariam, reconhe­çamos com modéstia e humildade, a falta da arte e do engenho para descrever tudo quanto nos foi dado ver e, sobre­tudo, sentir.

 

Há coisas que não se podem transmitir – apenas se podem viver!

 

Hoje esses mo­mentos perpassam por nossa memó­ria, deixando um gostoso travo de nostalgia e de saudade, fazendo radi­car um fundo desejo de voltar àquelas ter­ras – não para abusar­mos da hospitalidade de quem fi­dalga­mente nos recebeu mas para voltarmos a desfru­tar do calor e da amizade que nos foi dispensada.

 

Para além das belezas naturais de Belém e das terras do Pará, não poderemos esquecer a profunda interliga­ção que sentimos entre o espírito rotário do nosso Clube-irmão, a par­ticipação activa de com­patriotas nossos nesse mesmo Clube, e sobretudo, o profundo en­volvimento de ambos – RC Belém-Norte e portu­gue­ses radica­dos no Pará – em torno de obras sociais e da comunidade que constituem um exemplo para qualquer rotário, uma bênção para qualquer Co­munidade e, dei­xem-me di­zer-vos, um orgulho também para nós, que somos Clube-irmão do RC de Belém-Norte e que, com desvelo, vemos nosso irmão brasileiro constituir um exemplo para a comuni­dade em que se insere.

 

E per­mitam-me que vos confesse – orgulho não raro eivado de uma pontinha de inveja, esse vil sen­timento do qual não nos podemos nem devemos or­gulhar mas ao qual nossa condição humana nem sempre permite que es­capemos.

 

Se dúvidas houvesse sobre o ideal de servir, de serviço à comuni­dade, de permanente entrega à causa do bem-comum, de homena­gem e vivência permanente do legado de Paul Harris, elas se dissi­pariam atentando no exemplo que é o RC Belém-Norte e a acção concreta dos seus membros.

 

Não foi o RC Belém-Norte quem já deu a seu Distrito sete Governa­dores rotários?

 

Não foi em Belém que viua luzdo dia uma Acade­mia de Estudos Rotarianos?

 

E quem, com me­mória, poderá olvidar, depois de a ter apreciado, essa in­compa­rável obra, fruto da comu­ni­dade lusa, que, constitu­ída em torno da sua Benefi­cente Portuguesa, ins­tituiu e mantém, sobretudo ao ser­viço dos mais carenciados, uma unidade hospitalar como de­certo em Portugal não existe fora de dois ou três centros metropolitanos de maior dimen­são?

 

E al­guém poderá ficar insensível ao se­cular Grémio Literá­rio que guarda nos seus ar­qui­vos repositório im­por­tante e parte preciosa da história da nossa Nação, da nossa se­cular mãe-pá­tria co­mum?

 

Em Belém do Pará sentimo-nos em casa.

 

Vivemos parte de nossa história de nação e de povo.

 

Partilhá­mos valores, partilhámos cren­ças, partilhámos preocu­pações – e tudo fa­lando a mesma língua, dando ra­zão ao poeta que afirmava ser essa a nossa verda­deira pá­tria.

 

Pátria comum, pátria única.

 

Pátria que tão bem ou muito melhor do que nós nossos ir­mãos brasileiros têm sa­bido cul­tivar, têm sabido enri­quecer, têm sabido acari­nhar e cui­dar.


Parece-me, pois, oportuno, neste 9 de Junho de 2001, véspera de mais um «Dia de Por­tugal, de Camões e das Comuni­dades Portuguesas», sugerir que nossos dois Clubes, cada qual nos Distritos rotários dos res­pectivos países, lancem no imediato uma campa­nha eventualmente tra­duzida na assinatura, por rotários de expressão lusófona, de uma petição comum dirigida aos Chefes de Estado e de Governo de Portugal e do Bra­sil, no sentido de que em próxima Cimeira bilateral entre nossos dois Estados, seja oficialmente instituído um «Dia da Língua Lusófona», comemorado em si­multâneo em Portugal, no Brasil, e nos demais Estados da CPLP, aí incluindo o novo Estado de Timor.

 

Somos a sexta língua mais falada no Mundo e a ter­ceira mais utilizada internacionalmente

 

Usam-na cerca de 200 milhões de luso-falantes.

 

Já demos, e continuamos a dar, ao Mundo verdadeiros príncipes das letras, desde o nosso Lusíada-Mor até ou­tros vultos da esta­tura, por exemplo, do já citado PadreAntónio Vieira,de Garrett, Hercu­lano, Antero, Eça, Pessoa, Sara­mago, Machado de Assis, Erico Verís­simo, Jorge Amado, Drummond de Andrade, Vini­cius de Moraes,Paulo Coelho,Mia Couto ou Craveirinha.

