Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Recordando João Paulo II

Sábado, 30.04.11

Beatificado amanhã por Bento XVI, a comunidade católica prepara-se para elevar Sua Santidade o Papa João Paulo II aos seus altares, para gáudio e alegria da generalidade dos seus fiéis. A verdadeira dimensão do vasto pontificado do Papa-operário está ainda por revelar em toda a sua amplitude. Só a distância histórica, que apenas o decurso do tempo proporcionará, nos irá revelar essa mesma dimensão. Uma certeza, porém, é já adquirida e certa - a actuação do Padre Wojtyla enquanto Bispo de Roma e pastor universal da Igreja esteve muito para lá da esfera pastoral e religiosa. João Paulo II foi uma das figuras de referência do seu e nosso tempo e a sua intervenção em muitos dos acontecimentos temporais do último quartel do século passado e dos primeiros anos deste foi verdadeiramente determinante.


A propósito desta beatificação, retornei a um texto académico escrito há uns anos onde, reflectindo sobre algumas das figuras maiores do nosso europeísmo e do projecto europeu, escrevi o que agora aqui partilho.

«Quando em 16 de Outubro de 1978 o mundo cristão se aperce­beu que saía fumo branco da Ca­pela Sistina do Vati­cano, anunci­ando, urbi et orbi, a eleição de um novo Papa — de um Papa eslavo e, sobretudo, de um Papa polaco — para suces­sor de Pedro, nin­guém so­nhou estar a pre­sen­ciar o primeiro passo no sentido de ser ultra­passado o condi­cio­na­lismo bi­polar e a artificial di­visão da Eu­ro­pa em dois blocos emer­gente do mundo da guerra–fria no pós–se­gunda guerra mundial. O certo é que a imagem serena e tutelar, provi­dencial­mente inspiradora, do novo Pontí­fice e a sua permanente dou­tri­nação em prol da cons­tru­ção da paz na Eu­ropa e no Mundo viriam a as­sumir–se como ver­da­dei­ra­mente determi­nan­tes em to­dos os acontecimentos que se su­cede­ram na Eu­ropa Central e de Leste no último ano da dé­cada de oi­tenta e nos primeiros anos da dé­cada de no­venta. A Cristandade pas­sava a dis­por de um Pastor que, pela sua vida, era ele próprio exemplo con­creto de luta contra a opressão e a sub­missão. Contra o totalitarismo e a tira­nia. Mesmo as­sim, quando a 17 de Agosto de 1980 os operários pola­cos em greve nos es­ta­leiros de Gdansk colo­cavam lado–a–lado, em lugar de destaque, presidindo às suas mani­festa­ções e às cerimónias reli­gio­sas que celebravam e pre­sos às grades dos portões des­ses mesmos es­talei­ros, a imagem da Virgem Negra de Czesto­chowa, a ban­deira do “Soli­darnosc” e a fotogra­fia de João Paulo II, pou­cos ou ne­nhuns se aper­cebe­ram que era o Muro de Berlim que aba­nava e que era a sua pri­mei­ra pe­dra que era derru­bada. E, no en­tanto, era o mundo so­cia­lista e a mai­o­ria dos seus funda­men­tos que estavam a ser postos em causa — no cora­ção da Eu­ropa. E nos seus mais pro­fun­dos alicerces. Im­po­tentes, sur­pre­endidos, atóni­tos, o Estado que opri­mia, o Partido que li­dera­va e a No­menkla­tura que gover­nava viam operários em luta subs­tituírem a en­to­a­ção d’A In­terna­cio­nal pelo cântico do «Chris­tus vincit...». Iniciava–se um proces­so lento e mo­roso. Mas ine­lutá­vel — porque irrever­sível. Um processo que teve os seus heróis. En­car­rega­dos de honrar a me­mó­ria dos seus mártires — à cabeça dos quais apare­cerá a figura do jo­vem padre Jerzy Po­pieliu­zko, sa­cer­dote católico próximo do "Soli­darnosc", rap­tado a 19 de Outubro de 1984 tendo o seu cadá­ver sido en­contrado a 30 de Ou­tubro com marcas e si­nais de tortura abomi­ná­vel.


