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Kosovo, cinco anos depois da independência

Sexta-feira, 17.02.12

"Cinco anos após a proclamação unilateral da independência, o Kosovo continua a ser uma região dividida e que divide o mundo. A Rússia e a Espanha não reconhecem a autoridade política de Pristina, enquanto os Estados Unidos e muitos países da União Europeia, incluindo Portugal, se encontram no outro lado da barricada e apoiam a autodeterminação deste território nos balcãs. A Kfor, força de manutenção da paz da NATO, que Portugal integra actualmente com 142 elementos, mantém-se no terreno com o objectivo de conseguir um frágil equilíbrio e arrefecer o clima de tensão alimentado por ódios antigos entre os sérvios (representam oito por cento da população) e a maioria albanesa. O Kosovo é uma peça chave nas ambições da Sérvia no que respeita à adesão à União Europeia, o que tem contribuído para alguma abertura de Belgrado, embora os grupos nacionalistas sérvios boicotem muitas vezes os esforços de pacificação numa zona onde facilmente se alimentam as tensões étnicas." [Fonte]

 

Conforme abordámos detalhadamente na altura, ao longo destas páginas, cinco anos depois o Kosovo independente continua a ser um verdadeiro espinho cravado no coração da Europa central, numa das suas regiões historicamente mais instáveis, fonte de grande parte dos conflitos que afectaram a Europa: os Balcãs. Permanece um Estado que se mantém artificialmente independente, expurgando a Sérvia do seu coração histórico, um Estado militarmente defendido pelos EUA - que envolvidos nas guerras do Afeganistão e do Iraque tiveram necessidade de provar nada ter contra Estados muçulmanos, ainda que localizados no lugar errado e criados por más razões - e um Estado economicamente sustentado pela União Europeia. O protótipo de um Estado inviável e exíguo, incapaz de cumprir as tarefas mínimas essenciais de qualquer Estado, teimosamente mantido pela comunidade internacional e não necessariamente pelas melhores razões.

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publicado por Joao Pedro Dias às 01:30

O fim do mito da igualdade

Quarta-feira, 18.01.12

 

"Os acontecimentos das últimas três semanas fizeram cair definitivamente a hipocrisia da União Europeia, que consiste em fazer acreditar que os Estados que a constituem são iguais, apesar de diferentes. Primeiro, a zona euro decidiu encontrar-se, deliberar e tomar decisões em comité restrito. Sem os outros e, por isso, sem nós [os polacos]. Isto prejudica e limita tanto o papel da Comissão Europeia, que desde a sua criação se apoia no princípio da igualdade entre os Estados, como o do Parlamento Europeu, cujos lugares são distribuídos entre os países-membros proporcionalmente às suas populações. Se o pacto europeu de estabilidade for adotado na sua atual forma, criar-se-á uma união dentro da União. Para um grande número de questões, esta união restrita ditará as condições aos outros, como hoje faz “Merkozy”.

Os 26 nada podem contra os alemães

Segundo, a decisão de baixar as notações financeiras de nove países da zona euro não terá, necessariamente, repercussões sobre o custo da dívida desses países (a descida de notação dos Estados Unidos não tem nenhuma influência desse género; quanto à dívida de Itália, é hoje mais barata do que quando o país tinha melhor notação). Essa descida influenciará, no entanto, a hierarquia informal entre os Estados-membros e o peso da voz de cada um deles dentro da União. Assim, a liderança da Alemanha, que manteve a sua classificação, é absolutamente confortável. Tal como o é a prudente política alemã de austeridade. A Alemanha, provavelmente, poderá contrair empréstimos com juros ainda mais baixos e estimular ainda mais o mercado, cavando mais ainda o fosso económico que a separa do resto da Europa. Consequentemente, os tratados quantitativos do tratado de Lisboa (o cálculo da maioria qualificada no seio do Conselho Europeu sobre um duplo critério: o número de Estados e o peso demográfico) perderão importância perante o papel crescente dos critérios qualitativos (qualidade do Estado e da economia). Vamos mesmo assistir ao declínio de “Merkozy”, desequilibrado pelo peso de uma Merkel demasiado poderosa em relação a Sarkozy. Será ainda mais difícil fazer seja o que for, na Europa, sem a Alemanha. Quanto aos restantes 26 outros países, nada podem contra os alemães (a não ser acabarem com a União).