 

Nossa língua, nossa pátria, merece nosso empenho na sua defesa e na sua promoção. Consagrar-lhe, em es­pecial, um de entre os 365 dias do ano seria acto de justiça e de merecimento.

 

III


Mas nosso encontro de hoje pode e deve ser, também, entendido num contexto mais am­plo e num quadro mais vasto.

 

Brasile Portugal, cada qual a seu modo, encontram-se vivendo en­cruzilhadas históricas que conhecem muitos pontos de contacto e de convergência.


Ambos são paí­ses de arti­culação.

 

Ambos são espa­ços privilegiados de contacto com ou­tras nações, com outras reali­dades.

 

Ambos pontificam, cada qual em sua margem, com acresci­das responsabili­dades, na geografia do cha­mado Oceano moreno onde se destaca uma África que parece ter sido esquecida pelos deuses, olvidada pela Providência, permanentemente à espera que dela se lembrem aqueles que, por pouco que lhes sobre, sem­pre te­rão infinitamente mais do que os que mais não têm senão a espe­rança nos demais.

 

Portugal, já plenamente enquadrado numa Europa chamada da União para qual aporta como um dos seus mais preciosos activos e contributos justamente essa histórica voca­ção intercultural, tem no seu relaciona­mento privilegiado com o Brasil um capital funda­mental que em nome das gerações vindouras não poderá ser desperdiçado nem mal-ba­ratado.

 

O Brasil, fundador e indispensável trave-mestra de um Mercosul ainda em busca de uma completa definição estratégica, tem a ofere­cer aos seus vizinhos e parcei­ros, para além de muitas riquezas na­turais com que a Providência prodigamente o dotou, a sua especial rela­ção com Portugal como privilegiada porta de entrada para um necessário relaciona­mento com o velho mundo.

 

É assim, em torno dos grandes espaços nascentes, que se estrutura a ordem nova do mundo em que vi­vemos, do mundo dito globali­zado.

 

Mas engana-se quem pensa que pelo facto de o mundo em que nos é dado viver ser, cada vez mais, um mundo globalizado, tudo o que é relevante se passa ao nível das su­per e das macro estruturas, es­tando dis­pensadas as actuações concretas dos diferentes movi­mentos da sociedade civil.

 

Diria que bem pelo contrá­rio.

 

A globalização não mundia­lizou apenas conflitos; tam­bém interna­cionalizou as respostas e as soluções para esses mesmos confli­tos.

 

Não curou de superar assimetrias; não raro acentuou as desigualda­des.

 

Não eliminou diferenças económicas; antes evidenciou com fre­quência desigualdades entre um norte rico e um sul pobre, fazendo emergir uma geografia da fome a sul que, a norte, é mal compreen­dida e quantas vezes não percebida.

 

Ora, é neste mundo de contrastes, nesta civilização de paradoxos, que enquanto movi­mento da sociedade ci­vil, enquanto rotários, so­mos chamados a actuar, so­mos convoca­dos a agir.

 

Pela frente abrem-se-nos inúmeras oportunidades e in­contáveis de­safios: saibamos ter a ne­cessária inteli­gência e o suficiente discer­nimento para lhes dar as respostas que as nossas comunidades es­peram de nós.

 

Não limitemos o nosso relacionamento a estes mo­mentos de agra­dável e sã convivência rotária; procu­remos dar-lhe um conteúdo concreto no quadro dos programas rotários existentes ou através de outros que entendamos delinear.

 

Não fiquemos pela simples emissão de bem fundadas declarações de princípios ou inten­ções; no tal mundo globalizado, que relativizou as distâncias mas eviden­ciou as discre­pâncias, saibamos estabele­cer laços sóli­dos e duradouros que constituam verdadeiras pontes entre nossas duas comunidades, muito para além de nossos dois Clubes.

 

Numa sociedade mundializada que cada vez mais apela à solidarie­dade entre homens de boa-vontade, saibamos ser, à nossa modesta escala, os agentes construtores de uma nova ordem, catalizando vontades dos poderes públicos que presidem aos nossos territó­rios.

 

Em nome doRC de Aveirocreio poder afirmar a nossa disponibili­dade para encetarmos este percurso.

 

E não me permito duvidar, por um instante que seja, que igual é a disponi­bilidade do nosso Clube irmão.

 

Assim sendo, estão reunidas as condições necessárias para que este relacionamento fru­tifique; para que o Protocolo que há um ano assinámos em Belém consti­tua o marco do desenvolvimento de uma verdadeira parceria em prol das nossas Comunidades.

 

Aproximando Aveiro e Belém estaremos aproximando nossos povos, estaremos cum­prindo nosso ideal quase centenário.

 

Numa palavra, estaremos fazendo e vi­vendo ROTARY».

 

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publicado por Joao Pedro Dias às 04:01






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