A Europa, pela primeira vez desde a segunda guerra mundial, pre­sen­ciava uma ver­da­deira re­volução ope­rá­ria. Com a particu­laridade de retirar a sua enorme força dos ser­mões pontifi­cais — e da própria comunhão matinal. E tão profunda nos seus anseios e tão forte nas suas ambições que não se limi­ta­ria ao territó­rio po­laco. Lenta e gra­du­almen­te era a Pala­vra que era es­palhada e divul­gada; era a Mensagem que era lida e trans­mitida — e que poder algum, so­bre­tudo porque er­rático, pôde tra­var — em Berlim, em Praga, em Só­fia, em Bu­dapeste, em Bucareste, em Vil­nius, em Tal­lin, em Riga, em Mos­covo... Um a um, em es­cas­sos meses, os re­gimes políti­cos do velho Leste Europeu ce­deram de forma completa e ca­pitu­laram de forma to­tal ante a ânsia de li­berdade de po­vos mu­dos de­se­jo­sos de faze­rem ouvir a sua voz e de fazerem es­cutar os seus an­seios. Isso mesmo o Papa–mineiro assumiu logo no início do seu pontificado. Escassos dias após as­sumir a cadeira de Pe­dro, quando visitava Assis, a ci­dade de S. Francisco, um dos San­tos patro­nos de Itália, al­guém supli­cava ao pon­tí­fice que não esquecesse a Igreja do Silêncio. A resposta pronta do Bispo de Roma — “já não é a Igreja do Silêncio porque fala através da minha voz” — mais do que tran­quilizar quem o inter­pelava vol­veu–se numa constante refe­rência do seu pontifi­cado.


Não existe melhor demonstração da atitude do magistério da Igreja católica sob o pon­tifi­cado de João Paulo II do que o seu re­conhecimento simbólico, a 31 de De­zembro de 1980, de S. Cirilo e S. Método, ao mesmo tempo que S. Benoît, como santos patro­nos da Europa. Para João Paulo II não pode existir casa eu­ropeia sem as nações e culturas da Eu­ropa central e oriental. A sua pers­pec­tiva paneuropeia, a sua Europa «do Atlântico aos Urais», deve ser encarada como uma garantia contra to­das as tentativas de construir uma Eu­ropa oci­dental que excluísse as na­ções esla­vas[1].


Por outro lado, em vários dos seus discursos, a visão de João Paulo II vai mais além e mais longe do que a op­ção pela constru­ção de uma união política. Para o Papa, o mais im­portante é o que Ja­cques Delors chama de «alma da Eu­ropa». Pela sua insistência sobre os fundamentos espiri­tuais e éticos, João Paulo II confirma a preocupação já ex­pressa por Pio XII na sua mensa­gem aos pro­fesso­res e alunos do Colégio de Bruges, em 15 de Março de 1953: «para uma co­o­pe­ração entre os vários países, apenas os valores espirituais repre­sen­tam uma garantia eficaz». Da mesma forma João Paulo II vê mais longe e mais além que os interesses políti­cos e econó­micos, na consideração pela funda­mental he­rança cultu­ral e religiosa da Europa. Se a Eu­ropa se pre­tende tornar em algo mais do que uma ideia abs­tracta ou uma ideologia, deve cultivar uma memó­ria co­lectiva [Gerwen e Sweeney, 1997: 223].


Por isso João Paulo II — pro­clamando o Verbo em Puebla, ex­cla­mando em Roma que «Foi Deus que ven­ceu a Leste!», exor­tando em Santi­ago os Ho­mens a se­rem Ho­mens e os Jovens a serem Jo­vens, ad­vo­gando a Casa Co­mum Europeia em Es­trasbur­go, enun­cian­do a men­sagem da Paz em As­sis[2], in­citando ao respei­to pe­las Nações em Nova Ior­que ou con­denando o capita­lismo sel­vagem com a mesma vee­mência com que cen­su­rava o mar­xismo em plena Praça da Revolu­ção de Havana e ante um Fidel Castro per­plexo — se­gu­ra­mente que faz parte da lista e integra o rol dos pro­jectistas da paz [Moreira, 1995: 14]. Das vo­zes que se ou­vem e da palavra que se faz es­cu­tar é, no nosso tempo, o protó­tipo e o mode­lo. Sem com­plexos e sem medos; apontando o dedo acu­sador para os erros passa­dos da pró­pria Igreja — as Cru­zadas, o tráfico de escravos, o caso Gali­leu, os agra­vos infli­gidos aos não católi­cos, os ódios do pas­sado, a divi­são entre cris­tãos, os erros perante os Hebreus, os con­luios com a Máfia, a marginali­zação da mu­lher [João Paulo II, 1995]; alertando os eu­ropeus, sobretudo dos Esta­dos da antiga Eu­ropa sovié­tica, no de­curso da visita de despedida à sua Polónia amada, para os pe­ri­gos do capita­lismo desenfreado e da es­cravidão do mercado — tão des­respeitado­res da dignidade humana como a ti­rania de todos os poderes erráticos; mas par­tilhando igual­men­te, em sinal de es­pe­rança, o de­se­jo de que nin­guém se subtraia à tarefa de construir uma Eu­ropa fiel à sua no­bre e fe­cunda tradição civil e espi­ritual. Re­conhe­cendo, de­certo, as inúmeras vezes em que a Europa, no passado, teve de en­fren­tar períodos difíceis de transformação e de crise; mas reco­nhecendo, igualmente, que sempre os su­pe­rou ex­traindo uma nova linfa das ines­gotáveis re­servas de ener­gia vital do Evangelho [João Paulo II, 1995].