As diferenças institucionalizadas

O processo de decisão e de repartição de vozes no Parlamento Europeu, na Comissão e no Conselho, tão laboriosamente negociados no tratado de Lisboa, desfazem-se em pedaços. Durante algum tempo, a União será como o futebol na época em que todos jogavam, mas só a Alemanha ganhava. Terceiro, o endurecimento da retórica e das decisões políticas em relação à Hungria demonstra que na União há alguns países que podem permitir-se fazer mais coisas do que outros. É verdade que Orbán tem uma retórica detestável e uma política económica estúpida. Mas, institucionalmente, não fez nada que não fosse tolerado noutros países. O seu assalto aos media não é mais antiliberal do que o que Sarkozy fez com a televisão pública francesa e, antes dele, Berlusconi com os media italianos. Quanto à BBC, desde sempre que a nomeação de quem a dirige depende diretamente do Governo. Do mesmo modo, o banco central húngaro está tão dependente do Governo como o Banco de Inglaterra ou a Fed norte-americana. A comunidade internacional tolerou tranquilamente e continua a tolerar situações semelhantes em França, em Itália, em Inglaterra, nos Estados Unidos, não porque tenham passado despercebidas, nem sequer pela sua timidez perante as grandes potências, mas simplesmente porque não vê nelas nada de repreensível. As grandes e antigas democracias, tal como os títulos de dívida alemães, têm um capital de confiança que tem faltado às jovens e pequenas democracias. Em certa medida, as diferenças sempre existiram e sempre pesaram. Mas, atualmente, exprimimo-las abertamente e não hesitamos em institucionaliza-las. Não sabemos quais serão, a longo prazo, as consequências de tudo isto para a Polónia e para a UE. Geralmente, a adaptação da forma (institucional) ao conteúdo (económico, por exemplo) tem como efeito racionalizar as instituições. Mas hoje, estamos a lidar com as emoções, ou seja com a política. As diferenças amplificadas emocional e politicamente, as diferenças divulgadas e institucionalizadas, tornam-se desconfortáveis para toda a gente. Muitos países aceitarão cada vez pior a posição da Alemanha dentro da União. A Alemanha, por seu lado, aceitará cada vez pior a manutenção dos esforços de solidariedade e de autorestrições. Isto significa que para além das tensões económicas e das políticas internas, são de esperar grandes tensões internacionais e problemas de decisão cada vez maiores. Pelo menos, até que uma nova lógica substitua a hipocrisia o mito fundador da União. Coisa que não se fará nem rápida nem facilmente". [Fonte]

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publicado por Joao Pedro Dias às 02:09

Viktor Orbán cada vez mais isolado

Sexta-feira, 06.01.12

 

