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Angela Merkel, esquisso biográfico

Segunda-feira, 09.01.12

Um excelente contributo biográfico sobre a Chanceler Ângela Merkel, que permite compreender os seus principais traços de personalidade, as suas deslealdades perante quem lhe deu a mão e, indirectamente, parte significativa da postura política e das políticas em que aparece empenhada. A ler! [Fonte]


"A chancela da senhora Merkel


Quando o muro de berlim começou a ser erguido, em 1961, Herlind Kasner sentou-se sozinha na igreja a chorar. O seu marido, Horst, sentia-se aliviado: o pastor luterano que trocara Hamburgo, na República Federal Alemã, com o objectivo de espalhar a palavra de Deus no Leste comunista não voltaria a questionar a decisão pois já não tinha forma de voltar às origens.


Nem um nem o outro imaginavam que Angela, a sua filha mais velha então com cinco anos, viria a tornar-se a primeira mulher e primeiro cidadão do Leste a governar a Alemanha reunificada. E muito menos que a sua missão passasse por salvar uma União Europeia então acabada de nascer como alicerce da paz num continente marcado pela guerra.


Nada na época fazia adivinhar um futuro desses: a jovem sonhava tornar-se professora e tradutora, talvez influenciada pelos ensinos de inglês e latim que representavam o ganha-pão da mãe, e revelava-se uma excelente aluna, limitada apenas pela timidez. Angela só dava nas vistas involuntariamente, como quando revelava uma falta de aptidão física que contrastava com os alunos de um país que ostentava no desporto o orgulho na sua formação.


Mas já aí mostrava uma determinação fora do comum, sustentada na obsessão de seguir as regras que agora transporta para os seus parceiros europeus: quando foi forçada a ultrapassar um dos seus maiores receios de criança – mergulhar para uma piscina – Angela subiu até à prancha mais alta e ali ficou a combater os seus medos até que, ao soar do toque que assinalava o final da aula, saltou para a água.


Como a grande maioria dos alunos da República Democrática Alemã (RDA), Merkel pertenceu à Juventude Livre Alemã, o movimento jovem ligado ao partido do regime. Chegou a ter um lugar de destaque na comissão de Agitação e Propaganda, mas quando é questionada sobre as tentativas da polícia secreta da RDA – a Stasi – em recrutá-la, Merkel diz que respondeu ser demasiado «fala-barato para ser uma informadora».


Em 1973 mudou-se para Leipzig, onde completou a licenciatura em Física, mais tarde enriquecida por um mestrado em Física Quântica, e onde iniciou a relação com Ulrich Merkel, o homem com quem estaria casada entre 1977 e 1982 e de quem herdou o nome que ainda hoje ostenta. Uma relação cujo final ajuda a perceber por que os críticos de Merkel a consideram «fria», pois, segundo Ulrich, tudo acabou num diaem que Angela«arrumou as coisas e foi-se embora». Sem discutir nem explicar as suas razões, Merkel decidiu abandonar o seu primeiro casamento levando apenas o frigorífico.


Por essa altura já o casal vivia em Berlim Oriental, com Angela a trabalhar no Instituto de Físico-Química da Academia de Ciências ao mesmo tempo que aprendia a língua russa, que hoje fala fluentemente.


Do SPA para o Governo


Merkel manteve-se em Berlim e nas Ciências durante os anos 80 e só a queda do muro revelaria a sua faceta política. Mas não no imediato, pois muita tinta já fez correr a reacção de Angela Merkel ao anúncio de 9 de Novembro de 1989, que permitia aos cidadãos do Leste cruzarem o muro rumo a Berlim Ocidental e à República Federal Alemã (RFA): segundo um perfil recentemente publicado na Newsweek, a futura ‘Dama de Ferro’ da Alemanha e ‘Senhora Não’ da Europa preferiu seguir para a sua sessão semanal de spa a ir assistir ao vivo a um acontecimento histórico.


Mas logo depois seguiu o caminho de muitos dos seus colegas cientistas orientais: pressionados pela concorrência mais apta vinda do Ocidente e pela novidade trazida pela pluralidade de partidos, muitos foram o que seguiram para o mundo político. Merkel decidiu dedicar a próxima etapa da sua vida a «servir a Alemanha» e para tal filiou-se no movimento Amanhecer Democrático. Mas rapidamente se mudou para a União Democrata-Cristã da RDA e em Abril de 1990 pertencia já ao gabinete de imprensa de Lothar de Maizière, o último primeiro-ministro do leste germânico.


O salto para a liderança da CDU


Apenas oito meses depois, em Dezembro de 1990, Merkel era recrutada por Helmut Kohl para o seu terceiro gabinete – o primeiro da Alemanha reunificada. No perfil em que apresentava Merkel como próxima chanceler alemã, em 2005, a revista New Yorker contava que «Helmut Kohl foi o homem que explicou o mundo a Angela Merkel». E os seus primeiros passos nos Executivos do mentor provam de que mais do que uma política com doutrina formada, Merkel é uma mulher que gosta de aprender antes de abraçar as causas que resolve defender. Começou como ministra das Mulheres e da Juventude, «um ministério pequeno» onde podia trabalhar «sem muito stresse». Aí, para os olhos da opinião pública germânica, ela era uma feminista assumida. Depois, em 1994, passou para a chefia do Ministério do Ambiente e sem surpresas tornou-se uma ambientalista, com destaque para a sua participação nas negociações que resultariam no Protocolo de Quioto.


