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A União Europeia está a morrer

Sábado, 04.09.10

O Washington Post dá relevo a um texto de Charles Kupchan intitulado “A União Europeia está a morrer”. Como explica o autor, a morrer não de morte súbita ou violenta, mas de morte tão lenta e certa que um destes dias vamos olhar por cima do Atlântico e perceber que o projecto de integração europeia que demos como garantido já não existe. O declínio da Europa, em parte, é  económico. A crise financeira afectou drasticamente muitos Estados-membros da UE e as dívidas nacionais elevadas e uma saúde incerta dos bancos do continente são sinal de mais problemas. Mas estas aflições ficam atenuadas em comparação com um mal maior: de Londres a Varsóvia, passando por Berlim, a Europa atravessa um período de renacionalização da vida política, com os países a recuperar a soberania que um dia não se importaram de sacrificar em prol de um ideal comum. Às vezes é preciso afastarmo-nos da floresta para vermos correctamente as árvores que a integram. Não raro a distância dá-nos um discernimento que a proximidade nos retira. Neste caso, o diagnóstico de Kupchan não se afasta muito da realidade. E isso é negativo e deve preocupar os europeus. O problema maior, porém, não será esse – o problema maior é que o diagnóstico de Kupchan coincide com o que, estratégica e historicamente, é o desejo da administração norte-americana. Desta e das anteriores. Para os EUA, quanto menos União Europeia e quanto mais bilateralidade existirem, melhor. Também esse é um dado de facto com que a Europa da União tem de saber lidar.

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publicado por Joao Pedro Dias às 00:36

Os EUA, a Turquia e a UE

Domingo, 13.06.10

notícias segundo as quais os Estados Unidos estão “muito preocupados” com a “deterioração” das relações entre a Turquia e Israel e consideram que as reticências da União Europeia face à adesão de Ancara são em parte responsáveis por esse afastamento. Além de profundamente errada, esta visão de que a UE empurrou a Turquia para o Oriente acaba por ser reflexo da posição norte-americana, que sempre considerou ser do seu interesse estratégico que a UE aceitasse a Turquia no seu seio. Foram essencialmente os interesses norte-americanos a ditar esta posição; nunca a consideração dos interesses europeus. Na óptica do interesse específico da UE continuo a acreditar que faz mais sentido uma parceria reforçada com a Turquia do que uma integração plena - para a qual, aliás, é duvidoso que a Turquia esteja, ou queira vir a estar, preparada. E para problemas dentro da UE creio já termos suficientes, dispensando-se outros mais.

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publicado por Joao Pedro Dias às 12:41

A deslocação de Sarkozy a Washington

Terça-feira, 30.03.10

Na sua deslocação aos EUA, o Presidente Sarkozy, enfraquecido e debilitado, foi pedir a Obama que os EUA trabalhem mais e mais estreitamente com a Europa. A questão que se deve colocar, todavia, é também a inversa. E a Europa? - estará disponível para trabalhar com os EUA quando esse trabalho implicar maiores sacrifícios, maiores riscos, maiores perigos - nomeadamente em operações militares como a que decorre no Afeganistão? Até agora aquilo que temos visto com mais frequência é a Europa criticar o unilateralismo dos EUA mas recusar a sua parte nas missões de maior risco e maior preço, seja ele financeiro ou, até, humano.

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publicado por Joao Pedro Dias às 03:31

E a Europa - estará disponível para trabalhar com os EUA?

Segunda-feira, 29.03.10

Noticia-se que na visita que se prepara para efectuar aos EUA o Presidente Nicolas Sarkozy irá pedir ao seu homólogo Barack Obama que os EUA trabalhem mais com a Europa porquanto, neste alvor do século XXI, nenhum país, por muito rico, forte e pujante que seja pode aspirar a liderar ou dominar o mundo sozinho. Constatá-lo parece uma evidência, daquelas que se dispensam ser recordadas tal o seu carácter óbvio. Todavia, se olharmos para o que têm sido as relações transatlânticas da última década - mais concretamente desde o 11 de Setembro de 2001 - há a convicção de que aquilo que verdadeiramente tem estado em causa tem sido mais a disponibilidade da Europa em colaborar com os EUA do que, propriamente, o inverso. Por isso não basta pedir aos EUA para trabalharem mais com a Europa; impõe-se averiguar é se a Europa está disposta a trabalhar mais com os EUA. Não raro estes têm sido acusados de agirem como a hiperpotência sobrante do mundo da guerra-fria e, em consequência, actuarem sozinhos e de forma unilateral, quais polícias do mundo, quando assumem a tarefa de proteger interesses e valores que, por serem os do Ocidente, deveriam ser defendidos de forma compartilhada entre Washington e os seus aliados europeus. Acontece, porém, que com a mesma frequência com que a acusação é feita, os europeus têm sistematicamente negado colaboração e empenho significativos em missões e tarefas que, um pouco por todo o lado - mas com especial incidência na zona do oriente médio - os EUA têm levado a cabo. No combate ao terrorismo internacional, na luta contra as bases da Al Qaeda no Afeganistão - sempre que tem sido preciso afirmar a sua presença e reforçar os meios operacionais no terreno, a Europa tem primado pela ausência. Ainda recentemente, quando Obama se viu na contingência de redefinir a sua estratégia de guerra para o Afeganistão e de anunciar um reforço de mais 30.000 homens para o contingente americano e solicitou idêntico esforço aos europeus, viu-se e sabe-se o que a Europa lhe respondeu. Quando há perigos ou riscos, os europeus (com raras e honrosas excepções) têm primado pela ausência e têm-se demitido de desempenhar qualquer papel de relevo. Era, por isso, bom que Sarkozy não se limitasse a pedir aos EUA que estes trabalhem mais com a Europa; era igualmente muito bom que lhe transmitisse que, sempre que estiverem em causa valores ocidentais comuns e ameaças aos mesmos, a Europa, solidária, está igualmente disposta a trabalhar mais e melhor com os EUA. Partilhando riscos para poder reivindicar um lugar quando chegar a altura das soluções.

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publicado por Joao Pedro Dias às 01:57