"O reforço das prerrogativas do Executivo e o enfraquecimento dos contrapoderes são criticados por uma parte da imprensa húngara e também na Europa. Num momento em que o país é atingido por uma crise financeira, que se agrava à medida que aumenta a desconfiança dos investidores relativamente à política do Governo de Budapeste. Enquanto o semanário de esquerda 168 óra pede explicitamente "a demissão pacífica de Orbán, enquanto ainda lhe é possível fazê-lo", para "evitar a catástrofe económica", o seu confrade Heti Világgazdaság escreve que estamos a ver os créditos finais para a República da Hungria. Com a entrada em vigor, em 1 de Janeiro, da nova Constituição impulsionada pelo primeiro-ministro, Viktor Orbán, passa a ser apenas "Hungria". Este semanário divulga ainda parte de uma carta que recebeu do gabinete da comissária europeia responsável pela Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania, Viviane Reding, na qual é dito que a Comissão pode desencadear "um processo de infracção por desrespeito pelo direito comunitário" contra a Hungria. A carta adiantará que a Comissão pode utilizar todos os instrumentos disponíveis para assegurar os direitos fundamentais e os valores europeus na Hungria. Em princípio, não comentamos a Constituição de um Estado-membro mas as leis de todos os países [membros] devem ser conformes com a Carta dos Direitos Fundamentais da UE. A Comissão utilizará todos os meios para aplicar os valores da Carta na Hungria. As críticas começam a colocar numa posição difícil a própria imprensa próxima do Governo. Assim, o diário conservador Magyar Nemzet refere que, neste momento, o Governo se encontra sob "fogo cruzado" dos parceiros e das instituições europeias e, também, dos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional: Presentemente, já não se trata de uma brincadeira nem de uma simples conspiração internacional. Ainda que as críticas dos políticos e dos órgãos de comunicação europeus sejam por vezes injustas, e nalguns casos simplesmente ridículas, não temos alternativa. Evocar os resultados obtidos até agora pelo Governo já não faz sentido, porque a situação é muito mais grave. Não podemos evitar uma profunda autocrítica, pois é preciso sair rapidamente debaixo desse fogo cruzado. A gravidade da situação é tal que a atitude de Budapeste perante as críticas europeias parece ter mudado, salienta o HVG, segundo o qual “o Governo está disposto a negociar, sem condições, com o FMI e com a Comissão Europeia". O tempo urge, tanto mais que a crise financeira que afeta a Hungria começou a estender-se aos países vizinhos. Assim, o România libera refere que "a chantagem de Viktor Orbán" – se se permitir que a Hungria entre em falência, "a onda de choque terá repercussões na Europa" – pode "destabilizar a Europa de Leste". Em Praga, por exemplo, o Hospodářské noviny explica que a coroa checa, que desvalorizou 8% num ano em relação ao euro, está, neste momento, a ser "empurrada para o fundo pelo florim" húngaro." [Fonte]

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publicado por Joao Pedro Dias às 20:31

Refundar Europa o dejar morir el euro

Segunda-feira, 05.12.11

"Hay que distinguir lo urgente de lo fundamental. En estos momentos, el presidente francés, Nicolas Sarkozy, y la mayoría de líderes europeos tratan de convencer a la canciller alemana, Angela Merkel, para que afloje las riendas y deje manos libres al Banco Central Europeo (BCE) para que pueda comprar toda la deuda soberana que haga falta para desanimar a los especuladores. A cambio, Berlin intenta conseguir un gran acuerdo fiscal, que exigirá una férrea disciplina presupuestaria con durísimas sanciones a los infractores de déficit y deuda.Lo inaplazable ahora es lograr un acuerdo firme que devuelva la credibilidad a los mercados y no esperar al resultado de las siempre lentas reformas del Tratado. La crítica situación de los bancos, con el grifo del crédito cerrado por falta de liquidez, y el elevado coste de la deuda en países como Italia ha agotado el margen de maniobra. Quedan cinco días. La cumbre de los líderes europeos de los próximos días 8 y 9 es la última oportunidad para salvar el euro y afrontar con nueva energía la recesión que viene con 23 millones de parados como punto de partida.