Apesar de ir ganhando reputação, Merkel passaria o reinado de Kohl a ser tratada como «a miúda» do chanceler. Um título que odiava tanto como agora odeia a moda europeia de juntar o seu nome ao do Presidente francês – o ‘Merkozy’ que decide os destinos da Europa. E a revolução que Merkel provocou dentro da União Democrata-Cristã (CDU) após a derrota de Kohl frente a Gerhard Schröder em 1997, mostra que talvez não tenha sido boa ideia para o veterano a forma despreocupada como se referia ao membro mais novo do seu Governo.


«Formal, directa e sem apetite para conversas de circunstância» – foi assim que a jornalista da New Yorker descreveu Angela Merkel após a entrevista de 2005. Qualidades que ficaram bem expostas na carta aberta que a então estrela em ascensão da CDU, com 45 anos, publicou no rescaldo da derrota eleitoral dos conservadores, cuja liderança envelhecida era ainda desgastada por sucessivos casos de corrupção.


Escolhendo o diário mais lido pelos conservadores alemães, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, Merkel anunciou o fim da «era de Helmut Kohl». E convicta de que Kohl não renunciaria voluntariamente à liderança do partido de forma «rápida e completa para dar lugar aos sucessores da nova geração», Merkel comparou o partido a um adolescente que «tem de cortar os seus laços com os pais e começar a sua própria vida». Tal como fizera ao abandonar Templin rumo a Leipzig com 19 anos, Merkel desafiava a CDU a fazer o mesmo: «Cabe-nos a nós, que agora temos responsabilidade no partido, pegar no futuro com as nossas mãos».


Por esta altura já Angela voltara a casar e outra vez com um cientista, Joachim Sauer. Uma estrela da química quântica que é apontado como futuro vencedor de um Nobel e que não gosta de viver a vida pública da mulher. Numa das suas poucas aparições públicas, na festa que organizou para os 50 anos de Merkel, Sauer terá dado nas vistas na hora do recolher: «Vamos Angela, eu não sou político e amanhã tenho de trabalhar cedo», terá dito à frente de ilustres convidados assim que soaram as badaladas da meia-noite. Apesar dos 14 anos que levam juntos, a família conta apenas os dois filhos do primeiro casamento de Sauer, porqueAngela diz«não precisar de filhos» para se sentir «uma mulher completa».


A carta que ditou o fim da era Kohl caiu como uma bomba em cima dos veteranos que controlavam o partido e seduziu os milhares de delegados da CDU que esse ano se juntaram em Congresso. Em Abril de 2000, Angela Merkel tornava-se a primeira mulher a liderar a formação política conservadora. Uma liderança que surgia no início de ciclo social-democrata, logo deixando os ‘falcões’ da CDU com tempo para preparar o ataque à liderança.


Mas Merkel deu mais mostras do seu pragmatismo: em 2002 abandonou as primárias do partido a meio da corrida, deixando caminho aberto para Edmund Stoiber, o então Governador da Baviera e homem-forte do maior parceiro de coligação da CDU, a União Social-Cristã (CSU). Como esperado, Schröder foi reeleito e ninguém atribuiu culpas à líder do partido.


Eleita deputada, começou a liderar a oposição nas bancadas do Bundestag – o Parlamento alemão – retirando espaço dentro do partido para que houvesse outra candidatura que não a sua em 2006. E assim foi, mas um ano mais cedo graças a outro veterano que não deu o devido valor à adversária: Gerhard Schröder levou deputados do seu próprio partido a votarem contra si numa moção de confiança que tinha como objectivo forçar a antecipação das eleições. Um tiro que saiu pela culatra, pois Angela Merkel conseguiu mesmo ser a mais votada numa eleição marcada pela sua promessa de aumentar o IVA e pelo sapo engolido por Helmut Kohl, que teve de ir a público apoiar a 'sua' «miúda».


E mesmo quando ninguém acreditava que formaria uma coligação maioritária, convenceu os sociais-democratas a formar uma grande coligação. Assim governou durante quatro anos, com dificuldade para impor as suas anunciadas reformas de disciplina fiscal mas com capacidade suficiente para ser eleita pela revista Forbes como a mulher mais influente do mundo por quatro anos consecutivos. Até que os alemães foram de novo chamados às urnas e Merkel reforçou a maioria, ainda assim com necessidade de recorrer a parceiros, desta feita os liberais do FDP.


Foi aí que a Europa lhe rebentou nas mãos. Kohl promoveu o euro como garante da estabilidade no Velho Continente, e a sua seguidora também o considera um assunto de guerra ou paz. «Se o euro cair, a Europa vai atrás», afirmou recentemente no Parlamento. E perante uma geração de alemães mais preocupada com o dinheiro enviado para os incumpridores do que com o passado bélico do país, Merkel é igual a si mesma: em Bruxelas exige austeridade como moeda de troca para mais ajudas, em Berlim passa a vida a lembrar que em Espanha «mais de 50% dos jovens estão desempregados». É esse segredo, segundo os seus biógrafos, que a faz demorar tanto a tomar as decisões mais importantes."

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publicado por Joao Pedro Dias às 02:15






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