Atento às questões do seu tempo, o pontífice não se cansa de meditar e de re­flectir sobre a questão europeia e o papel reservado à Igreja na Europa alargada que se perspectiva [João Paulo II, 2003]. E, na antecâmara da assinatura de um tratado constitucional, é a sua voz débil que se escuta instando os Estados membros, que se aprestam a reunir em conferência intergovernamental, para que o mesmo tratado não esqueça uma referência ao património cristão europeu, fundador da identidade eu­ro­peia — «de­sejo uma vez mais dirigir-me aos redacto­res do futuro tratado constitucio­nal euro­peu, para que seja inserida nele uma refe­rência ao pa­trimónio religioso, espe­cial­mente cristão, da Europa». E, na mesma reflexão, pronunciando-se sobre as difer­en­tes organizações europeias, não deixou o Bispo de Roma de deixar a sua pertinente observação: «No caminho que leva a desenhar o novo rosto da Europa, é determi­nante sob muitos aspectos o papel das instituições internacionais, ligadas e operantes sobre­tudo no territó­rio da Europa, cuja contribui­ção tem marcado o curso histórico dos acontecimentos, sem se empenharem em operações de carácter militar. A tal propó­sito, desejo mencionar, em primeiro lugar, a Organização para a Segurança e a Coope­ração na Europa, empenhada na manuten­ção da paz e da estabilidade, nomea­da­mente através da defesa e promoção dos direitos humanos e das liberdades funda­mentais, e também na cooperação econó­mica e ambiental. Temos depois o Conselho da Europa, do qual fazem parte os Estados que subscre­veram a Convenção Europeia de 1950 para a salvaguarda dos direitos humanos fun­damentais e a Carta Social de 1961. Anexo a ele, existe o Tribunal Europeu dos direi­tos do homem. Estas duas in­s­tituições, através da cooperação política, social, jurí­dica e cultural, e ainda da pro­mo­ção dos di­reitos humanos e da democracia, visam a realização da Europa da li­ber­dade e da so­lidariedade. Por último, aparece a União Europeia, com o seu Parla­mento, o Con­selho de Ministros e a Comissão, que pro­põe um modelo de integração que se vai aperfeiçoando tendo em vista adoptar um dia uma carta fundamental comum. A fi­na­li­dade de tal organismo é realizar uma maior unidade política, económica, monetá­ria entre os Estados-membros, quer os ac­tuais quer os que virão a fazer parte dele. Na sua diversidade e a partir da identidade específica de cada uma, as referidas insti­tuições pro­movem a unidade do continente e, mais profundamente, estão ao serviço do homem».


No seu tempo, que foi o do fim de um milénio e advento de um novo, a voz de João Paulo II conta-se entre as que honram e engrandecem a galeria dos notáveis projectistas da paz.»


 

 

[1] Sobre a posição histórica da Igrja católica face ao processo de unidade europeia, veja-se da Aba­dia de Monges de Saint-Pierre de Solesmes, L’Europe unie dans l’enseignement des Papes. Paris. 1981. 

[2] Sobre a Mensagem de Assis, Adriano Moreira [1994b].

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Joao Pedro Dias às 19:56

Recordando Gdansk

Terça-feira, 31.08.10

Faz hoje precisamente 30 anos que foram assinados os Acordos de Gdansk, entre os trabalhadores dos estaleiros navais e o governo polaco, que puseram fim a duas semanas de greve quase geral na Polónia. Os Acordos, que institucionalizaram formalmente a existência do Solidariedade, deram aos trabalhadores, pela primeira vez num Estado do bloco soviético, o direito de serem liderados pelos representantes que escolheram, o direito a formarem associações livres e o direito à greve. Da sua existência não poderá ser dissociada a figura tutelar e providencial de João Paulo II, que havia ascendido à liderança da Igreja católica a 16 de Outubro de 1978. 30 anos depois, muito na Europa mudou: implodiu a URSS, caiu o Muro de Berlim, reunificou-se a Alemanha, nações constituíram-se em Estados, outros desapareceram dando origem a novas realidades estaduais, a União Europeia ampliou-se ao absurdo, desapareceram o Pacto de Varsóvia e o COMECON, a democracia e a liberdade, com raras excepções, varrem o continente, do Atlântico aos Urais. O que não está dito nem escrito, em lado algum, é que a crise de valores e de princípios que surgiu associada a toda esta vasta revolução que nos foi dado viver, bem como o triunfo duma certa teologia do mercado, não tenham contribuído para criar novos desafios identicamente exploradores da condição e da dignidade humanas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Joao Pedro Dias às 19:19