Berlín intenta imponer una férrea disciplina con muy duras sanciones

Los fallidos e inaplicables acuerdos de los Consejos Europeos del 21 de julio y 26 de octubre pasados han dejado a la Unión Monetariaen una situación extremadamente crítica. Los líderes europeos conocedores de que el tiempo se acaba están dispuestos a prolongar la próxima cumbre “a lo largo de todo el fin de semana hasta alcanzar un gran acuerdo”, según fuentes comunitarias. La preocupación por la crisis del euro inquieta cada vez más a Reino Unido y a Estados Unidos, cuyo secretario del Tesoro, Timothy Geithner, visitará esta semana París, Roma, Madrid y Berlín para alentar a los líderes europeos a tomar los compromisos necesarios. Merkel y Sarkozy se reunirán en París el lunes para perfilar las distintas propuestas de reforma del Tratado, que implican una refundación dela Unión Monetaria. Las conclusiones serán presentadas antes de la cumbre al presidente del Consejo Europeo, Herman van Rompuy, quien las integrará a sus propuestas con las posiciones de los otros Estados y los trabajos dela Comisión Europea. El contenido de las reformas será objeto de un debate previo en la reunión que el Partido Popular Europeo (PPE) celebrará en Marsella los próximos días 7 y 8 —la primera a la que asistirá Mariano Rajoy tras su reciente victoria electoral— donde se esbozarán los principales acuerdos, dado que la práctica totalidad de los dirigentes europeos pertenecen a esta formación.


En la reunión del PP Europeo de Marsella se esbozarán los grandes acuerdos

“Merkel está apretando el acelerador hasta llevarnos a todos al borde del abismo para que aceptemos sus condiciones. Es como una arriesgada jugada de póquer, a ver quién aguanta más”, señala un alto funcionario comunitario. ¿Qué pide Merkel? La canciller propugna una unión fiscal de la zona euro. Sustancialmente, se trata de crear una autoridad fiscal europea, ya sea un ministro de Economía de la zona euro o un supercomisario, como el recientemente nombrado Olli Rehn, pero con los máximos poderes, especialmente para controlar e intervenir en los Presupuestos de los Estados miembros, endurecer las sanciones de los infractores de los límites de déficit y deuda, con la posibilidad de privarles del derecho de voto y retirarles los fondos comunitarios. Para Merkel es fundamental que los países que incumplan las normas de déficit y deuda establecidas en el Pacto de Estabilidad puedan ser llevados ante el Tribunal de la Unión Europea. Tambiénexige que los Estados inscriban en su legislación la regla de oro de lograr el equilibrio presupuestario. El debate de fondo es corregir los fallos fundacionales del euro que establecieron un sistema con una sola pata, la monetaria, pero sin la necesaria política fiscal quela equilibrara. Pero Francia mantiene sus reservas, sobre quién debe tener la última palabra sobre la decisión de las sanciones. Berlín propone que seala Comisión Europea, mientras que París no quiere ceder esta parcela de soberanía.


"La canciller juega a ver quién aguanta más", advierte un alto cargo de la UE

De las tres opciones previstas que se barajan para crear la Unión Fiscal—una amplia reforma del Tratado, un acuerdo intergubernamental o la modificación de un protocolo— la última parece la más probable, aunque todo ello es objeto de negociación entre los sherpas de Francia, Alemania y los funcionarios de la Comisión y del Consejo. Los cambios se podrían introducir en el Protocolo 14, dedicado al funcionamiento del Eurogrupo, y adjuntarlos al Tratado de Adhesión de Croacia, que está previsto que se firme en la cumbre del viernes. Aunque las modificaciones solo afecten a los 17 países del euro, los cambios deben ser aprobados por los Veintisiete. Todavía existen muchas discrepancias sobre el método a seguir para lograr una mayor integración europea. Amparándose en “el pragmatismo” que exigen los momentos actuales, Sarkozy abogó en su discurso en Tolon, que “la integración europea se producirá por el intergubernamentalismo, porque Europa debe hacer valer sus opciones estratégicas y políticas”. Una posición sobre la que ya había lanzado claras advertencias el presidente dela Comisión Europea,José Manuel Durão Barroso. En su discurso en Berlín del pasado 9 de noviembre, Barroso recordó que “la Unión Económica y Monetaria es finalmente incompatible con la lógica del puro intergubernamentalismo; porque requiere reglas y respeto de los compromisos y normas que van más allá de las presiones de los pares o de la mera cooperación entre los Gobiernos”.


París mantiene sus reservas para no ceder parcelas de soberanía

Los líderes europeos tienen cinco días para superar sus diferencias en múltiples frentes. No son solo las discrepancias entre Francia y Alemania. También están las divisiones en el seno de la zona euro entre estos dos países y sus aliados (Holanda, Finlandia, Austria) con el resto de titulares de la moneda única y a su vez el distanciamiento entre los 17 del euro y los 10 restantes miembros dela UE. Esel riesgo latente de la Europa a dos o tres velocidades. A este respecto, Durão Barroso ha advertido que “defenderá la integridad del mercado único [los 27] y de la moneda única [los 17]. La UE en su conjunto y la zona euro deben permanecer unidas y no deben dividirse”. Kirsty Hughes, investigador dela organización Friendsof Europe, ha subrayado que lo que está en juego es todo el proyecto europeo. “Los líderes y políticos europeos”, afirma en su último trabajo sobre la crisis del euro, “deben enfrentarse a la profundidad de la crisis y reconocer especialmente que es una crisis política y democrática y no solo económica”." [Fonte]

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publicado por Joao Pedro Dias às 03:03

V.Exas importam-se de se entender, de uma vez por todas?

Segunda-feira, 26.09.11

Duas notícias contrastantes marcam o dia de hoje:

Europa pondera aumento do fundo de resgate para dois biliões 

Alemania responde a Bruselas que no reforzará el fondo de rescate

Ambas as notícias saíram o dia de hoje. A primeira, a ser verdadeira, seria boa em demasia. Significaria que a União Europeia se estaria a dotar de um verdadeiro Fundo de Estabilidade Financeira, suficientemente forte para fazer face a quaisquer investidas contra o euro, sobretudo se as mesmas tiverem Itália ou Espanha por objecto. Significaria que Bruxelas transmitiria aos mercados uma mensagem de união e coesão até agora inexistente. Infelizmente, hoje mesmo, o Ministro alemão das Finanças já se encarregou de vir desmentir o Comissário Europeu, negando qualquer plano europeu que aponte nesse sentido. Ou seja, quanto mais a Europa da União parece aproximar-se do precipício para que inelutavelmente se encaminha, mais os seus principais responsáveis parecem apostados em facilitar esse caminho, quiçá mesmo em dar o empurrãozinho que por vezes parece faltar. Tarde ou cedo a liderança europeia chegará à inelutável conclusão de que o projecto europeu só se poderá salvar, se necessário for, à custa dos interesses particulares de alguns dos seus Estados-Membros. A questão está em saber se, esse momento vindouro, não será demasiadamente tardia. Porque os europeus de hoje, com os seus líderes â cabeça, parece ainda não terem compreendido que o futuro se joga no quadro dos grandes espaços geopolíticos - sejam eles os EUA, a China, o Brasil, a Índia, a Oceânia..... ou a própria Europa. E, nessa lógica, será contra-corrente que a Europa da União regredirá à época das suas soberanias parciais e limitadas - onde a maior das suas partes não será mais do que uma ínfima e irrelevante parte no quadro dos grandes espaços que já se estruturam. É a consciência desta realidade que parece tardar. E por isso urge denunciá-la. 

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publicado por Joao Pedro Dias às 21:42