Recordando os vinte anos da queda do Muro de Berlim

Domingo, 01.11.09

Para assinalar os vinte anos da queda do Muro de Berlim, reuniram ontem em Berlim, numa cerimónia presenciada por uma imensa multidão, três anciãos, três homens doentes que, apesar de tudo e da sua condição actual, foram três dos artífices desse momento inigualável da nossa História contemporânea: o ex-chanceler federal Helmut Kohl, o ex-Presidente soviético Mikhail Gorbatchov e o ex-Presidente dos EUA George Bush. Foram, em conjunto, três dos mais importantes obreiros dum feito que, pondo fim à ordem internacional estabelecida em Ialta no final da segunda guerra mundial, permitiu abrir as portas para o final da guerra-fria e criou as condições para que a Europa se reencontrasse consigo própria, pondo fim ao anátema da divisão que pairou sobre o velho continente durante quase meio século. Se a Europa política coincide hoje, praticamente, com a Europa geográfica, isso deve-se muito à actuação dos 3 estadistas que ontem se reencontraram em Berlim. Do grupo restrito de responsáveis pelo sucesso alcançado, faltou à cimeira de Berlim apenas a figura tutelar e providencial do saudoso Papa João Paulo II, sem cujo magistério de influência dificilmente se teriam alcançado os resultados que se alcançaram. E, se quisermos abrir um pouco mais o leque - sem esquecermos o exemplo dos mártires que deram as suas vidas pela liberdade na Europa e nos seus países (e aí podemo-nos servir dos exemplos do estudante checo Jan Palach auto-emulado na Praça de S. Wenceslau em Praga a 16 de Janeiro de 1969 porque era urgente protestar contra a sovietização da sua pátria, ou do padre Popieluzco, assassinado pelos serviços secretos polacos por ser simpatizante do sindicato livre Solidariedade) ou dos intelectuais que, formando uma autêntica Internacional de Dissidentes, recorreram ao poder do verbo para denunciar as atrocidades cometidas contra os seus concidadãos (de que é exemplo Vaclav Havel, futuro Presidente da Checoslováquia livre e da nova República Checa, inspirador da Carta 77 e autor d'«O Poder dos sem poder» - talvez devamos referenciar mais dois nomes que se encontram ligados aos acontecimentos que agora se recordam - Lech Walesa e Ronald Reagan. O primeiro, na sua Polónia natal, foi o primeiro a ousar defrontar o poder errático dentro das suas próprias fronteiras brandindo como arma apenas a palavra e buscando as suas forças nas eucaristias diárias celebradas à porta dos estaleiros navais de Gdansk; o segundo, ao apostar na credibilização e fortalecimento da política externa dos EUA, confrontou o poder soviético com as suas próprias debilidades, levando-o a reconhecer a sua incapacidade para competir com o mundo livre ocidental nos domínios económico e militar em simultâneo. Apostando no reforço do poder militar norte-americano, criou condições para o reconhecimento do fracasso do modelo soviético.

Mas este encontro de Berlim teve também o condão de permitir recordar aqueles que, mesmo no campo ocidental, sempre se mostraram, mais ou menos explicitamente, adversários declarados da reunificação alemã - primeiro passo para a própria reunificação europeia e a queda dos regimes ditatoriais do leste europeu. Desde logo, François Mitterrand, o Presidente francês a quem é atribuída a célebre expressão de que gostava tanto da Alemanha que preferia que houvesse duas em vez duma única e reunificada. Resquícios antigos de divergências seculares que, recorde-se, estiveram na base do próprio projecto comunitário e da Declaração Schuman de 9 de Maio de 1950. Mas também Margaret Thatcher, cuja antipatia e desconfiança pelo processo de reunificação das duas Alemanhas nunca foi escondido - e alguns dos seus biógrafos e colaboradores mais chegados têm relatado com detalhe insuspeito.
Olhando para a fotografia que regista esta encontro de Berlim, é também uma onda de nostalgia que perpassa e não pode deixar de ficar registada. Desde logo pela certeza de terem sido tempos historicamente relevantes e que irão ficar para a História aqueles que, nos finais dos anos oitenta e princípios dos anos noventa do século passado, puderam ser vividos e de forma apaixonante - ainda que, eventualmente, sem uma consciência perfeita (que só nos é dada pela distância histórica) da sua importância e da sua relevância. Mas também pela convicção de que as actuais lideranças europeias (e não só) se encontram a considerável e enorme distância da qualidade das lideranças de há vinte anos....