A cooperação transatltântica

Sábado, 20.11.10

Terminou a Cimeira da NATO e todas as que se lhe sucederam como apêndices – nomeadamente a Cimeira UE – EUA. Para além do show-off mediático, sabe-se que, doravante, a NATO já tem o seu (novo) conceito estratégico, o terceiro após a queda do Muro, não menos generalista do que os anteriores, que permite as mais diversas leituras, como convém, para poderem ser legitimadas as políticas e as acções que a conjuntura recomendar. Parece ter sido abandonada a noção de «actor global» que volvia a organização numa espécie de polícia do mundo, em benefício dum conceito de «parceiro global» que coloca a organização em diálogo com outras entidades e organizações. Sabe-se, por igual, que vão difíceis as coisas no Afeganistão, e que qualquer retirada imediata apenas pode ser vista como uma miragem. E o esforço de partenariado com a Rússia não foi ao ponto de levar à abdicação do estratégico guarda-chuva nuclear, a instalar para protecção de inimigos não nomeados mas suficientemente identificados. O que não parece ter mudado significativamente foi a dependência, estratégica e de meios, da potência sobrante do mundo da guerra-fria, os EUA – os quais, é bom recordar, se encontram em acelerado processo de revisão do seu próprio conceito estratégico nacional, sendo inequívoca a primazia conferida às economias emergentes (Índia, Brasil, etc) e a deslocação para o Pacífico das suas opções preferenciais. Ou seja – o conceito estratégico da NATO, por muito importante que seja – e é-o – continua umbilicalmente dependente e subordinado ao conceito estratégico da sua potência liderante. E se somarmos ao facto de este estar a privilegiar a costa do Pacífico o facto de o próprio pilar europeu da Aliança não ter uma visão clara, uniforme e coerente sobre a dimensão transatlântica da sua política exterior, parece evidente que é essa mesma coesão transatlântica que fica comprometida e debilitada. A reafirmação dos laços transatlânticos, traduzidos em efectivos dados de facto – nomeadamente numa partilha efectiva de custos políticos quando a tanto houver lugar – e não apenas em pungentes declarações retóricas, constitui o ponto de partida para um novo e reforçado relançamento entre os EUA e a Europa, sobretudo a da União.

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publicado por Joao Pedro Dias às 17:35

Quanto custa o silêncio da Europa?

Segunda-feira, 08.11.10

Com os bolsos cheios de dinheiro, o Presidente chinês Hu Jintao continua o seu périplo económico e comercial por uma Europa em profunda crise económica, financeira e social – investindo em sectores estratégicos para o desenvolvimento chinês e garantindo a aquisição de parte importante das dívidas soberanas dos Estados europeus que se encontram em maiores dificuldades. Foi assim na Grécia, foi assim em França, foi também assim em Portugal. Como já é assim nos EUA, que são devedores de uma parte significativa da sua dívida externa justamente a Pequim. Este movimento de aproximação da República Popular da China à Europa surge no exacto momento em que despontam sinais de um maior distanciamento entre a Europa e o seu aliado norte-americano. As recentes eleições legislativas nos EUA, fortalecendo os republicanos na Câmara dos Representantes, podem ter contribuído para aumentar esse distanciamento. A cimeira da NATO em Lisboa na próxima semana, a par da cimeira bilateral EUA – UE que vai decorrer em paralelo e dos demais encontros bilaterais que não deixarão de juntar o Presidente Obama a alguns dos principais líderes europeus, podem contribuir para diminuir esse distanciamento. Veremos como se desenrolarão os encontros agendados. Quem não perdeu tempo e se antecipou a essa(s) Cimeira(s) foi o supremo magistrado chinês. Com os bolsos cheios, veio anunciar o auxílio à Europa que sabe que os EUA não estão em condições de prestar neste momento. Os Estados europeus, aflitos e endividados, aceitaram de bom grado a ajuda chinesa. Só que, como não há almoços grátis, todo o auxílio tem o seu custo. No caso vertente o preço parece fixado – é o preço do silêncio. Nada de perguntas sobre direitos humanos, nada de perguntas sobre o Tibete, nada de perguntas sobre o Dalai Lama, nada de perguntas sobre o Nobel encarcerado, nada de perguntas sobre os presos políticos e os prisioneiros de consciência, nada de perguntas sobre os exilados internos de que Pequim não abre mão. E, por acréscimo e como bónus, um maior distanciamento dos EUA. Foi este o preço da Europa. O preço do seu silêncio. Pequim achou que compensava pagá-lo. A Europa achou que compensava vendê-lo.

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publicado por Joao Pedro Dias às 03:05

Construindo a União Europeia

Terça-feira, 28.09.10

N’O Público de hoje, sob o título em epígrafe, Vital Moreira escreve que «a aprovação, pelo Parlamento Europeu, na semana passada, do pacote legislativo sobre as autoridades europeias de supervisão financeira não é somente a mais importante das lições retiradas da crise bancária e financeira oriunda dos Estados Unidos há dois anos mas também um enorme passo em frente na construção institucional da União Europeia. Haverá mais regulação, mais supervisão e mais Europa. […] Para mais, este pacote legislativo pôde beneficiar do voto favorável de uma vasta convergência política, desde PPE aos socialistas europeus, só ficando de fora os grupos anti-europeístas do costume, designadamente a “Esquerda Unida Europeia” (que integra os deputados do PCP e do BE) e a direita nacionalista, que preferiram votar contra ou abster-se. Como se vê, uma reforçada legitimidade política para esta verdadeira revolução na edificação constitucional europeia». Subscrevo na íntegra.

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publicado por Joao Pedro Dias às 00:55

A UE entre Belgrado e Pristina

Sexta-feira, 10.09.10

A AG da ONU aprovou ontem uma resolução sem precedentes – negociada entre a UE, a Sérvia e o Kosovo – onde se apela a que estes dois Estados iniciem um diálogo, mediado pela UE, sobre o diferendo que mantêm a propósito da independência do Kosovo, incidindo o mesmo sobre questões que podem melhorar as condições de vida das populações sérvia e kosovar, a começar pelo regresso dos refugiados e as telecomunicações em ambos os territórios, volvendo-se, assim, num factor de paz, de segurança e de estabilidade na região. Dificilmente Pristina e Belgrado – cujo MNE, Vuk Jeremic, em declaração preliminar fez questão de sublinhar que o seu país “não reconhece nem reconhecerá” a independência do Kosovo, deixando bem claro as dificuldades existentes neste processo – poderiam ter ido mais além do que foram. Mas a UE, patrocinando o diálogo, esteve ao nível do que se lhe exige, na perspectiva de desempenhar um papel activo neste mundo global – ainda que essa intervenção mais não faça do que reconhecer o quão impreparado estava o Kosovo para aceder a uma independência arquitectada em Washington para retalhar esta parte dos Balcãs e que agora está a ser amplamente paga por fundos e verbas da Europa da União. E daí, também, o interesse da UE em agir e intervir.

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publicado por Joao Pedro Dias às 01:22

O primeiro discurso sobre o «estado da União»

Terça-feira, 07.09.10

Valeu mais pelo circunstancialismo associado à inovação do que pelo conteúdo intrínseco, o primeiro discurso sobre o «estado da União» pronunciado pelo Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, ante o Parlamento Europeu. Goraram-se as expectativas, porém, dos que esperavam novidades de monta no discurso de Barroso, porque o Presidente da Comissão não foi além do já enunciado em outros momentos mais solenes deste seu segundo consulado e nomeadamente na comunicação de abertura do mesmo feita ante o mesmo Parlamento Europeu – enfatizando a grave crise económica que afecta a UE e, sobretudo, os dramas associados ao aumento do desemprego. Já que o momento se inspira naquele que anualmente leva os Presidentes dos EUA a expor perante o Congresso norte-americano as prioridades de cada administração para o ano que se inicia, poderia também o Presidente da Comissão ter optado por enunciar os grandes objectivos da sua administração no ano político que está a começar, nomeadamente os esforços de aprofundamento do projecto europeu que se dispõe liderar – preferiu, antes, seguir caminho mais prudente e menos arriscado, limitando-se ao óbvio e não cedendo à ousadia. Vencido o circunstancialismo associado à novidade, fica sempre a esperança que no discurso do próximo ano a ambição consiga marcar pontos.

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publicado por Joao Pedro Dias às 01:38