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Joao Pedro Dias às 01:58

Cracóvia, 2,5 milhões

Segunda-feira, 19.08.02
As televisões do mundo inteiro não foram parcas em imagens. E estas impressionaram pela sua dimensão e amplitude. A Eurcaristia campal celebrada pelo Papa João Paulo II, na nona visita pastoral à sua Polónia natal, terá sido a maior manifestação ou celebração religiosa alguma vez realizada ao cimo da Terra, num único local. Mais de dois milhões e quinhentas mil almas, ao vivo, escutaram a voz débil do sucessor de Pedro. A grande ilação, que se transforma em certeza que contribui para alimentar a Fé dos crentes, é que, para além da Igreja católica, nenhum outro movimento ou organização teria semelhante capacidade de mobilização e conseguiria juntar tantos seguidores, em pleno mês de Agosto, e em qualquer parte do Mundo. Por isso a dúvida é pertinente e justifica-se plenamente: o que fará com que a figura doente e frágil de Karol Woytjla, com os seus 82 sofridos anos, concite à sua volta tamanha onda de entusiasmo e tal capacidade de mobilização? A simples empatia pessoal dos fiéis polacos com a figura primeira da cristandade, de visita à sua pátria amada, será razão que justificará algo. Porém, não explicará tudo.
A essência da resposta deverá, salvo melhor opinião, buscar-se no conteúdo da mensagem e da doutrina de que o Pontífice se fez eco. Alertando o Mundo para a necessidade de a liberdade ser vivida com responsabilidade e para o facto de esse mesmo Mundo parecer viver como se Deus não existisse – dando como exemplo os casos do desenvolvimento desregrado da engenharia genética e da eutanásia – o Papa deu mais uma mostra insofismável de que a dimensão divina está a reocupar um lugar de destaque na comunidade internacional em mudança e ousou ser politicamente incorrecto e denunciar os erros graves de uma globalização selvagem que oprime e explora tanto quanto os poderes erráticos que sucumbiram à ânsia de liberdade que derrubou as ditaduras do leste europeu no inicío da década de noventa. O rebanho percebeu a mensagem do pastor. Curvou-se em silêncio ante as denúncias efectuadas pela voz tribunícia do Bispo de Roma. Limitou-se a entoar cânticos de esperança. Recusou a ideia mediática de uma viagem pela enésima vez anunciada como de despedida.
Numa sociedade em que, infelizmente, o ter tende a prevalecer sobre o ser, fazem bem estes momentos de chamada de atenção e o retorno aos valores que parecem tão arredios da vida pública. Dois milhões e quinhentos mil polacos acorreram à chamada e mostraram que, afinal, as doutrinas, as ideologias e as ideias não morreram – ao contrário do que, precipitadamente, se apressaram a proclamar os defensores das teses do fim da história. Sejam as doutrinas, as ideologias ou as simples ideias apelativas – e não faltará quem responda à convocatória. Na Polónia ou em qualquer outra parte do Mundo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Joao Pedro Dias às 02:46






links

ORGANIZAÇÕES EUROPEIAS

COMUNICAÇÃO SOCIAL



comentários recentes

  • Jorge Greno

    Mas então o Português deixou de ser língua oficial...

  • Pedro

    Bom dia,O Casa Europa está novamente em destaque n...

  • Henrique Salles da Fonseca

    BRAVO!!!Todos os políticos no activo praticaram o ...

  • O mais peor

    Até que enfim o sapo destaca um blogue de valor qu...

  • De Puta Madre

    Eu Gostaria que o Espaço Europeu não Tivesse nos S...

  • Dylan

    Se no caso egípcio, algumas pessoas acharam por be...

  • Carlos Medeiros

    Gostei do post. Estou totalmente de acordo. E cons...

  • silveira

    Não é isso que diz a notícia!... De qualquer forma...

  • silveira

    Se eu fosse juíz sentiria vergonha por esta rejeiç...

  • silveira

    É claro como água!... Para voltarmos a ter justiça...